por Oscar D'Ambrosio


 

 



Mabel Baccaro

        A pureza das crianças

        Por abolir as fronteiras entre o real e o imaginário, o universo infantil é um dos principais campos de atuação do artista. Trata-se de um mundo em que a única certeza é que não existem proibições. Tudo é possível desde que se tenha a disposição e a capacidade de se desfazer das diversas couraças que a sociedade vai progressivamente impondo. Esse processo, porém, não é fácil e exige extrema dedicação ao fazer artístico.

        A pintora argentina Mabel Baccaro obteve sucesso nesse caminho. Um dos motivos talvez seja justamente o conhecimento da autenticidade do espírito infantil, pois, antes de adotar as telas e pincéis, ela foi, durante 30 anos, professora de pré-escola para crianças entre 3 e 5 anos. "Vivi mergulhada em suas criações artísticas. Entrar no mundo mágico do ingênuo e permanecer nele permite transitar pela vida de uma maneira diferente", afirma.

        A própria Mabel nos relata como essa experiência foi importante para o seu desenvolvimento artístico. "Tantos anos trabalhando com crianças pequenas, compartilhando a sua particular visão de mundo, seu realismo mágico e seu animismo, permitiram que eu conhecesse um universo onde o interno e o externo, o ‘eu’ e o ‘outro’ convivem num diálogo puro e sincero, em que a expressão consiste em transmitir com inocência visual tudo aquilo que é simples, cotidiano e sensível", diz.

        Valendo-se das declarações do pintor francês Paul Gauguin, que abriu mão de uma vida relativamente estável na França para se aventurar pelo Taiti, Mabel explica ainda melhor essa jornada pelo mundo da arte a partir de sua larga experiência com crianças. "Bastou retroceder, como dizia Gauguin, às brincadeiras e aos brinquedos de minha infância para obter a liberdade de ver a realidade com outros olhos, mantendo a visão pura e nostálgica intacta", conta.

        O resultado pictórico desse movimento em busca das respostas que o mundo infantil oferece à realidade recebe diversas caracterizações. Marilyn Itrat, artista naïf e professora de Mabel, considera que a sua discípula tem "audácia criativa", enquanto a crítica argentina Hilda Marruco Carbonell afirma que sua paleta é "brilhante e muito vital, de acordo com a natureza da própria artista". "O impulso, minha força interior, faz que surja rapidamente na tela, pela observação espontânea da vida, tudo de que mais gosto", completa a artista.

        Graças a um amplo background voltado para universo infantil, Mabel, nascida em Moreno, província de Buenos Aires, em 2 de janeiro de 1941, considera-se naïf desde sempre. Começou, no entanto, sua incursão pelo mundo das telas, tintas e pincéis, em 1991. "A artista e professora Marilyn Itrat começou a dar aulas em Hurlingham, cidade onde moro. Ela é minha fada madrinha e lhe devo tudo o que consegui na arte até hoje", conta. "Com a obra mais simples e espontânea, o artista naïf envia sua verdadeira mensagem."

        Mabel começou a participar de salões e mostras coletivas, em 1992, e realizou sua primeira exposição individual, em 1995. No ano anterior, recebera o segundo prêmio na Bienal de Dimensión – Centro de Arte y Comunicación. Integra ainda, desde 1998, o Museu Naïf Austral, em Neuquén.

A temática de Mabel é bem variada, incluindo desde temas bem argentinos, como cenas de tango e plantações, a paisagens localizadas na Itália, como Capri, Alemanha e a selva amazônica. "Tudo aquilo que me causa impacto, seja pessoalmente ou em fotos, fica gravado em mim e eu o transporto para a tela", afirma.

        Mabel conta que as viagens que realizou pela Argentina são uma importante fonte de inspiração para sua pintura. "Observo céus, campos e arquiteturas. Aprendo a ‘olhar’, a ‘ver’, a contemplar detalhes, formas e cores", conta. "No exterior, tive a oportunidade de ver obras geniais nos museus de Florença, Roma e Madrid. Muitas delas me impactaram e ficaram gravadas para sempre na minha mente e no meu coração."

