por Oscar D'Ambrosio


 

 


Marcel Broodthaers

 

            As possibilidades de um museu

 

            O ensaísta mineiro Abgar Renault (1901-1995) disse que “Só existe uma arte irrecusavelmente importante: viver. Tudo mais é sucedâneo”. A frase ganha novas –  mesmo inesperadas conotações – quando nos aproximamos da arte de Marcel Broodthaers, tema central do Seminário Internacional Marcel 30, com coordenação do curador convidado Jochen Volz e promovido, dias 27 e 28 de janeiro, pela organização da 27ª Bienal de São Paulo, que terá como tema “Como viver junto”.

            A arte de Broodthaers gera numerosas perguntas sobre o significado da arte, o papel do artista e a função social dos museus. Nascido em 1924, na Bélgica, e falecido em 1976, ele fundou, em 1968, o Museu de Arte Moderna, Departamento de Águias, questionando os limites entre arte e realidade, além do próprio conceito sobre o que mereceria estar num museu e por quê.

Em suas discussões sobre o pictórico, o simbólico e as iconografias e as representações de caráter realista, Broodthaers indaga sobre a importância da materialidade dos objetos. Após ter uma intensa ligação com artistas surrealistas durante a juventude, foi escritor, livreiro, repórter fotográfico e guia de exposições antes de se dedicar às artes plásticas.

Pintura, desenho, escultura, cinema, livros, instalações, objetos de ambiente cotidiano, fotografia, escrita e placas de sinalização industrial, entre outros elementos, começou, de fato, sua carreira de artista plástico, em 1964, quando “paralisou” em gesso os últimos cinqüenta exemplares de sua coletânea de poesia recentemente lançada, Pense-bête (Pensando como um animal), indicando que aqueles exemplares não eram mais para ser lidos.

 Começou assim uma jornada por obras concebidas com casca de ovos, mexilhões e batatas fritas (comidas típicas da Bélgica). Realizou ainda objetos e pinturas em que o visual e o verbal dialogam intensamente. Um exemplo é Le corbeau et le renard (1968), onde uma carta manuscrita saindo de uma máquina de escrever é colocada à frente de uma fotografia que mostra Broodthaers escrevendo à mão essa mesma carta.

            Na abertura do evento, Marie-Puck Broodthaers, filha de Marcel, fez um depoimento em que elogiou todo tipo de pensamento que busca ver a arte do passado para interpretar melhor a arte atual. Esse percurso foi realizado pelo pai e pelo próprio evento que, ao revisitar a obra de Marcel, obriga a uma reflexão sobre a arte contemporânea.

            O curador alemão Jürgen Harten, em sua exposição, enfatizou a cooperação dele com Broodthaers entre 1969 e 1975, destacando a fascinação do artista pelo tema da águia e explicando a forma de seleção das peças que entrariam na exposição. Enfatizou ainda como a etiqueta “Isto não é uma obra de arte”, colocada junto aos trabalhos,  também é um eco da escrita de Magritte: “Isto não é um cachimbo”.  

            De fato, há em Broodthaers um diálogo com René Magritte, que é homenageado, de maneira bem-humorada, em A maldição de Magritte (1966) ou no trabalho Modelo: a vírgula (1968), onde o sinal de pontuação presente no título se transforma na fumaça do cachimbo.

            Lisette Lagnado, curadora geral da 27ª Bienal Internacional de São Paulo, lembrou que a obra de Broodthaers esteve na Bienal paulista de 1994, mas parece não ter gerado repercussão. Seu foco foi uma comparação de afinidades e diferenças entre o artista belga e o brasileiro Helio Oiticica, já que ambos realizaram experiências marcantes. Em 1968, Broodthaers abre um  museu na própria casa e, em 1969,  após a Experiência Whitechapel, em Londres, Oiticica anuncia que não exporá mais em galerias ou instituições artísticas.

            O conceito de museu passa então a ser bastante questionado, como apontou Stéphane Huchet, curador independente e professor da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, que enfocou a transição de Broodthaers de poeta para artista plástico, como, por exemplo no uso de mexilhões que, em francês (moules), também significa “moldes”. Enfatizou que, como Duchamp, o artista belga a poética problematiza a questão do objeto artístico e, como Magritte, os limites e fronteiras da linguagem.

