por Oscar D'Ambrosio


 

 


Margot Dreger

 

            A fragmentação do espaço

 

            Trabalhar o espaço urbano é um desafio para o artista plástico. Por um lado, comporta inúmeros elementos de sedução, como a movimentação de massa de pessoas e o dilema de indivíduos perdidos e sozinhos na multidão. Por outro, a estrutura arquitetônica de uma grande cidade, com seus edifícios, geralmente retos e impessoais, gera possibilidades de instigante pesquisa.

              A pintora Margot Dreger, alemã radicada no Brasil, ergue, em tinta acrílica, um cosmos imagético de cunho expressionista marcado pela fragmentação permanente das dimensões da cidade: a do indivíduo e a dos prédios que se articulam de forma opressiva sobre cada pessoa.

            A cidade que apresenta, seja São Paulo, Londres, Paris ou Viena, caracteriza-se pelo predomínio do sentimento e da visualidade da vivência de seres encurralados e abandonados. As figuras humanas não surgem muito, pois é justamente a transformação do espaço urbano num universo pouco convidativo que é realçado em cada tela.

            As cidades de Margot, porém, embora áridas, não afastam o observador. Pelo contrário, criam um sentimento de cumplicidade. Mesmo quando são estilhaçadas, como janelas a voar pelo espaço em busca de uma liberdade não oferecida pelas construções de cimento ou de vidro, mantêm a coerência de propiciar um vislumbrar diferenciado, em que cada vez se olha menos o tema e se mergulha mais na maneira como os trabalhos são feitos.

            Não é por acaso que as obras mais contundentes são exatamente aquelas em que a cidade começa a se diluir. Ícones franceses, como a Torre Eiffel ou o Arco do Triunfo, começam a ser descaracterizados. O referencial concreto geográfico cede lugar a um movimento de busca da essência da cultura urbana, marcada justamente pelo ato de partilhar imagens.

            Partindo do Corcovado, da avenida Paulista, da estrada que leva a São Miguel, de um conjunto habitacional, de uma imagem da periferia, de uma igreja ou de um arranha-céu, Margot consegue dissecar a imagem em alguns de seus elementos constitutivos.

Isso é particularmente visível nos trabalhos em preto e branco, onde há um caminho para uma certa essencialidade, ou seja, a redução da cidade ao que ela tem de fundamental, um certo peso que oprime o indivíduo e não lhe mostra caminhos ou possibilidades, mas bloqueia espaços .

            Margot, com seu traço expressionista, traz à tona, no ato de pintar, o movimento de construção e desconstrução próprio do mundo urbano. Esse recurso, que parece funcionar melhor no preto e branco, ganha novas dimensões distintas com o uso da cor, onde o peso das tintas gera uma atmosfera maior de opressão, de encarceramento, de certa claustrofobia.

            Cada cena urbana constitui uma oportunidade de desenvolver uma visão mais aprofundada do que significa viver numa metrópole. Há, nelas, poesia, técnica e força expressiva capazes de serem transportadas a outros assuntos. Seu principal significado está em saber ver, desenvolvendo o olhar para representar pictoricamente o mundo com o recurso de devolver ao observador uma realidade liricamente dilacerada.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 
 
 

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Torre Eiffel
acrílico sobre tela
1 x 0,70 m - sem data

Margot Dreger

 

 

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