Márcio Schiaz
A limpeza dos
telhados
Cada artista plástico
tem o seu mistério, ou seja, a sua forma de dialogar com o mundo. Seja
no assunto, na técnica requintada ou no impacto que causa no
observador, uma tela ou escultura, para conquistar seu espaço no mundo
da arte, cada vez mais competitivo, precisa ter algo de velado, de
escondido, que instigue visitas e olhares atentos.
Márcio Schiaz
tem um de seus mistérios na forma como soluciona plasticamente suas
telas em termos de composição de linhas e, principalmente, no
tratamento da superfície, com uma limpeza e perfeição admirável
dentro de sua geração de pintores.
Nascido
em 10 de maio de 1965, em São Paulo, SP, sua obra plástica percorre
diversos caminhos: há naturezas-mortas, paisagens das cidades históricas
de Minas Gerais, imagens urbanas de São Paulo e marinhas. Nessas
diversas veredas, mantém a constante de uma obra em que busca-se
conter os excessos.
Nesse
esforço, a forma como realiza os telhados parece fundamental para que
se tenha uma compreensão de sua obra. As áreas são trabalhadas com
delicadeza para não ferir o conjunto da composição. Pouco importa se
o local retratado é identificado abertamente. A grande questão está
no resultado plástico, não no geográfico.
Nesse
aspecto, alguns dos melhores trabalhos de Schiaz
evocam obras significativas de Carlos Scliar no mesmo exercício de
buscar o que existe de fundamental, de verdadeiramente essencial em cada
conjunto que se propõe a retratar.
Quando o
assunto é especificamente São Paulo, Schiaz
se vale, basicamente, de dois métodos
de pintura. Por um lado, registra os locais que deseja pintar em fotos,
ponto de partida para um intenso trabalho no ateliê. Por outro, realiza
pinturas in loco, no calor da hora, buscando dar uma resposta
mais instantânea à efervescência de um momento.
A opção de
pintar ao vivo parece funcionar melhor quando se trata de captar o
movimento de feiras livres, por exemplo, ou do burburinho de locais como
a Ladeira Porto Geral ou a Rua General
Carneiro. Os detalhes das pessoas no ato de caminhar ou de compra ganham
interessantes dimensões inclusive pelo uso de tonalidades mais quentes,
o que também contribui para ressaltar as frutas vendidas no comércio a
céu aberto.
Locais
como Praça do Correio, Estação da Luz, Teatro Municipal, Viaduto
Santa Efigênia, Vale do Anhangabaú, Viaduto do Chá, Rua
Libero Badaró, Praça Ramos de Azevedo, Avenida Paulista à
noite, Pátio do Colégio e bairro da Liberdade são recriados numa ótica
em que a pesquisa de posições e luminosidades a partir de fotos
constitui um recurso de grande importância.
Quanto às
naturezas-mortas, gênero em que a versatilidade técnica do artista é
colocada à prova, além de composições em que formas e cores são
exploradas em diversas facetas, destaca-se a marca registrada de colocar
frutas, garrafas ou pratos próximos a janelas, através das quais é
possível vislumbrar paisagens mineiras, marinhas ou praias, assuntos
recorrentes na carreira do artista paulistano.
Com seus
telhados de cores bem definidas e pesquisa constante, arrematadas por
uma luminosidade bastante própria, Márcio Schiaz
apresenta um caminho já significativo, mas que pode ganhar densidade
pictórica à medida que, progressivamente, ele for se libertando de
referenciais concretos.
Poderá
assim mergulhar – e saudavelmente se perder – em recortes de espaços
geograficamente indefinidos, onde sua técnica, já apurada, pode voar
ainda mais alto, sem se importar com referências específicas, mas
explorando ao máximo, por exemplo, a beleza dos telhados e sua riqueza
plástica superlativa.
Oscar D’Ambrosio
mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional
de Críticos de Artes (Aica – Seção
Brasil).