por Oscar D'Ambrosio


 

 



Manuelita Arribillaga
A pureza das crianças

Uma ótima maneira de desenvolver a sensibilidade, o bom humor e a delicadeza é o contato cotidiano com as crianças. Com essa receita de vida, a pintora argentina Manuelita Arribillaga vem construindo um trabalho sólido e coerente, em que se destacam selvas pintadas ao estilo de Henri Rousseau, pai dos naïfs, com numerosos animais selvagens, como onças e diversos pássaros.
Nascida em Junín, Buenos Aires, em 19 de dezembro de 1928. Manuelita pinta desde a infância e, como professora primária, decorava as salas de aula com murais e era escolhida para realizar toda a programação visual, aperfeiçoando-se, posteriormente, com uma bolsa do Ministério de Educação da província de Buenos Aires, em Capacitação Visual em Meios Audiovisuais.
De formação eclética, a artista realizou estudos de canto e participou de concertos, além de ter freqüentado cursos de violão, expressão corporal e artes cênicas. Em 1956, ganhou um prêmio com a comédia musical Simple y maravilloso e, em 1968, o disco Cuentos para cantar, em que ela participa como intérprete e autora da letra e da música, foi escolhido para representar a Argentina, em Washington.
Entre outros destaques de seu vasto currículo, é autora, com Mariano Tito, da música da comédia infantil Si te chistan no mires, que foi apresentado, em 1970/1, no Teatro Presidente Alvear. No ano seguinte, com Sally Arribillaga, estreou Andanzas de Manuelita, no teatro San Martín, em Buenos Aires, e no anfiteatro de Necochea.
Em 1974, Manuelita criou o audiovisual Lindos colores, com sua música, letra e interpretação. Apresentou, em 1978, o espetáculo para crianças Cuentos y canciones de Manuelita, no Museu Municipal Enrique Larreta, e publicou o livro de poesias e canções Liralirón, em 1978.
Em meio a todas essas atividades, Manuelita prosseguiu sua carreira docente, encerrada em 1980, como diretora de escola, após mais de 30 anos de exercício profissional, sendo nomeada professora emérita do Instituto Superior Docente Carlos Maria Biedma da Escuela Argentina Modelo.
Em seguida, freqüentou a Oficina de Artes Plásticas da Biblioteca do Congresso de la Nación, onde foi desenvolvendo seu próprio estilo. "O Naïf não se aprende, mas melhorei a técnica com as cores", afirma. "Me considero pintora naïf desde sempre. Eu levo essa arte dentro do meu coração e se reflete em imagens criativas e delicadas."
Ao lado de uma obra infantil e de uma vida dedicada ao ensino, a rte naïf surge como uma manifestação legítima de uma arte em busca do belo. "Pintar naïf é como um jogo de cores e formas que enriquecem o espírito e a imaginação criadora. Tento atingir a beleza e comunicar o amor."
Integrante do Museu Naïf de Esquel, na província de Chubut, Argentina, Manuelita tem como tema preferido a selva e seus simbolismos, além da natureza, de modo geral, com sua fauna e sua flora. Também pinta cenas de campos de seu país, com personagens típicos e motivos religiosos.
Um trabalho de grande delicadeza, Angelical dulzura, realizado em tinta sobre papel, insere-se nessa última vertente. Um anjo surge segurando uma pomba, num jogo sutil de curvas, com harmonia ímpar, realizando um sutil jogo entre a pureza infantil e a fina elaboração artística.
O mais marcante, porém, nas telas de Manuelita são as florestas, locais que ocupam, historicamente, uma especial importância em mitos, lendas e contos folclóricos; e representam um princípio materno e feminino, visualizado numa abundante vida vegetal, não dominada nem cultivada pelo homem.
O universo escuro da selva é o reino do inconsciente. Por ser um universo de trevas e de sombras, geralmente está associado ao perigo, a demônios, inimigos e doenças. Nas telas da pintora argentina, no entanto, encontra-se algo diferente, como uma onça tranqüilamente descansando em meio a uma floresta de intensas cores.
O quadro Maravillas de la creación é o melhor exemplo disso. A cena, pelas suas cores e pelo olhar do felino assume um clima irreal e fantástico, que ganha contornos naïfs quando se começa a reparar nas desproporções, com beija-flores gigantescos, pássaros imensos e borboletas igualmente grandes perante o corpo da onça.
Algo semelhante ocorre em Cándido atardecer. De baixo para cima, em grupos marcados pela horizontalidade, flores, veados, um curso de água, pássaros brancos voando, pedras, árvores vermelhas, azuis e roxas, montanhas e um céu em tom violeta compõem um todo harmônico e idílico.
Manuelita também produz cartões de Natal. Nessa linha, há uma abordagem original em Navidad en la selva. A data cristã e o tema são unidos de forma diferenciada. Encontra-se novamente uma onça próxima a uma árvore, agora decorada com motivos natalinos, iluminada por uma estrela de Belém, em meio a uma densa vegetação, em que um coqueiro dá um ar tropical.
Após uma vida dedicada à educação infantil em suas mais diversas manifestações, Manuelita Arribillaga encontra na pintura uma manifestação da mesma pureza que viu tantas vezes no sorriso das crianças. Suas florestas não são assustadoras ou tenebrosas, mas repletas de cores vibrantes. Em cada um de seus quadros, a artista transmite otimismo e vontade de viver, espalhando isso em cada um que observa seus trabalhos, poéticas imagens de uma utopia de harmonia e redenção.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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