Mabel Baccaro
A pureza das crianças
Por abolir as
fronteiras entre o real e o imaginário, o universo infantil é um
dos principais campos de atuação do artista. Trata-se de um
mundo em que a única certeza é que não existem proibições.
Tudo é possível desde que se tenha a disposição e a capacidade
de se desfazer das diversas couraças que a sociedade vai
progressivamente impondo. Esse processo, porém, não é fácil e
exige extrema dedicação ao fazer artístico.
A pintora argentina
Mabel Baccaro obteve sucesso nesse caminho. Um dos motivos talvez
seja justamente o conhecimento da autenticidade do espírito
infantil, pois, antes de adotar as telas e pincéis, ela foi,
durante 30 anos, professora de pré-escola para crianças entre 3
e 5 anos. "Vivi mergulhada em suas criações artísticas.
Entrar no mundo mágico do ingênuo e permanecer nele permite
transitar pela vida de uma maneira diferente", afirma.
A própria Mabel nos
relata como essa experiência foi importante para o seu
desenvolvimento artístico. "Tantos anos trabalhando com
crianças pequenas, compartilhando a sua particular visão de
mundo, seu realismo mágico e seu animismo, permitiram que eu
conhecesse um universo onde o interno e o externo, o ‘eu’ e o
‘outro’ convivem num diálogo puro e sincero, em que a expressão
consiste em transmitir com inocência visual tudo aquilo que é
simples, cotidiano e sensível", diz.
Valendo-se das declarações
do pintor francês Paul Gauguin, que abriu mão de uma vida
relativamente estável na França para se aventurar pelo Taiti,
Mabel explica ainda melhor essa jornada pelo mundo da arte a
partir de sua larga experiência com crianças. "Bastou
retroceder, como dizia Gauguin, às brincadeiras e aos brinquedos
de minha infância para obter a liberdade de ver a realidade com
outros olhos, mantendo a visão pura e nostálgica intacta",
conta.
O resultado pictórico
desse movimento em busca das respostas que o mundo infantil
oferece à realidade recebe diversas caracterizações. Marilyn
Itrat, artista naïf e professora de Mabel, considera que a sua
discípula tem "audácia criativa", enquanto a crítica
argentina Hilda Marruco Carbonell afirma que sua paleta é
"brilhante e muito vital, de acordo com a natureza da própria
artista". "O impulso, minha força interior, faz que
surja rapidamente na tela, pela observação espontânea da vida,
tudo de que mais gosto", completa a artista.
Graças a um amplo background
voltado para universo infantil, Mabel, nascida em Moreno, província
de Buenos Aires, em 2 de janeiro de 1941, considera-se naïf desde
sempre. Começou, no entanto, sua incursão pelo mundo das telas,
tintas e pincéis, em 1991. "A artista e professora Marilyn
Itrat começou a dar aulas em Hurlingham, cidade onde moro. Ela é
minha fada madrinha e lhe devo tudo o que consegui na arte até
hoje", conta. "Com a obra mais simples e espontânea, o
artista naïf envia sua verdadeira mensagem."
Mabel começou a
participar de salões e mostras coletivas, em 1992, e realizou sua
primeira exposição individual, em 1995. No ano anterior,
recebera o segundo prêmio na Bienal de Dimensión – Centro de
Arte y Comunicación. Integra ainda, desde 1998, o Museu Naïf
Austral, em Neuquén.
A temática de Mabel é bem variada,
incluindo desde temas bem argentinos, como cenas de tango e plantações,
a paisagens localizadas na Itália, como Capri, Alemanha e a selva
amazônica. "Tudo aquilo que me causa impacto, seja
pessoalmente ou em fotos, fica gravado em mim e eu o transporto
para a tela", afirma.
Mabel conta que as
viagens que realizou pela Argentina são uma importante fonte de
inspiração para sua pintura. "Observo céus, campos e
arquiteturas. Aprendo a ‘olhar’, a ‘ver’, a contemplar
detalhes, formas e cores", conta. "No exterior, tive a
oportunidade de ver obras geniais nos museus de Florença, Roma e
Madrid. Muitas delas me impactaram e ficaram gravadas para sempre
na minha mente e no meu coração."
