A fragmentação do espaço
Trabalhar o espaço urbano é um
desafio para o artista plástico. Por um lado, comporta inúmeros
elementos de sedução, como a movimentação de massa de pessoas e
o dilema de indivíduos perdidos e sozinhos na multidão. Por outro,
a estrutura arquitetônica de uma grande cidade, com seus edifícios,
geralmente retos e impessoais, gera possibilidades de instigante
pesquisa.
A pintora Margot Dreger, alemã radicada no Brasil, ergue, em
tinta acrílica, um cosmos imagético de cunho expressionista
marcado pela fragmentação permanente das dimensões da cidade: a
do indivíduo e a dos prédios que se articulam de forma opressiva
sobre cada pessoa.
A cidade
que apresenta, seja São Paulo, Londres, Paris ou Viena,
caracteriza-se pelo predomínio do sentimento e da visualidade da
vivência de seres encurralados e abandonados. As figuras humanas não
surgem muito, pois é justamente a transformação do espaço urbano
num universo pouco convidativo que é realçado em cada tela.
As
cidades de Margot, porém, embora áridas, não afastam o
observador. Pelo contrário, criam um sentimento de cumplicidade.
Mesmo quando são estilhaçadas, como janelas a voar pelo espaço em
busca de uma liberdade não oferecida pelas construções de cimento
ou de vidro, mantêm a coerência de propiciar um vislumbrar
diferenciado, em que cada vez se olha menos o tema e se mergulha
mais na maneira como os trabalhos são feitos.
Não é
por acaso que as obras mais contundentes são exatamente aquelas em
que a cidade começa a se diluir. Ícones franceses, como a Torre
Eiffel ou o Arco do Triunfo, começam a ser descaracterizados. O
referencial concreto geográfico cede lugar a um movimento de busca
da essência da cultura urbana, marcada justamente pelo ato de
partilhar imagens.
Partindo do Corcovado, da avenida Paulista, da estrada que
leva a São Miguel, de um conjunto habitacional, de uma imagem da
periferia, de uma igreja ou de um arranha-céu, Margot consegue
dissecar a imagem em alguns de seus elementos constitutivos.
Isso
é particularmente visível nos trabalhos em preto e branco, onde há
um caminho para uma certa essencialidade, ou seja, a redução da
cidade ao que ela tem de fundamental, um certo peso que oprime o
indivíduo e não lhe mostra caminhos ou possibilidades, mas
bloqueia espaços .
Margot,
com seu traço expressionista, traz à tona, no ato de pintar, o
movimento de construção e desconstrução próprio do mundo
urbano. Esse recurso, que parece funcionar melhor no preto e branco,
ganha novas dimensões distintas com o uso da cor, onde o peso das
tintas gera uma atmosfera maior de opressão, de encarceramento, de
certa claustrofobia.
Cada
cena urbana constitui uma oportunidade de desenvolver uma visão
mais aprofundada do que significa viver numa metrópole. Há, nelas,
poesia, técnica e força expressiva capazes de serem transportadas
a outros assuntos. Seu principal significado está em saber ver,
desenvolvendo o olhar para representar pictoricamente o mundo com o
recurso de devolver ao observador uma realidade liricamente
dilacerada.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto
de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a
Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil).