Marcelo
Heleno
A
estética das queimadas
Segundo dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais), durante o período de junho a novembro, todo ano, grande
parte do país é acometido por queimadas, que se estendem
praticamente por todas as regiões, com maior ou menor intensidade.
O fogo é normalmente empregado para fins diversos na agropecuária,
na renovação de áreas de pastagem, na remoção de material
acumulado e no preparo do corte manual em plantações, como,
principalmente, no Estado de São Paulo, de cana-de-açúcar.
Essas
informações aparentemente pouco importantes numa reflexão sobre
um trabalho de artes visuais podem, todavia, ser uma das chaves para
mergulhar na obra plástica de Marcelo Heleno. Parte de sua produção,
talvez a mais significativa até agora, encontra nesse assunto um
rico universo para reflexão.
A
sua estética apresenta, em primeiro lugar, um desejo de experimentação
constante, numa incessante busca de alternativas para trabalhar com
diversos materiais perante uma realidade que conhece muito bem. O
desafio seria tornar a queimada em resultado plástico não
repetitivo e tecnicamente bem realizado.
O
caminho adotado foi o de realizar sucessivas composições em que a
queimada cada vez mais foi se tornando assunto e menos a motivação
essencial. Nas produções mais expressivas, ele consegue se valer
das cores, principalmente do amarelo para transmitir climas, não
meras representações.
Isso
se evidencia na maneira como Marcelo Heleno utiliza a aquarela. Ele
a trata com os recursos que ela comporta, ou seja,
não procura transformá-la em outra técnica. O resultado
então é a exploração dela com aquilo que lhe é intrínseca: as
transparências e a fluidez.
O
curioso é que a aquarela, assim como a queimada, é uma alternativa
geralmente eficiente, rápida e de custo relativamente baixo quando
comparada a outras técnicas que podem ser usadas para o mesmo fim.
Se a queimada destrói para pretensamente reconstruir com mais força,
a aquarela do jovem artista paulista constrói para desconstruir a
queimada pelo seu caráter maléfico ao solo.
Assim
como a queimada é uma antiga prática agropastoril ou florestal que
utiliza o fogo de forma controlada para viabilizar a agricultura ou
renovar as pastagens, a aquarela, igualmente avançada em anos,
oferece uma maleabilidade que já encantou todo tipo de viajante e
lhe assegura um local na história mundial da arte.
Enquanto
a queimada é autorizada pelo Ibama sob critérios técnicos, sob
determinadas condições ambientais que permitam que o fogo se
mantenha confinado à área que será utilizada para a agricultura
ou pecuária, o trabalho de Marcelo Heleno apresenta o mesmo mérito
de não sucumbir a uma ação desordenada.
A sua poética
surge da construção de manchas e da exploração de linhas
verticais em que não é somente a vegetação que está sendo
destruída. Há ali, se a pessoa quiser encontrar, um clamor de
destruição da natureza, mas o principal é a afirmação de um
estilo, a ser ainda melhor definido nos próximos trabalhos.
Quando o
assunto queimada é transportado para outras técnicas como gravuras
e monotipias, o mencionado poder de experimentação continua a ser
exercido, cabendo, como exercício futuro, talvez, verificar até
que ponto o tema escolhido pode chegar. Não se trata de esgotar uma
vertente, mas de realizar uma auto-avaliação da combinação entre
a precisão formal e a
liberdade de experimentação.
Marcelo
Heleno pode, portanto, oferecer resultados estéticos significativos
dos mais variados temas. As queimadas são hoje uma vertente
importante que, creio, não deveria ser deixada de lado. Há ali uma
parte representativa de seu talento, pronta a ser revelada em
profundidade cada vez maior se houver um esforço verticalizado.
Assim
como a queimada limpa a terra e, também, a destrói; um bom tema
indica uma direção, mas também pode se esgotar. A aposta é até
onde um assunto agüenta. A resposta é até onde o artista
conseguir explorar a estética das queimadas sem cansar a si mesmo e
aos observadores.
Os
próximos anos dirão se Marcelo Heleno aceitou o desafio e até
onde conseguiu levá-lo e levar-se a si mesmo em busca de espaço no
fascinante, mas nem sempre justo mundo da arte. Assim como ocorre
numa queimada, o fogo pode eliminar tudo, mas sempre haverá
elementos, os mais fortes, na natureza, e os mais talentosos, na
arte, que resistem. O artista paulista reúne condições para ser
um deles.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes Visuais da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos
de Arte (AICA-Seção Brasil)