por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Luis Felipe Camargo

 

            Memórias

 

            O escritor Wieslaw Brudzinsli, em Minhas descobertas da América, aponta: “A memória é uma peneira estranha: retém todo o bem de nós e todo o mal dos outros”. Esse pensamento permite vislumbrar com novos olhos a instalação Memórias, de Luis Felipe Camargo, que  recebeu Menção Honrosa do Júri do 11º Salão Paulista de Arte Contemporânea de 2006.

A mescla de materiais se faz presente pelo uso de cerâmica, tecido, metal e cimento, porém, mais importante que a técnica utilizada é o pensamento embutido no trabalho plástico de que a memória também endurece e cristaliza com o tempo. Assim, o tecido, em tese suave e agradável de ser tocado, transforma-se em algo duro, pesado, pleno de matéria, sombrio e até assustador.

            Nascido em São Paulo em 23 de maio de 1985, Camargo pintava quadros desde pequeno e, com o incentivo da família, fez o curso de bacharelado em Artes Plásticas no Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo. Experimentador de materiais desde a adolescência,  tem, entre as pessoas que o apoiaram, duas referências, a professora de cerâmica Lalada Dalglish e o produtor de moda César Fassina, com quem trabalhou durante algum tempo.

            Memórias mescla a art wear, tendência que se apropria da vestimenta para a criação de elementos artísticos, com o universo das instalações, em que o espaço é utilizado para o estabelecimento de novas realidades em que geralmente surgem discussões dos mais variados assuntos e conceitos, principalmente do próprio significado da arte.

            É no cruzamento do trabalho com a roupa (que se torna objeto plástico) com a ocupação de uma área dentro de um salão de arte que a obra de Camargo ganha relevância. As duas araras em que pendura roupas femininas dos mais diversos tamanhos, mas unificadas pelo tratamento dado aos tecidos e cabides, dão a idéia do desgaste da passagem do tempo.

            Essa interpretação simplista, porém, não se torna piegas, porque boa parte das associações que a memória humana faz estão ligadas às roupas que cada um veste. Isso inclui na só as próprias indumentárias, mas também as alheias, num lúdico e infinito diálogo entre aquilo que se viveu, os fatos lembrados e os imaginados.

            As roupas uniformizadas e pesadas são como capítulos de um livro de memórias. Se o romancista Marcel Proust foi um mestre ao tratar da temática, alertando que as recordações ora funcionam como “calmante”, ora  como “veneno perigoso”, as roupas de Camargo trazem em si mesmas o peso de uma história.

            Muito mais que um documento plástico de um tempo passado, Memórias é um alerta de um futuro em que, se cada indivíduo ficar preso ao passado, dominado pelo cimento das roupas que vestiu ou pensou ter vestido, não conseguirá decolar para novos sonhos, pois corre o risco de perder a capacidade de imaginar. E, quando isso, ocorre, simplesmente significa que ele deixou de viver.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

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Memórias
Instalação
Técnica mista (cerâmica, tecido, metal e cimento)
2 m x 2,5 m 2005/2006

Luis Felipe Camargo

 

 

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