por Oscar D'Ambrosio


 

 


Manuel Lepe
A alegria das crianças


Lançado em 1964, o filme A noite da iguana (The night of the iguana) marcou época. Dirigido por John Huston, a obra, que tinha entre seus roteiristas o dramaturgo Tennessee Williams, conta a história de um ex-pastor protestante alcoólatra, interpretado por Richard Burton, que se torna guia turístico de um grupo de turistas americanas no México. Além da beleza de Deborah Kerr e Ava Gardner, o filme se consagrou por colocar seu maravilhoso cenário, a pequena cidade de Puerto Vallarta, no mapa turístico mundial.
O município, localizado no Estado de Jalisco, também se beneficiou da publicidade do romance entre o protagonista do filme e Elizabeth Taylor. Encantados pelo local, eles até decidiram comprar uma casa no centro da cidade. Dentro dela, havia 24 obras de um pintor naïf local, Manuel Lepe, que pertenciam ao proprietário do imóvel e seriam, portanto, retiradas. O célebre casal, no entanto, só aceitou fechar o negócio quando teve certeza de que as obras permaneceriam lá.
Esse episódio pitoresco é apenas uma amostra da vida e do talento ímpares de Lepe. Nascido em 17 de abril de 1936, desde os sete anos, enquanto trabalhava na loja do pai, começou a vender as suas aquarelas, nas quais representava a vida cotidiana da sua cidade natal. Iniciava assim uma carreira caracterizada pelas cores brilhantes e cenas com a natureza e a infância como temas centrais.
Terceiro de onze irmãos, o artista não contava com a aprovação do pai, que não o estimulava a prosseguir no mundo dos desenhos e aquarelas. Para se sustentar, continuou vendendo seu trabalho aos turistas, que, nos anos 40, começavam a descobrir as belezas naturais de Puerto Vallarta. A primeira encomenda, para pintar um mural, veio de um casal americano.
Em seguida, Lepe se mudou para a cidade de Oaxaca, local que lhe possibilitou melhorar sua técnica e travar um contato mais direto com a natureza. Enquanto muitos de seus amigos enveredavam pelos estudos acadêmicos, ele resistia. "Desde criança, tenho sido pintor. Nunca estudei arte, apenas a faço", declarou. "Tem gente que nasce com um talento que deve ser desenvolvido naturalmente."
Simplicidade e ludismo foram, portanto as características de Lepe como artista. Seu talento e esforço o levaram a fundar a própria galeria, em sua cidade natal, em 1967. Dois anos depois, teve a honra de ser considerado Pintor Nacional do México e primeiro pintor naïf do país pelo presidente Luis Echeverría Alvarez. Além disso, ele é o único pintor naïf mexicano incluído no Directoire Naïf de la France, recebeu o título de cidadão honorário do Estado norte-americano do Texas e tem a honra de ter seu dia de nascimento oficialmente comemorado pelo município de Puerto Vallarta.
Como autêntico naïf, Manuel Lepe não segue escalas de formato, perspectiva ou cores realistas. Suas numerosas exposições nos EUA e no México obtiveram grande sucesso. Uma delas, com óleos, acrílicos e serigrafias, realizada em 1979, o Ano Internacional da Infância, pelo Museu de Ciência e Indústria de Los Angeles, EUA, alcançou a marca de um milhão de visitantes em três meses, recorde de público da instituição até hoje.
O que fascina no trabalho de Manuel Lepe é a sua capacidade de retratar o universo infantil. Quadros como A Maja com crianças, Barco com crianças e O peixe com crianças são exemplos da linguagem toda própria do artista mexicano. No primeiro, retoma o tema da sensualidade e da nudez, tão caro ao pintor espanhol Francisco Goya, colocando-o sob nova perspectiva. A retratada, em sua posição clássica, com as mãos atrás da cabeça, aparece rodeada por diminutas figuras infantis, que parecem anões perante a grandeza da mulher, numa cena que evoca o célebre livro Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift.
Barco com crianças e O peixe com crianças apresentam resultados semelhantes. Os quadros transmitem grande vivacidade. "As crianças não têm problemas. Refletem alegria", afirmou Lepe. Há nele toda uma inocência expressiva, mantida ao longo de toda a carreira, inclusive em um de seus quadros, El gato feliz, que, além da desproporção entre o protagonista e as crianças, mostra pequenos anjos voando no céu e peixes imersos num estilizado rio.
Quadros como A noiva, A cascata 1, Nuvens azuis e O vaso mostram outra faceta de Lepe, principalmente pela falta do senso lógico que rege as dimensões dessas telas. Justamente por esse aspecto, elas despertam o interesse, pois surge, de uma aparente desarmonia de formas e cores, uma realização com equilíbrio estético, harmonia e admirável senso estético.
Além do ilustre casal hollywoodiano Burton e Taylor e do cineasta John Huston, estão entre os colecionadores de Manuel Lepe a rainha da Inglaterra Elizabeth II, o ex-presidente dos EUA Ronald Reagan, Fidel Castro e os atores Peter O'Toole e John Travolta, todos encantados pelas cores vibrantes e pela alegria e luz de seus quadros.
Certa feita, perguntado quanto ao motivo de pintar crianças como anjos no céu ou pilotando aviões, o artista mexicano respondeu que ele fazia isso, porque eles se cansavam de voar e porque se divertia com isso. "Lepe consegue, por meio de suas pinturas, trazer alegria ao coração da criança que existe em todos nós", disse o diretor de John Huston, também um colecionador do pintor de Puerto Vallarta.
Admirado como pessoa e como artista, Lepe realizou sua última exposição em vida, em 1982, no Hospital Infantil e Centro Médico de Seattle, nos EUA. Pouco depois, ele sofreu um aneurisma cerebral, que o deixou em coma nove meses, até sua morte, em 9 de setembro de 1984, mesmo ano em que seu quadro Árvore de Natal se tornou cartão postal da UNICEF.
Com uma carreira de mais de 500 trabalhos, dos quais apenas cerca de 20 permanecem com a família, Manuel Lepe assegurou definitivamente a inclusão de seu nome entre os grandes da arte naïf. Infelizmente, porém, a enfermidade o impediu de terminar um mural para o edifício da prefeitura de Puerto Vallarta. Em compensação, ele deixou três filhos, Luis David, Luz Marcella, que administra a obra e a galeria do pai, e a caçula, Ana Gabriela.
Pequenos anjos, crianças e cenas de Puerto Vallarta são as marcas registradas de Lepe, que se considerava um nacionalista e admirava os pintores locais Diego Rivera e Rufino Tamayo. Após o filme com Richard Burton, cujos cenários ainda existem na praia de Mismaloya e são utilizados como local para numerosos casamentos ao longo do ano, a cidade nunca mais foi a mesma.
Algo semelhante pode ser dito para os artistas locais, que ganharam, daquele momento em diante, destaque internacional. Manuel Lepe se destaca pelo seu talento incomum e pela capacidade de pintar a alegria do universo infantil sem afetação, com autêntica sinceridade e admirável resultado estético.
O mais admirável em Lepe é que nada é excessivo. Em seus quadros, predomina uma pungente simplicidade, capaz de dar à sua arte uma dimensão universal, seja pelo traço característico, pela temática alegre e - por que não? - por ajudar a transformar Puerto Vallarta num local turístico mundial.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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