por Oscar D'Ambrosio


 

 


Luiz Toledo

 

            Máscaras em cerâmica

 

“Na vida, precisamos sempre usar máscaras, pois ninguém nos reconheceria se nos apresentássemos de rosto nu”. O pensamento do poeta Ledo Ivo, em Confissões de um poeta, aponta para uma das leituras possíveis do trabalho do ceramista Luiz Toledo, radicado na cidade de Cunha, interior do Estado de São Paulo.

As cerâmicas do artista são um sucessivo desfile das mais variadas máscaras. De inspiração indígena e africana em sua maioria, atingem resultados ainda mais impressionantes quando retratam o rosto humano em deformações nunca assustadoras, mas sim reveladoras de variantes de personalidade.

Transformadas em objetos utilitários, como vasos ou abajures, as máscaras têm vida autônoma como obra de arte, se entendermos esta como a capacidade um artista reinventar o mundo a partir de uma visão muito particular, plena de referências e sempre disposta a surpreender.

            Toledo conheceu o trabalho com barro na olaria do pai, assim como ficava encantado com as tradicionais paneleiras de Cunha, hoje desaparecidas sem deixar sucessoras. Em 1975, aos 22 anos, quando a família fechou o negócio, coincidentemente chegou à cidade um grupo de ceramistas.

Eles se fixaram no município, introduzindo ali a técnica japonesa com forno Noborigama (“forno em aclive”, em japonês) de alta temperatura. São várias câmaras de queima construídas com uma inclinação entre elas, de forma que o calor gerado pela lenha sobe das câmaras mais baixas para as mais altas.

O jovem ficou fascinado e observava tudo com muita atenção. Foi convidado por Toshiyuki Ukeseki, ceramista pioneiro na cidade, a ajudar o grupo de artistas a construir o forno e preparar o barro. Em troca, aprendia técnica e usava o torno dos recém-chegados. Com o passar do tempo, fez o próprio torno e usava um forno das paneleiras.

Posteriormente, fez um forno mais moderno e, um terceiro, Noborigama, mas de uma câmara só. Em 1980, montou o próprio ateliê, desenvolvendo progressivamente um caminho próprio, em que a técnica oriental cuidadosamente aprendida se une a imagens das culturas que formaram o Brasil, principalmente a figuração de rostos com marcas indígenas e elementos do universo africano.

Nas paredes do ateliê de Toledo, há centenas de recortes de notícias de jornais e reportagens de revistas com máscaras das mais variadas origens, desenhos e ilustrações de monstros ou pessoas, famosas ou anônimas, em poses expressivas. De tudo isso, ele tira sua inspiração. Dali brota cada composição mais surpreendente que a seguinte.

Luiz Toledo é um ceramista diferenciado justamente por ter encontrado uma vereda pessoal que percorre com fidelidade. Seu tema é a representação do rosto humano, um mundo infinito, capaz de motivar as mais variadas composições, pois cada elemento da face em si mesmo já propicia várias leituras. Assim, sua obra alerta para as máscaras que utilizamos no cotidiano, pois os exageros propositais das formas criadas pelo artista são apenas a concretização daquelas que vestimos e das que vemos nos outros a cada instante.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 
 

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cerâmica Noborigamaforno de alta temperatura sem data 

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