por Oscar D'Ambrosio


 

 


Marcelo Heleno

 

A estética das queimadas


            Segundo dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), durante o período de junho a novembro, todo ano, grande parte do país é acometido por queimadas, que se estendem praticamente por todas as regiões, com maior ou menor intensidade. O fogo é normalmente empregado para fins diversos na agropecuária, na renovação de áreas de pastagem, na remoção de material acumulado e no preparo do corte manual em plantações, como, principalmente, no Estado de São Paulo, de cana-de-açúcar. 

            Essas informações aparentemente pouco importantes numa reflexão sobre um trabalho de artes visuais podem, todavia, ser uma das chaves para mergulhar na obra plástica de Marcelo Heleno. Parte de sua produção, talvez a mais significativa até agora, encontra nesse assunto um rico universo para reflexão.

A sua estética apresenta, em primeiro lugar, um desejo de experimentação constante, numa incessante busca de alternativas para trabalhar com diversos materiais perante uma realidade que conhece muito bem. O desafio seria tornar a queimada em resultado plástico não repetitivo e tecnicamente bem realizado.

O caminho adotado foi o de realizar sucessivas composições em que a queimada cada vez mais foi se tornando assunto e menos a motivação essencial. Nas produções mais expressivas, ele consegue se valer das cores, principalmente do amarelo para transmitir climas, não meras representações.

Isso se evidencia na maneira como Marcelo Heleno utiliza a aquarela. Ele a trata com os recursos que ela comporta, ou seja,  não procura transformá-la em outra técnica. O resultado então é a exploração dela com aquilo que lhe é intrínseca: as transparências e a fluidez.

O curioso é que a aquarela, assim como a queimada, é uma alternativa geralmente eficiente, rápida e de custo relativamente baixo quando comparada a outras técnicas que podem ser usadas para o mesmo fim. Se a queimada destrói para pretensamente reconstruir com mais força, a aquarela do jovem artista paulista constrói para desconstruir a queimada pelo seu caráter maléfico ao solo.

            Assim como a queimada é uma antiga prática agropastoril ou florestal que utiliza o fogo de forma controlada para viabilizar a agricultura ou renovar as pastagens, a aquarela, igualmente avançada em anos, oferece uma maleabilidade que já encantou todo tipo de viajante e lhe assegura um local na história mundial da arte.

            Enquanto a queimada é autorizada pelo Ibama sob critérios técnicos, sob determinadas condições ambientais que permitam que o fogo se mantenha confinado à área que será utilizada para a agricultura ou pecuária, o trabalho de Marcelo Heleno apresenta o mesmo mérito de não sucumbir a uma ação desordenada.

            A sua poética surge da construção de manchas e da exploração de linhas verticais em que não é somente a vegetação que está sendo destruída. Há ali, se a pessoa quiser encontrar, um clamor de destruição da natureza, mas o principal é a afirmação de um estilo, a ser ainda melhor definido nos próximos trabalhos.

            Quando o assunto queimada é transportado para outras técnicas como gravuras e monotipias, o mencionado poder de experimentação continua a ser exercido, cabendo, como exercício futuro, talvez, verificar até que ponto o tema escolhido pode chegar. Não se trata de esgotar uma vertente, mas de realizar uma auto-avaliação da combinação entre a precisão formal  e a liberdade de experimentação.

            Marcelo Heleno pode, portanto, oferecer resultados estéticos significativos dos mais variados temas. As queimadas são hoje uma vertente importante que, creio, não deveria ser deixada de lado. Há ali uma parte representativa de seu talento, pronta a ser revelada em profundidade cada vez maior se houver um esforço verticalizado.

            Assim como a queimada limpa a terra e, também, a destrói; um bom tema indica uma direção, mas também pode se esgotar. A aposta é até onde um assunto agüenta. A resposta é até onde o artista conseguir explorar a estética das queimadas sem cansar a si mesmo e aos observadores.

Os próximos anos dirão se Marcelo Heleno aceitou o desafio e até onde conseguiu levá-lo e levar-se a si mesmo em busca de espaço no fascinante, mas nem sempre justo mundo da arte. Assim como ocorre numa queimada, o fogo pode eliminar tudo, mas sempre haverá elementos, os mais fortes, na natureza, e os mais talentosos, na arte, que resistem. O artista paulista reúne condições para ser um deles.

           

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes Visuais da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil)

 

 

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 Série Queimadas 
aquarela sobre papel sem data

Marcelo Heleno

 

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