por Oscar D'Ambrosio


 

 


Marcos Duprat

 

            Castelo no ar

 

            Anatole France (1844 – 1924) acreditava que “a estética não repousa sobre nada sólido. É um castelo no ar”. Essa é exatamente a sensação do observador perante os trabalhos sobre papel do artista plástico Marcos Duprat, apresentados, em 2006, na Pinacoteca do Estado de São Paulo.   

            Luzes, sombra, água, pedras, peixes, céu, mar e terra em desenhos sobre papéis artesanais são o universo mental que ele exibe com delicadeza. Seu principal talento está na criação das mais diversas atmosferas, em sua maioria marcadas pelo poder de levar o observador à reflexão.

            Com introdução de Marcelo Mattos Araújo, apresentação de José Mindlin e textos de Miki Kaneko, Tom Baker e Takeshi Kanazawa, o livro Sonhos Diurnos, que apresentou a exposição homônima do artista carioca, com curadoria de Diana Mindlin, oferece uma excelente oportunidade de penetrar no universo mental de um criador marcado por uma estética da sensibilidade.  

            Nascido em 1944, realizou, nos anos 1960, cursos de desenho e pintura na Escola Nacional de Belas Artes e no ateliê do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, na Universidade de Waseda, Tóquio, além de ter apresentado seu mestrado em Belas Artes em Washington, D. C.

            Ao trabalhar com luzes e sombras, ele cria ambientes marcados pela magia. Os fundos são progressivamente diluídos e as personagens, quase sempre figuras solitárias ganham o primeiro plano, às vezes dialogando com um espelho. O traço solto mostra uma devoção pelo corpo humano que se mantém quando o artista faz suas figuras mergulharem na água.

            Nesse momento, o elemento aquoso atrai a nossa atenção desde o primeiro momento. A forma plástica como Duprat cria o espaço líquido merece destaque. A maneira de construção dessas imagens coloca em segundo plano as pessoas e mostra a devoção do artista por um pensamento construtivo em que os ambientes ganham progressiva relevância.

            Os desenhos feitos sobre papel artesanal ressaltam definitivamente a natureza. São árvores com raízes solidamente firmadas no solo e copas, às vezes de escassas folhas outras de amplo colorido, em que os troncos são resolvidos com uma sucessão de traços colocados com precisão e ritmo, numa espécie de sinfonia permanente, em que cada nota está colocada com precisão – e qualquer mudança pode ser prejudicial para o conjunto.

            Naturezas-mortas, à Morandi, e retratos de interiores de residências japonesas, com predomínio das linhas retas ausentes das construções plásticas utilizadas nas árvores, contribuem para verificar como Duprat apresenta ampla versatilidade técnica e promove no observador a necessidade de silenciar para se deter em cada imagem com mais sossego e detalhe.

            A presença de carpas na água completa mais esse panorama. Está aí o papel artesanal que auxilia, pela própria textura, a construir o fundo, além das cores dos peixes e os reflexos das árvores sobre a água. Surge assim uma rica mescla entre a estrutura das composições e o trabalho com as nuanças de tons propiciadas principalmente por verdes, amarelos, azuis e verdes.

            A arte se torna, de fato, a única verdade. O universo que Marcos Duprat abre ao seu público é um castelo no ar pleno de sensibilidade e delicadeza. Cada imagem e atmosfera é concebida com extremo cuidado e perfeição. Trata-se de um primor que leva à meditação sobre os dias confusos de hoje, alertando que, na simplicidade do ser, aliada ao conhecimento técnico, pode estar a resposta para a arte – e para a própria vida.

       

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 
 

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Troncos I
lápis e pastel oleoso sobre papel artesanal
20 x 27,5 cm sem data

Marcos Duprat

 

 

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