Maria Gilka
A
inquietação
aliada à
técnica
A
inquietação é uma
característica
essencial dos
artistas. O
grande
dilema está
em
transformar
esse
sentimento
em
arte.
Conseguir
realizar essa
passagem é
um
processo
constante
que exige
intuição e
técnica. A pintora Maria Gilka apresenta
em
seu
trabalho essa
dinâmica.
O
principal
fator
que a
leva a essa
força
criativa é o
fato de
ela
não
ser uma
copista. Seja no
trabalho
com naturezas-mortas
ou
com
retratos,
sempre
deixa
espaço
para a
sua
pincelada
pessoal.
Isso significa
partir do
real e o
transformar
com
sensibilidade.
A
maior
base do
pensar
artístico de Maria está no
desenho. Daí
sua
devoção
pela
figura
humana,
vista
não
apenas
como
um
universo
estático,
mas
repleto de
sentimento. A
teoria e a
técnica
não se tornam
assim
um
mero
instrumento,
mas
um procedimento de
captar
pelo
olhar a
realidade e transformá-la num
pessoal
discernimento do
mundo.
O
exercício de
pintar está na
arte de
tomar
idéias e de levá-las
para a
tela. O
jeito de
tornar
um
pensamento
um
produto
plástico está no
exercício
físico
que vai da
mente aos
dedos
que seguram os pincéis. Maria,
em
seus
melhores
retratos, enfrenta essa
prova
com consistência,
perseverança e uma
certa
ironia.
A
produção
não carrega na dramaticidade,
pois o
talento da
artista está na
capacidade de
observar. A
sua
principal
qualidade está
justamente
em se
enxergar
sempre
com desconfiança e
humildade,
sem se
deixar
dominar
pela
presunção e a
grandiloqüência
que afastam da
pincelada a
simplicidade.
Aprendiz de
si
mesma,
fato constatável
pelo
hábito de
retomar
quadros
próprios
para
inserir
novas
camadas e
soluções, Maria Gilka
vê a
arte
como
eterno
recomeçar. Preserva a
pureza de
quem faz o
primeiro
quadro, a
inquietação da
estudante e a
generosidade de
quem sabe
como
cada
produção é
um
desafio
que alia o
ver ao
sentir.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da UNESP, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).