Luiza Caetano
Portuguesa e universal
com certeza
Ela é uma pintora
portuguesa com certeza. Seja pela sua história de vida ou pelas
telas que cria, Luiza Caetano fascina aqueles que conhecem o seu
trabalho, tanto pela versatilidade de temas como pela capacidade
de inovar ao enfocar os mais variados aspectos da vida dos saloios
lusos, ou seja, aqueles camponeses que vivem nos arredores de
Lisboa. No entanto, além desse visível regionalismo, a forma artística
de que a artista se vale ao tratar desses temas, dá ao seu
trabalho uma profunda dimensão universal.
Nascida na aldeia de
Venda do Pinheiro, em Mafra, perto de Lisboa, em 1946, Luiza teve
uma infância pobre semelhante a de muitas mulheres da região,
habitada por pessoas pouco letradas. No entanto, foi nesse
universo que viu imagens que cristalizaria mais tarde em quadros,
como Aldeia saloia, Burro saloio ou Festas da
minha aldeia.
Luiza, que se define
"órfã de pais, filhos e maridos", começou a trabalhar
numa usina de tecelagem, como operária, aos 11 anos de idade. Aos
18 anos, mudou para Lisboa. Passou a viver então a rotina de
trabalhar durante o dia e estudar à noite. Formou-se assim em
Filosofia e começou a escrever poemas e contos, publicando alguns
em jornais.
Material para isso não
faltava à observadora e inquieta Luiza, que viajou por Ásia,
Europa, México e Índias, de avião, de carona, enfim, da forma
que conseguia. Nesse período desenvolveu também o amor pela
pintura. Começou então a freqüentar exposições e a pensar em
desenhar algo, mesmo sem ter cursado qualquer academia de arte,
fato que a caracteriza como autêntica naïf.
Em 1988, ocorreu o
grande estalo. Luiza comprou pincéis, tintas e telas.
"Comecei a borrar tudo quanto me rodeava", conta. O
resultado chamou a atenção de um amigo pintor, que levou suas
telas para a Galeria de Arte do Casino Estoril, prestigiado espaço
português situado num complexo tipo Las Vegas.
Luiza foi aceita no
Salão Naïf local, realizado anualmente e considerado um dos
melhores da Europa, e começou uma carreira que hoje inclui exposições
em Portugal e no exterior, principalmente Espanha, França,
Alemanha, Cabo Verde, Bélgica, EUA e Brasil, além de integrar
importantes acervos internacionais e de ter participado da fundação
em 1989, da Associação de Pintores Primitivos Modernos de
Portugal .
Luiza integrou ainda a
exposição inaugural do Museu de Arte Primitiva Moderna de Guimarães,
em Portugal, com dois quadros bem distintos: um paradisíaco Adão
e Eva perante a maça do pecado e uma visão da Ponte 25 de abril
com uma cruz inclinada como a abençoar o rio Tejo. Essa pequena
intromissão do fantástico na tela dá um charme todo especial ao
trabalho de Luiza e a destaca no panorama dos naïfs portugueses.
Premiada pela
Embaixada de Portugal em Cabo Verde, em 1996, e no XVII Salão de
Arte Naïf, Galeria do casino Estoril, em1997, Luiza não hesita
em definir o trabalho que faz. "Pintar representa um escape
onde liberto as tensões e o estresse do dia-a-dia, onde
cristalizo algumas emoções e recordações. A pintura veio
substituir a necessidade que tinha de escrever e, de fato, desde
que pinto, não consegui escrever mais poesia ou contos",
afirma. Ela até arrisca uma explicação para isso:
"Trabalho nos escritórios de uma grande multinacional, a
Renault, onde as minhas funções incluem exatamente por passar o
dia a escrever."
Entre os pintores que
a motivam a seguir em frente com seu ofício de pintora, Luiza
destaca Henri Rousseau, o pai dos naïfs; Frida Khalo e Diego
Rivera, que já pintou juntos; além do colombiano Botero e da
brasileira Tarsila do Amaral. Na poesia, cita Manuel Bandeira,
Florbela Espanca, Eugênio de Andrade e Fernando Pessoa, a quem
também já retratou ao lado de Charles Chaplin, em frente ao célebre
Café Lisboa.
Entre os escritores, há
uma interessante preferência pelos grandes mestres do realismo
fantástico, como Kafka e Gabriel García Márquez, além do
conterrâneo José Saramago. Suas telas, em certo aspecto, às
vezes se aproximam dessa tendência, pois, embora partam de situações
cotidianas sempre tem algum elemento, por menor que seja, de
irrealidade, que atribui alguma simbologia à tela.
Esse recurso se torna
mais evidente no tratamento que a artista portuguesa dá às
proporções, como ocorre, por exemplo, no quadro O Fado –
Homenagem a Amália Rodrigues, em que a grande cantora de fado
é mostrada quatro vezes maior do que os espectadores do seu show
e os músicos que a acompanham, além das presenças
significativas e misteriosas, nos azulejos das paredes da casa de
fado, de Santo Antônio de Lisboa e de Fernando Pessoa.
Além das aldeias e
cenas saloias já mencionadas, Luiza pinta recantos de Portugal,
como Guimarães – Música na Praça da Oliveira e Cegonhas
brancas no Castelo de Arraiolos. A história de Portugal também
comparece em seus trabalhos, merecendo destaque a tela Festejando
o 25 de abril no Pelourinho. Homens, mulheres e crianças
dançam e cantam, todos com os tradicionais cravos vermelhos que
coroaram a democracia lusa.
Quadros como Partida
de Vasco de Gama para a Índia, que exalta o empreendimento
marítimo luso, Terras de Vera Cruz, em que as praias
brasileiras aparecem como locais paradisíacos, com coqueiros,
aves e ondas calmas, e Sermão do Padre Antônio Vieira aos índios
do Brasil, marcado pela presença de araras coloridas que
contrastam com as velas brancas das caravelas portuguesas,
confirmam a preocupação da artista com as raízes portuguesas.
Em outubro último,
quando esteve no Brasil para a abertura da exposição Naïfs
Portugueses Redescobrem o Brasil, o cônsul da Suíça no Rio
de Janeiro pediu que ela pintasse uma tela relativa aos
descobrimentos portugueses, com as caravelas chegando ao Brasil,
baseado justamente em quadros da artistas sobre essas temática.
Luiza relutou, mas
aceitou a tarefa. "É difícil para mim trabalhar por
encomenda, mas vou recriar o tema. Gosto muito de desafios ",
declarou. Seguramente ela não terá dificuldades, pois em telas
como Va, pensiero e Deusas do rio a relação entre
embarcações e a água é tratada com simplicidade e toques de
criatividade.
O ecletismo dos temas
de Luiza assombra pela diversidade. Se as festas populares de
Lisboa, no conhecido bairro da Alfama, não podiam faltar numa autêntica
pintora lusa, como ocorre em Prece das noivas a Santo Antônio;
o universo agrário, quando presente, geralmente também é
mostrado em cenas alegres, como Apanhadores de melão ou Apanhando
tomate, alem de um coloridíssimo Homem de malmequeres,
vendendo suas flores em uma rua no centro do quadro. Ao fundo,
centenas de pequenas manchas de diversas tonalidades, indicando os
mais variados tipos de plantações.
Há ainda A orgia
do vinho, em que homens e mulheres aparecem tocando
instrumentos e pisando uvas. Na parte superior do quadro, moinhos
de vento dão harmonia à cena e, à direita, um senhor de smoking
bebe, imerso em luxo, o resultado do árduo trabalho dos
camponeses.
Também há cenas mais
românticas, como Namoro, em meio a um campo todo florido,
ou uma moça sozinha num campo igualmente paradisíaco, em Malmequer...
Bem me quer, mas a força maior de Luiza parece estar
justamente na forma original que mostra o cotidiano da vida
saloia. As imagens surgem com naturalidade, sem afetação,
encantando à primeira vista.
Observar atentamente
as telas de Luiza Caetano é um descanso para os olhos. Olhar as
imagens que nos oferece constitui não só uma visita a Portugal,
mas, acima de tudo, um mergulho num universo de pinceladas
precisas e decididas que dão aos seus quadros uma dimensão
universal, colocando-a entre as principais expressões da pintura
naïf em âmbito mundial, já que, a artista consegue extrair
aquilo que há de universal na vida saloia portuguesa.
Oscar D’Ambrosio