        Uma das paixões de Mabel, nas viagens pela Argentina, é visitar capelas e conventos da época colonial. "Tiro fotos e procuro documentação sobre elas", conta. Uma de suas melhores telas vem justamente do amor pela paróquia de Merlo, em San Luis, Argentina.

        Intitulado Jubileu angelical em Merlo, a tela realiza uma integração entre o sagrado e o profano oriunda, provavelmente, dessa afinidade que a artista possui com o universo infantil. Anjos, mulheres idosas e crianças interagem com a maior tranqüilidade, como ocorre entre as crianças, que costumam derrubar os limites entre o que se vê, o que se imagina e o que se gostaria de ver.

        A tela mostra anjos tocando o sino da paróquia, colocada à frente de um mundo montanhoso. À porta da igreja, dois anjos, um tocando harpa e outro, violino esperam a chegada dos fiéis. No interior do templo, surge a pomba branca do Espírito Santo, cercada de raios dourados sobre um altar branco.

        Três mulheres se aproximam da paróquia. À direita, carregando flores, com saia vermelha e blusa cor-de-rosa está a mais idosa. A cabeça, coberta de verde, harmoniza-se com a folhagem do ramo que carrega nas mãos. À esquerda, surge, vestida de vermelho, uma jovem de cabelos compridos com uma cesta de flores e, com o braço levantado em direção aos anjos músicos, uma menina vestida de amarelo, mesma cor que ilumina o Espírito Santo, com tranças, também se acerca.

        Observa-se no quadro o cuidadoso uso das cores, pois toda a igreja surge em diversos tons de amarelo, acentuando sua sacralidade. A criança, significativamente, apresenta roupas da mesma cor, já que o vínculo delas com Deus é reforçado no Novo Testamento ("Vinde a mim as crianças. É delas o Reino dos Céus"). "As cores, como as canções de amor, são vibrações semelhantes ao soar de sinos anunciando a felicidade", comenta a artista.

        O principal mérito de Mabel Baccaro enquanto pintora está na busca de uma linguagem própria que vença as limitações do mundo adulto. Com suas cores simbólicas e imagens repletas de detalhes, cria uma linguagem própria, marcada pela busca de formas originais de expressar seu mundo interior.

Esse diálogo entre as emoções internas e a tela vazia é evidenciado num desenho feito sobre papel intitulado O adeus. Um veleiro parte, acompanhado por uma gaivota, enquanto uma moça de chapéu junto a uma árvore e a uma carroça e uma figura sentada numa varanda se colocam em direções contrárias.

O quadro, pela multiplicidade de elementos, permite várias leituras interpretativas. Um elemento, no entanto, que desperta a tenção é a porteira aberta. Estará a moça partindo? Houve, há ou haverá uma separação? São as indagações que surgem, motivadas pelos poucos e finos traços de Mabel, capazes de sugerir, com destreza, nuvens, mato e pedras.

Mabel Baccaro concretiza o desejo de todo pintor digno desse nome. Sua arte motiva a reflexão. Não é para ser contemplada passivamente, pois inclui sempre um certo elemento lúdico e narrativo. Isso encanta e mostra que a sua ampla experiência como professora primária foi um intenso aprendizado de como as imagens pictóricas podem criar novos, fantásticos e fantasiosos mundos.

A artista aprendeu a lição com louvor e sugere que o melhor caminho para a arte é estar sempre conectado com a pureza e a espontaneidade das crianças. Quando esses ingredientes são combinados com intensos recursos técnicos, como o domínio da cor e do traço, um resultado fascinante brota espontaneamente. É o que ocorre nas telas de Mabel Baccaro, que mergulha de corpo inteiro no trabalho com as tintas, retirando delas o máximo que a sua capacidade de realizar sonhos propicia.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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