            Os limites entre colecionador e criador são assim questionados. O próprio Broodthaers teria dito que ele se tornara artista por não ter capital para ser colecionador. De fato, o artista, com suas múltiplas funções de diretor, conservador, curador e cenógrafo, tem uma concepção museológica do século XIX, com a publicação de dois catálogos, numa operação de certo modo tradicional, que inclui gerenciamento de patrimônio, autoridade do artista nas escolhas e estabelecimento de certos critérios de pertinência.

            Diretor do Instituto de Artes da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Ricardo Basbaum mostrou como Broodthaers é um excelente caminho para discutir como as facetas de agenciador, curador e crítico se mesclam cada vez mais na cultura contemporânea.

            Broodthaers permite não só estabelecer pontes entre a literatura e as artes visuais, mas, autênticas redes de relações e conexões das diversas formas de ação cultural. O maior perigo, como alertou Basbaum, é a cristalização, seja da prática ou do pensamento artístico. Possibilidades de flexibilização, afinal, exigem reorganização das pessoas e das instituições em nome de uma dinâmica em que diversos papéis sejam, no mínimo, tolerados, e, para o bem de todos, aceitos e estimulados.

            A historiadora de arte Dorothea Zwirner, em sua fala, insistiu na importância da criação estética no sentido de capturar tudo aquilo que a realidade esconde. Nesse sentido, os museus são instituições que realizam uma crítica da sociedade pelo menos no que tange a um recorte que segue alguns princípios específicos.

            Ducham e Broodthaers teriam em comum a presença constante, em seus trabalhos, de aspectos críticos e de crítica à crítica. Essa postura, que envolve questões ideológicas e políticas, foi aproximada a artistas como o alemão Joseph Beyis e o compositor John Cage, com suas obras em que o silêncio tem um papel primordial.

            Justamente esse silêncio leva ao questionamento do próprio sentido da arte, como bem mostrou Rikrit Travanija, artista e professor da Columbia University School of the Arts de Nova York (EUA), que, numa apresentação em forma de performance,  colocou uma foto de Broodthaers no telão com um microfone à frente e começou a fazer as perguntas que tinha ao próprio criador.

            Os óbvios silêncios das respostas de Broodthaers indicam muitas vezes os limites e a falta de barreira da crítica de arte.  A presença do artista para comentar a própria obra poderia, de fato, ter contribuído para elucidar algumas questões ou seria mais um elemento complicador?

            Para gerar ainda mais questionamentos, Travanija exibiu um filme caseiro, intitulado Speaker’s Córner, no qual Broodthaers surge fazendo uma ação muda no Hyde Park de Londres, célebre pelos apaixonados e verborrágicos discursos. O artista belga escrevia em uma pequena lousa  de dois lados frases como “Apenas para artistas”, “Vocês são artistas”, “Preste atenção”, “Visite a National Gallery” ou “Visite a Tate Gallery”, gerando as mais variadas reações, de risos a incredulidade.

            De fato, o seminário, como apontava Renault, mostrou que a grande arte está em viver, mas essa jornada se torna ainda mais interessante quando acrescida da reflexão sobre o que significa escrever, pintar ou esculpir – e ainda qual o sentido de falar dessas criações.

            Se a obra de arte é um elemento caracterizado por uma assinatura de um criador, como Broodthaers ironizou diversas vezes, transformando a escritura do próprio nome e suas combinações em obra de arte, o artista também rompeu paradigmas embasado em experiências de Duchamp e Magritte. Colecionador, fez suas próprias obras ao dar valor artístico a elementos existentes diversos, mas sem deixar de lado o estabelecimento de formas próprias, como fez com os mexilhões.

            O grande tema de Broodthaers, como o evento deixou claro, foi a arte em si mesma. Questionou não só a forma de fazer, mas, principalmente a maneira de pensar, guardar e conceber aquilo que se chama de objeto artístico. Essas questões, 30 anos após a sua morte, permanecem não só contemporâneas, mas cada vez mais necessárias para discutir as (im) possibilidades de um museu ou de uma mostra como a 27ª Bienal de São Paulo.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo). Atua como coordenador de imprensa da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Universidade Estadual Paulista (UNESP).

 
 

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