Uma das paixões de
Mabel, nas viagens pela Argentina, é visitar capelas e conventos
da época colonial. "Tiro fotos e procuro documentação
sobre elas", conta. Uma de suas melhores telas vem justamente
do amor pela paróquia de Merlo, em San Luis, Argentina.
Intitulado Jubileu
angelical em Merlo, a tela realiza uma integração entre o
sagrado e o profano oriunda, provavelmente, dessa afinidade que a
artista possui com o universo infantil. Anjos, mulheres idosas e
crianças interagem com a maior tranqüilidade, como ocorre entre
as crianças, que costumam derrubar os limites entre o que se vê,
o que se imagina e o que se gostaria de ver.
A tela mostra anjos
tocando o sino da paróquia, colocada à frente de um mundo
montanhoso. À porta da igreja, dois anjos, um tocando harpa e
outro, violino esperam a chegada dos fiéis. No interior do
templo, surge a pomba branca do Espírito Santo, cercada de raios
dourados sobre um altar branco.
Três mulheres se
aproximam da paróquia. À direita, carregando flores, com saia
vermelha e blusa cor-de-rosa está a mais idosa. A cabeça,
coberta de verde, harmoniza-se com a folhagem do ramo que carrega
nas mãos. À esquerda, surge, vestida de vermelho, uma jovem de
cabelos compridos com uma cesta de flores e, com o braço
levantado em direção aos anjos músicos, uma menina vestida de
amarelo, mesma cor que ilumina o Espírito Santo, com tranças,
também se acerca.
Observa-se no quadro o
cuidadoso uso das cores, pois toda a igreja surge em diversos tons
de amarelo, acentuando sua sacralidade. A criança,
significativamente, apresenta roupas da mesma cor, já que o vínculo
delas com Deus é reforçado no Novo Testamento ("Vinde a mim
as crianças. É delas o Reino dos Céus"). "As cores,
como as canções de amor, são vibrações semelhantes ao soar de
sinos anunciando a felicidade", comenta a artista.
O principal mérito de
Mabel Baccaro enquanto pintora está na busca de uma linguagem própria
que vença as limitações do mundo adulto. Com suas cores simbólicas
e imagens repletas de detalhes, cria uma linguagem própria,
marcada pela busca de formas originais de expressar seu mundo
interior.
Esse diálogo entre as emoções
internas e a tela vazia é evidenciado num desenho feito sobre
papel intitulado O adeus. Um veleiro parte, acompanhado por
uma gaivota, enquanto uma moça de chapéu junto a uma árvore e a
uma carroça e uma figura sentada numa varanda se colocam em direções
contrárias.
O quadro, pela multiplicidade de
elementos, permite várias leituras interpretativas. Um elemento,
no entanto, que desperta a tenção é a porteira aberta. Estará
a moça partindo? Houve, há ou haverá uma separação? São as
indagações que surgem, motivadas pelos poucos e finos traços de
Mabel, capazes de sugerir, com destreza, nuvens, mato e pedras.
Mabel Baccaro concretiza o desejo de
todo pintor digno desse nome. Sua arte motiva a reflexão. Não é
para ser contemplada passivamente, pois inclui sempre um certo
elemento lúdico e narrativo. Isso encanta e mostra que a sua
ampla experiência como professora primária foi um intenso
aprendizado de como as imagens pictóricas podem criar novos, fantásticos
e fantasiosos mundos.
A artista aprendeu a lição com
louvor e sugere que o melhor caminho para a arte é estar sempre
conectado com a pureza e a espontaneidade das crianças. Quando
esses ingredientes são combinados com intensos recursos técnicos,
como o domínio da cor e do traço, um resultado fascinante brota
espontaneamente. É o que ocorre nas telas de Mabel Baccaro, que
mergulha de corpo inteiro no trabalho com as tintas, retirando
delas o máximo que a sua capacidade de realizar sonhos propicia.