Maazo
Heck
Associação entre o saber
e o sentir
O crítico de arte Gregory
Battock, na introdução de A
nova arte, aponta
que, na arte contemporânea, “o interesse do artista transferiu-se
de valores exclusivamente pictóricos para considerações sobre as
extensões dos meios”. Se, por um lado, essa postura propicia um
sem-número de pesquisas; por outro, justifica, por vezes, trabalhos
aparentemente injustificáveis em nome da experimentação.
A
obra de Maazo Heck obriga a repensar a questão em seus trabalhos mais
recentes, realizados com o uso de capinhas de Cd como suporte ou como
molduras. Está aí um artista plástico que coloca seu conhecimento técnico
a serviço de um novo recurso.
Nascido
em São Paulo, SP, em 1951, mas radicado em Salvador, BA, por três décadas,
Heck formou-se como artista plástico na Universidade Federal da
Bahia, tendo sido premiado em salões e bienais e alcançado sucesso
de vendas com toda uma pesquisa de cunho hiper-realista com corpos
femininos como assunto.
Atualmente
lecionando na EFA – Escola FIEO de Arte, em Osasco, SP, Heck,
presente na importante publicação +100
artistas plásticos da Bahia – Salvador, da galeria de arte
baiana Prova do Artista, tem ainda em seu currículo o curso de pós-graduação
em Artes da Universidade São Judas Tadeu, SP.
O
fascinante da obra de Heck com as capinhas, geralmente colocadas em
estruturas horizontais de 15 Cds, é que elas obedecem duas formas de
composição. Há a pintura com tinta acrílica diretamente sobre o
suporte, principalmente em tom de azul – o que dá, ainda mais a
distância, a aparência de serem até peças feitas em azulejo.
Existe,
também, uma segunda vertente, mais desafiadora ao olhar, em que, com
técnica mista, imagens são pintadas e colocadas, com fundo branco,
dentro da capinha do Cd, que funciona como uma autêntica “moldura
sanduíche”. A vantagem desse recurso é que os trabalhos,
colocados, lado a lado, podem pela sua mobilidade intrínseca, terem a
ordem alterada em função de variações do gosto do artista ou mesmo
em um projeto de interação com o público.
Uma das séries
mais interessantes é a intitulada Peregrino,
na qual uma figura solitária aparece em diversos tons de dourado
caminhando por um espaço vazio. Constitui um retrato atual sobre a
solidão existencial de seres humanos mergulhados em si mesmos e cada
vez com maior dificuldade de se comunicar com os outros e com si
mesmos.
O
peregrino que vai e vem pelas capinhas de Cd pode, ainda, numa leitura
bem livre do ato criativo, lembrar o jogo do pintor em suas camadas de
veladuras. Oriundo de uma prática que valoriza o conhecimento técnico,
Heck, que costumava trabalhar com telas de grandes proporções, realiza,
na atual pesquisa com suportes menores, a concentração do exercício
da prática artística.
Embora o
azul e o dourado predominem, a experimentação com verdes e vermelhos
constitui uma vereda a ser percorrida, permitindo novas possibilidades
de criação de gradações cromáticas, sem contar vertentes de
desenvolvimento plástico que incluem o pensar de algumas imagens que
Heck utilizou em fases anteriores, como os mencionados corpos nus, além
de frutas e algumas composições em que o referente concreto vá se
diluindo, cedendo espaço à abstração e à criação de atmosferas.
O uso do
Cd como suporte não só aponta para uma versão do reaproveitamento e
da circulação constante de materiais. Indica ainda para uma exploração
pelas artes plásticas dos mais variados elementos, sejam eles
retirados do cotidiano ou não. As capinhas funcionam, nos melhores
trabalhos de Heck, como exercícios de pintura. Mostram que o domínio
da técnica, associado à criatividade, supera a experimentação
vazia pelo fato do saber fazer estar associado ao sentir, tanto no ato
de criar como no de observar, facetas que se interpenetram nas obras
de qualidade.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da
UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil).