Luiz
Toledo
Máscaras em cerâmica
“Na
vida, precisamos sempre usar máscaras, pois ninguém nos reconheceria
se nos apresentássemos de rosto nu”. O pensamento do poeta Ledo Ivo,
em Confissões de um poeta, aponta para uma das leituras possíveis
do trabalho do ceramista Luiz Toledo, radicado na cidade de Cunha,
interior do Estado de São Paulo.
As
cerâmicas do artista são um sucessivo desfile das mais variadas máscaras.
De inspiração indígena e africana em sua maioria, atingem resultados
ainda mais impressionantes quando retratam o rosto humano em deformações
nunca assustadoras, mas sim reveladoras de variantes de personalidade.
Transformadas
em objetos utilitários, como vasos ou abajures, as máscaras têm vida
autônoma como obra de arte, se entendermos esta como a capacidade um
artista reinventar o mundo a partir de uma visão muito particular,
plena de referências e sempre disposta a surpreender.
Toledo
conheceu o trabalho com barro na olaria do pai, assim como ficava
encantado com as tradicionais paneleiras de Cunha, hoje desaparecidas
sem deixar sucessoras. Em 1975, aos 22 anos, quando a família fechou o
negócio, coincidentemente chegou à cidade um grupo de ceramistas.
Eles
se fixaram no município, introduzindo ali a técnica japonesa com forno
Noborigama (“forno em aclive”, em japonês) de alta temperatura. São
várias câmaras de queima construídas com uma inclinação entre elas,
de forma que o calor gerado pela lenha sobe das câmaras mais baixas
para as mais altas.
O
jovem ficou fascinado e observava tudo com muita atenção. Foi
convidado por Toshiyuki Ukeseki, ceramista pioneiro na cidade, a ajudar
o grupo de artistas a construir o forno e preparar o barro. Em troca,
aprendia técnica e usava o torno dos recém-chegados. Com o passar do
tempo, fez o próprio torno e usava um forno das paneleiras.
Posteriormente,
fez um forno mais moderno e, um terceiro, Noborigama, mas de uma câmara
só. Em 1980, montou o próprio ateliê, desenvolvendo progressivamente
um caminho próprio, em que a técnica oriental cuidadosamente aprendida
se une a imagens das culturas que formaram o Brasil, principalmente a
figuração de rostos com marcas indígenas e elementos do universo
africano.
Nas
paredes do ateliê de Toledo, há centenas de recortes de notícias de
jornais e reportagens de revistas com máscaras das mais variadas
origens, desenhos e ilustrações de monstros ou pessoas, famosas ou anônimas,
em poses expressivas. De tudo isso, ele tira sua inspiração. Dali
brota cada composição mais surpreendente que a seguinte.
Luiz
Toledo é um ceramista diferenciado justamente por ter encontrado uma
vereda pessoal que percorre com fidelidade. Seu tema é a representação
do rosto humano, um mundo infinito, capaz de motivar as mais variadas
composições, pois cada elemento da face em si mesmo já propicia várias
leituras. Assim, sua obra alerta para as máscaras que utilizamos no
cotidiano, pois os exageros propositais das formas criadas pelo artista
são apenas a concretização daquelas que vestimos e das que vemos nos
outros a cada instante.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor,
entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América)
e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).