Márcia
Pinho
Paixão pelo ser humano
Amar o ser humano é condição
essencial para a prática artística. Nesse sentido, a produção
pictórica de Márcia Pinho apresenta uma poética marcada pela
sensibilidade no trato da figura humana e da cidade, temas que lhe
parecem mais afeitos. O primeiro motiva a reflexão sobre o que é
o belo, e o segundo considera os mais diversos ambientes como
locais da expressão da vivência existencial.
Nascida
em Santo André, SP, em 14 de março de 1976, Márcia mergulhou no
mundo da arte quando mudou para São Bernardo de Campo, SP.
Estimulada pelo irmão, que lhe levou uma pequena tela e tintas
acrílicas, começou a criar, pintando de três a quatro quadros
por dia. O passo seguinte foi freqüentar museus, para observar de
perto a pincelada dos mestres, e navegar pela internet em busca
dos mais variados tipos de informação.
A pesquisa
constante continuou nos cursos de pintura com o artista Eliane
Ducatti e na Escola Arte São Paulo, onde encontrou o professor Éden
Bella Jr. Assim, a pintura de Márcia Pinho ganhou um aspecto
peculiar pela busca de soluções estéticas que ilustram a relação
da artista com o mundo.
O resultado plástico tem
fortes características expressionistas, seja pelo uso da cor,
seja pela utilização da forma. A liberdade do traço, no momento
de trabalhar os corpos, indica a permanente procura de caminhos
estéticos de acentuada liberdade e de consciente esforço de
derrubar as barreiras das mesmices.
A tendência
figurativa, presente na maioria dos trabalhos, revela que o corpo
é visto como um instrumento para a prática do fazer pictórico.
As ousadias na cor e nas formas revelam o desejo de sempre
ultrapassar as fronteiras do estabelecido em busca de paradigmas
pessoais e desafiadores.
Predominam tonalidades
escuras e cores puras utilizadas direto do tubo. O uso bastante
peculiar da espátula torna-se o elemento diferenciador, pois
oferece a possibilidade de trabalhar a tinta com um relevo
bastante especial, que favorece o uso das mais variadas formas.
Além
de trabalhar com tinta a óleo, Márcia Pinho realiza experiências
com o uso de retalhos, bordando a tela, numa vertente experimental
que confirma a inquietação que se observa na maior parte de sua
obra. Talvez esse sentimento de inconformismo possa se tornar mais
evidente nos conjuntos de casas que permitem uma maior experimentação
de formas e cores.
Em seu universo
de pessoas e imagens, Márcia Pinho constrói um mundo imagético
marcado pela busca de relações entre o ser humano e o seu
entorno. Não aceita respostas simples dos materiais com os quais
trabalha e se debruça sobre a técnica com uma certeza poética:
o ser humano, apesar de suas numerosas falhas, ainda é o começo,
o meio e o fim de toda atividade artística, seja por questões técnicas,
visuais ou existenciais. Tendo isso em vista, a pintura da artista
surge como uma promessa de indagar, cada vez com maior vigor, a
situação do homem contemporâneo perante o mundo e perante si
mesmo.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de
Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando
a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).