Manoel
Plácido
A
arte do retrato
Infelizmente
existe uma grande confusão entre o que vem a ser a arte figurativa e a
arte contemporânea. Muitos acham que, nesta última, que engloba as
mais variadas tendências, não existe espaço para as produções com técnica
apurada que mergulham fundo, por exemplo, na figura humana, não para
copiar o real, mas para extrair dele o máximo possível em termos de
pintura.
Há
inclusive aqueles que não conseguem ver na pintura figurativa valor artístico,
por julgar que, com a invenção da fotografia, a expressão visual de
retratos feitos por meio do desenho ou da pintura não tem mais sentido.
Quem tem essa opinião parece perder de vista que a própria expressão
“contemporâneo” legitima a
possibilidade de vários estilos artísticos conviverem simultaneamente.
É
nesse contexto que pode ser lida plasticamente a obra de Manoel Plácido.
Nascido em São Paulo, no bairro do Brás, em 8 de julho de 1960, sua
relação com a arte provém desde os 15 anos de idade. Seu trabalho foi
crescendo ao longo dos anos graças ao convívio com outros artistas
como Mauritano Santos e Maurício Takiguthi.
Hoje,
como professor em seu atelier, na Galeria Cultural Blue Life e na Fruto
de Arte, Plácido concentra seu talento na arte figurativa com um
trabalho voltado, nos últimos anos, para o retratismo. Trata-se de um gênero
que exige concentração e disciplina, pois, para se destacar, é
preciso ter a técnica dos mestres e um quê inovador de humanidade.
Nos
retratos que realiza de pessoas famosas, como o cantor Zé Ramalho ou o
ator Raul Cortez, o pintor e desenhista paulista mostra a sua busca
constante por atingir, por meio de desenho preciso e realista novas
conotações em que a arte fale mais alto em dois aspectos: a capacidade
técnica de trabalhar a figura humana e a posição mais adequada,
inclusive com luzes e sombras,
para que a imagem criada consiga, de fato, atingir o objetivo de não
ser meramente um retrato, mas também oferecer a visão integral de uma
pessoa.
Os
trabalhos de Plácido com pastel são dignos de referência. Primeiro,
por ele retomar uma técnica muitas vezes deixada de lado pelas escolas
de pintura; segundo, por fazer isso com rara felicidade, exercitando a
sua técnica não apenas na figura em si mesma, mas em tudo que está ao
seu redor, como o fundo.
O
caminho da arte e da técnica de Plácido parece ser o do aprimoramento
na técnica do retrato. Seu dilema, próprio do gênero, é o de não
deixar a técnica matar a liberdade de criar e o de não deixar que esta
última ofusque suas pesquisas visuais e de material.
Há
na arte de Manoel Plácido uma delicadeza que conquista logo à primeira
vista. Talvez seja por isso que seus retratos sejam tão humanos. Parece
que os seres retratados acreditam na alma humana e na possibilidade de
superação de cada indivíduo. Os seres que retrata surgem então com
vigor, mas sem violência, com um lirismo encantador, que mostra como a
arte figurativa, dede que tenha qualidade, tem espaço no mundo
contemporâneo.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor,
entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América)
e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).