Maret
A inquietação visual
O líder sul-africano
Nelson Mandela já declarou que "A derrubada da opressão é
a maior aspiração de cada homem livre". A mesma emoção
pode ser sentida ao se contemplar as fortes imagens criadas pela
pintora Maret. Num estilo que foge a classificações fáceis,
mescla o neoprimitivismo ao expressionismo para obter um resultado
que gera impacto por mostrar imagens pungentes, de forte conteúdo
social.
Nascida em 13 de dezembro de 1975, em
Santo André, SP, Sandra Maret Scovenna, filha de mãe checa e pai
argentino, mostrou aptidão para o desenho desde criança, mas foi
em 1994 que realizou um contato mais próximo com as artes, freqüentando
uma oficina promovida pela Prefeitura de São Bernardo do Campo.
Desde o início, suas
telas apresentam questionamentos sociais. É desse momento, por
exemplo, um quadro em que a artista critica uma aula de História
ministrada em moldes tradicionais. Em 1995, Maret participou do V
Salão de Artes Plásticas Contemporâneo de São Bernardo do
Campo recebendo, como premiação, uma exposição individual,
realizada no ano seguinte, no Espaço Henfil de Cultura. "As
cores misturadas com tons escuros revelam uma forte denúncia de
tudo aquilo que traz insegurança para a humanidade", disse,
na apresentação, o pintor Waldomiro de Deus.
Em 1999, a artista foi
selecionada para o Programa Anual de Exposições de Santo André,
realizando novamente uma exposição individual de março até
abril de 2000, no Cine Teatro Carlos Gomes, em que mostrou sua
preferência por telas de grandes dimensões, de 1x1 m, em que ela
pode trabalhar melhor a expressão agoniada dos rostos de seus
personagens, uma marca registrada.
Entre essas telas, destaca-se A
fazedora de bonecos. Um mulher de blusa amarela, à frente de
fundo azul, é mostrada em seu trabalho de criar seres inanimados.
A imagem se torna uma metáfora do poder da artista, capaz de dar
vida àquilo que toca, compondo, com seu talento, da forma que
julga mais apropriada, as idéias que lhe vêm à mente.
Uma das bonecas, em seu regaço, como
se estivesse amamentando, e outra em pé, ao lado direito, no
canto inferior da tela, ajudam a compor uma imagem marcada pelo
sofrimento. A atividade de criar bonecas pode ser visto como uma
analogia do poder de dar vida a imagens, algo que Maret realiza
com facilidade, pois seus personagens parecem prontas a saltar da
tela.
Maret domina muito bem os azuis e
amarelos e confessa gostar menos de trabalhar com os vermelhos.
Mesmo assim, quando isso acontece, o resultado causa impacto. É o
caso de A expressiva cigana, em que a protagonista,
dominada por um vermelho contundente, preenche a tela com vigor.
A série Bordel,
formada por dois quadros, é igualmente significativa ao mostrar a
habilidade da pintora ao lidar com os marginalizados da sociedade.
Casais se abraçando e jovens prostitutas dormindo em camas muito
apertadas são imagens que sufocam o observador. A artista
transmite seu inconformismo social com imagens densas e sem
pieguice, que cativam justamente pela sinceridade e
espontaneidade.
Essas características
acompanham trabalhos mais diretamente engajados, como Globalização,
em que, rodeado por um fundo árido, um ancião miserável, que
evoca Jesus Cristo ou o Antônio Conselheiro, surge imponente,
rodeado por bandeiras de diversos países do mundo. Seu olhar de
desespero e seus cabelos brancos pelo tempo e pelo sofrimento
apresentam o retrato de um mundo cada vez mais dominado pela
pobreza
Nessa mesma linha, Garoto
dormindo ao relento apresenta uma criança miserável
encolhida na posição de feto num banco de praça. A crítica
social e o vigor da imagem são evidentes, pois a miséria
apontada pela artista ultrapassa a mera questão econômica,
mergulhando na densidade social e, principalmente, existencial, do
que significa não ter alimentação ou guarida decente.
Títulos como O velho em uma prisão;
A cantora, que mostra um rosto de cunho expressionista que
sugere uma atmosfera de boate ou cabaret; O bêbado,
em que predominam formas e imagens tortas e desequilibradas; Garoto
comendo salgadinho, que mostra um menino pobre se alimentando
em plena rua; e Discórdia, em que o rato come queijo
enquanto as mulheres jogam e discutem distraídas, compõem um
painel da visão de mundo de Maret.
Bosch, Max Ernst,
Portinari, Ribera e Van Gogh, pintores preferidos da artista,
trabalham justamente com imagens distorcidas, muitas vezes próximas
ao surrealismo e ao expressionismo, em que predomina a imaginação,
mas geralmente com um forte conteúdo social. Os traços vigorosos
desses pintores apontam para as telas de Maret, marcadas pela
necessidade de diálogo com o observador, que se vê comovido
perante as suas telas.
Formada em História
pela Universidade de São Paulo, Maret escolheu a carreira pelo
seu envolvimento com as questões sociais. Seu percurso pela
pintura pode então ser considerado o elemento motivador de seus
passos profissionais. A marginalidade que mostra nas telas é
melhor apreendida pela leitura da teoria marxista, da dialética
de Hegel e de romancistas como Graciliano Ramos.
Uma tela como Homens
objectos exemplifica essa visão de mundo. Seres humanos são
vistos saindo de uma espécie de linha de montagem, em que partes
de sua humanidade são substituídas pela frieza de máquinas.
Essa coisificação do homem preocupa a artista, que vê nas
Revoluções Francesa e Russa momentos em que o ser humano tentou
se libertar.
Uma imagem que
cristaliza o poder imagético de Maret é a tela em que surge um
indivíduo vestido de palhaço sorrindo perante um espelho.
Surpreendentemente, a imagem refletida chora. Essa ambigüidade
permeia as telas da artista. Suas personagens estão próximos do
pranto, mas, mesmo assim, apresentam grande vitalidade. Participam
da vida e sofrem no contato com ela. Por isso, surgem distorcidos
e doloridos.
Admiradora de cineastas
como Eisenstein e Fellini, que trabalham justamente com distorção
de formas e apresentam um marcado conteúdo de crítica social,
Maret transporta sua inquietação de maneira intensa.
Primitivista pela espontaneidade e expressionista no poder de
distorcer imagens em busca de saídas para as angústias
existenciais vividas pelos marginalizados, Maret foge a rótulos
e, em seu percurso pictórico, marcado pelo vigor das imagens e
pelo respeito aos ditames internos que a sua arte exige,
transforma em imagens o pensamento de Nelson Mandela de que
"Não há caminhada fácil para a liberdade".
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).