por Oscar D'Ambrosio


 

 


Maravilhas paulistas

 

Oscar D’Ambrosio


            Utilizado a partir do século XVIII, o termo “barroco” aplicava-se, a princípio, a fenômenos que, segundo a teoria da arte clássica, eram considerados bizarros, confusos e extravagantes. Pouco a pouco, ele foi se formando para designar manifestações artísticas assimétricas, marcadas pela noção de movimento contínuo.

Nas artes plásticas, o Barroco vincula-se ao espaço infinito; na arquitetura, à superexuberância decorativa; na música, aos uso de ritmos fortes e ao contraste estilístico dos instrumentos; na literatura, ao uso muitas vezes abusivo de figuras de linguagem, aos jogos mentais que geram o imprevisível e à predominância da imaginação sobre a lógica.

O estilo predominou na arte européia e da América Latina de 1600 a 1750 e tem grandes representantes mundiais, como os pintores Rubens e Rembrandt, os compositores Händel e J. S. Bach e escritores como La Bruyère e Góngora. No Brasil, as esculturas e igrejas projetadas por Aleijadinho, as partituras do Padre José Maurício e os textos de Gregório de Matos e do Padre Vieira são referenciais obrigatórios.    

Em terras nacionais, esse amplo universo, que comporta múltiplas variantes estilísticas, não esteve presente apenas em Minas Gerais e na Bahia. O Estado de São Paulo, embora muitos não soubessem,  também conta com um rico acervo de obras vinculadas ao Barroco e ao Rococó. Quem não tinha pleno conhecimento disso conta agora com um excelente material de pesquisa e consulta: o livro Igrejas paulistas: barroco e rococó (Editora UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; 376 páginas).

Livre-docente em Estética e História da Arte e docente do Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo, Percival Tirapeli realiza um diagnóstico belo e muitas vezes emocionante dos principais patrimônios estéticos e históricos da Capital, do interior e do litoral do Estado.

Numa linguagem acessível ao leigo, mas não desprovida de conteúdo técnico e teórico, o livro reúne mais de 450 fotos, numa pesquisa inédita no que tange à relação entre a arte e a arquitetura paulista. A fonte inspiradora do trabalho foi um levantamento semelhante, realizado em 1937, data em que, envolvidos na criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), Rodrigo de Melo Franco de Andrade e o escritor Mário de Andrade intercambiaram cartas que resultaram num trabalho diferenciado sobre o patrimônio religioso paulista, registrado pelas lentes do fotógrafo Germano Graeser.

Tirapeli, com seus 15 anos de pesquisa sobre o barroco e o rococó, e o fotógrafo Manoel Nunes da Silva, que, com sensibilidade, colocou suas lentes a serviço dos olhos treinados do docente do IA, refizeram os passos sugeridos pelo autor de Macunaíma e Graeser. Foram assim percorridas diversas trilhas: a do litoral, a do ouro, a da catequese, a da Capital, a dos jesuítas, a do Vale do Tietê, a do Vale do Paraíba, a do Sul e a das minas.

São assim revisitadas igrejas de grande valor artístico e cultural. A mais antiga é a de São Vicente, de 1559, enquanto as mais recentes se incluem no movimento neocolonial do século XX, que recuperou peças de antigas igrejas destruídas para dar lugar ao novo urbanismo na cidade de São Paulo.

Entre os trabalhos reproduzidos e analisados no livro, vários merecem destaque. Em termos históricos, merecem destaque os fragmentos de retábulos vicentinos, ao que tudo indica, provenientes da segunda matriz de São Vicente, dedicada a Nossa Senhora da Imaculada Conceição, de 1559. (Veja página 91, figura 126.)

De acordo com Tirapeli, seguramente estes ornamentos, por ele analisados quanto à sua significância histórica e simbólica, são os mais antigos do Brasil, já que os até agora assim considerados, os altares dos Santos Mártires, na Sé de Salvador, Bahia, datam de 1564.

A obra permite conhecer aspectos diferenciadores da arquitetura paulista e traz amplas informações sobre os retábulos coloniais e, especificamente sobre os paulistas maneiristas, dos séculos XVI e XVII. Suas características, ligadas aos estilos nacional português, joanino, rococó e neoclássico, são explicadas.

