Marcelo Senna
A grandeza arquitetônica de São Paulo
O cronista Paulo Mendes Campos, em O anjo
bêbado, disse que “em São Paulo, constrói-se (ou se deixa
construir) a vida; no Rio consome-se a vida (ou se deixa consumir)”. A
palavra construção, portanto não só caracteriza a cidade paulista
como identifica o trabalho do artista plástico Marcelo Senna.
Nascido em São Paulo, em 1º de março de 1974, Senna desenha desde os
sete anos e vive como letrista de rua, fazendo placas e faixas. É,
porém, em seus desenhos feitos com lapiseiras sobre chapas de eucatex
branco envernizado que desenvolve todo o seu talento, mostrando alguns
dos principais pontos da cidade de São Paulo, como a avenida Paulista,
a Catedral da Sé e o Museu do Ipiranga.
Autodidata em desenho e pintura, o artista
toma a cidade como ponto de partida para trabalhos de grandes
dimensões, criando painéis que revelam São Paulo sempre à
distância. O traço cuidadoso e a busca da fidelidade impressionam,
principalmente quando se trata de retratar imagens arquitetonicamente
mais complexas e detalhadas, como a Estação da Luz.
Um dos trabalhos mais impressionantes é o da
Praça da República, acompanhada do esplendor da silhueta dos
edifícios em suas proximidades, como o Edifício Itália, o mais alto
da capital paulistana. A metrópole surge então com toda a sua
pujança, que é explorada ainda nas composições sobre a Avenida
Consolação e a Vila Mariana.
Senna, além de um amor imensurável pela
arquitetura da cidade, reproduz um rico universo de detalhes. Coloca
ainda anjos em seus painéis, entidades divinas que se humanizam para
proteger os transeuntes da violenta e apaixonante São Paulo, um rico
universo de construções de cimento e de histórias repletas de
humanidade.
Para retratá-la, o artista se vale de
fotografias e de incontáveis horas de passeio pela cidade. Andando de
ônibus, percorrendo os infinitos bairros da capital paulista, ele busca
o melhor ângulo para transportar à cidade para suas obras. Há três
anos nessa empreitada, suas imagens mostram um município que comove
pela sua grandeza e impressiona pela sua onipotência econômica.
Chamada de “pátria de heróis e berço de
guerreiros” por Fagundes Varela; de “comoção de minha vida” por
Mário de Andrade, de “linda madrasta” por Sérgio Milliet; e de “espécie
de Catalunha do Brasil” por Gilberto Freyre, São Paulo tem sua
grandiosidade arquitetônica e urbanística imortalizada nos painéis de
Marcelo Senna, que, sem ser um poeta da palavra, é um lírico da
imagem, pois oferece ao espectador de suas obras uma São Paulo
grandiosa, mostrada num traço seguro e sereno, num clima de
encantamento e sonho que faz a cidade resplandecer como a mais bela
metrópole da América Latina.
Oscar D’Ambrosio é jornalista, membro da
Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e autor de Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
UNESP).