É, porém, no estudo da imaginária, como as esculturas em barro e madeira, que o livro ganha mais força pela beleza plástica e pela possibilidade de integrar essas imagens ao momento histórico de determinadas localidades. É impossível ser indiferente, por exemplo, ao olhar de súplica da Nossa Senhora do Rosário, em Itanhaém, ou à serenidade de Nossa Senhora do Conceição, em Santos, ambas feitas de barro cozido e policromado, em 1560. (Veja , respectivamente, página 121, figura 164 e página 105, figura 143.) A policromia em madeira tem igualmente momentos de rara beleza, como a do conjunto escultórico de Nossa Senhora do Desterro, de origem portuguesa, da catedral de Jundiaí do século XVIII. (Veja  página 61, figura 81.)

Quando se pensa na pintura, Mogi das Cruzes oferece um panorama que é o mapa do próprio Céu. Não é outra a sensação ao ver, no forro da nave da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, o Êxtase de Santa Teresa e Nossa Senhora do Carmo entregando o escapulário a São Simão Stock, obras atribuídas, respectivamente, a Manoel do Sacramento e a Antônio dos Santos. (Veja, respectivamente, página 66, figura 94; e página 254, figura 345.) O mesmo fascínio ocorre ao contemplar a autoridade, ao mesmo tempo, solene e bem-humorada de Santo Elias, na tarja do forro da capela-mor da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. (Veja página 250, figura 340.)

A obra traz também um texto de Elza Ajzenberg, diretora do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, sobre o Padre Jesuíno de Monte Carmelo (1764-1819), artista santista que tem, entre as suas obras-primas, as cores vivas do forro da nave da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, em Itu, ou ainda a concentrada e piedosa figura de São João da Cruz no forro sobre o coro da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, em São Paulo. (Veja, respectivamente página 301, figura 407; e página 75, figura 108.)

Há ainda um artigo de Régis Duprat e Diósnio Machado Neto sobre os manuscritos musicais de Mogi das Cruzes, as mais antigas partituras coloniais do País, além de resumos biográficos de artistas coloniais brasileiros e cronologia de fatos da história e da arte sacra paulista e ampla bibliografia.

É ao som dessas melodias que acalentaram a fé no início da história do Brasil que podem ser lidas importantes informações sobre as capelas alpendradas paulistas, testemunhos, segundo Tirapeli, da consolidação e conquista dos caminhos para diversas regiões do Brasil. Exemplos importantes são as Capelas de São Miguel, em São Paulo, e a de Santo Antônio, em São Roque. (Veja, respectivamente, página157, figura 218; e página 165, figura 229.)

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no Embu, é outro marco pela mescla de estilos. Remonta ao século XVIII e apresenta modelos tradicionais e eruditos portugueses com toques de brasilidade e uma ornamentação pictórica com fortes tonalidades avermelhadas e castanhas, emoldurada por elementos de influência chinesa. Embora não seja um universo de grandes dimensões, trata-se de um ponto sublime do interior paulista e do próprio livro, pois, nela, é possível respirar a religiosidade de um Brasil que se perdeu no tempo, mas do qual suas igrejas guardam importantes ecos. (Veja página 233, figura 316.)

A escultura de Nossa Senhora do Amparo com o Menino Jesus nu sobre um pilar segurando a cruz, feita no século XVII em barro cozido policromado mostra toda a riqueza do universo do barroco enfocado por Tirapeli. A imagem, patrimônio do Convento e Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em São Sebastião, ilustra bem o que representa este livro. (Veja página 127, figura 174.)

A cada página, o leitor vai angariando conhecimento, amparado pelos comentários do pesquisador sobre arquitetura, arte e história. Nesse contexto, o mencionado pilar funciona como o apoio teórico que Tirapeli nos oferece. Seu livro torna-se, assim, além de um referencial obrigatório sobre a arte brasileira – e a paulista, em particular –, um guia qualificado para entrar em qualquer igreja colonial barroca ou imperial rococó e fruir ao máximo o universo artístico que ela oferece.


            Oscar D'Ambrosio integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica-Seção Brasil), é mestrando no Instituto de Artes da UNESP e editor do Jornal UNESP.

 

 

 

 

 

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