por Oscar D'Ambrosio


 

 


Luise Weiss

 

            A poética do tempo

 

            Ovídio (43 a. C. – 17 d.C.) , em suas Metamorfoses, apontava que o tempo era “um devorador das coisas”. O livro Luise Weiss (Edusp e Imprensa Oficial; 160 páginas; R$ 70,00. Informações: (11) 3814-5811), ao reunir boa parte dos trabalhos desenvolvidos em sua tese de doutoramento, defendida na Escola de Comunicações e Artes da USP, em 1998, mostra que a passagem dos segundos, minutos, horas, dias, anos e séculos pode também ser um caminho para a ressurreição.

            Os livros-objetos, as pinturas, os copos d´água e mel com imagens fotográficas dentro, as fotografias de silhuetas feitas a partir de projeções de luz realizadas com recortes de papelão e as sobreposições fotográficas reunidas no livro constituem um conjunto imagético de grande lirismo.

            Tudo isso integra o universo mental de Luise. Nascida em 18 de outubro de 1953, em São Paulo, SP, graduada em artes plásticas e com mestrado e doutorado também na ECA, casada, dois filhos, ela leciona hoje desenho e gravura no Instituto de Artes da Unicamp e na Universidade Mackenzie e tem, como uma de suas temáticas principais, um projeto que retoma as suas origens, nos bisavôs paternos, no Tirol, e  maternos, que saíram da Áustria, pouco antes dela ser anexada pela Alemanha, no início do século passado.

            Fotografias, álbuns, cartões postais, documentos, desenhos, livros, viagens a Viena e a Munique e  roupas são o ponto de partida de um livro mobilizador de emoções pelo talento e delicadeza capazes de estabelecer um diálogo com o passado, sem melancolia, mas fazendo renascer imagens que, paulatinamente, não são mais de parentes ou de conhecidos, mas ícones da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com suas lutas de trincheiras e mortes e ferimentos incontáveis causados pela disputa de cada pedaço de terra.

            Logo na capa, o livro traz os objetos que fizeram Luise conceber a sua introdução num universo cercado por névoas: um cinzeiro de bolso com três tocos de cigarro, guardados por um amigo combatente, únicas manifestações concretas do soldado Pepi, tio-avô de Luise e mola propulsora dessa busca arqueológica pela memória do passado de cada um de nós

Pepi faleceu, morto por uma granada, na Primeira Guerra, como relata a carta de um companheiro de batalha datada de 20 de dezembro de 1915. O documento conta os últimos momentos do parente e estimulou Luise a buscar mais informações. Ela, entretanto, só localizou duas fotos: uma num álbum e outra, fardado, ao lado do irmão, provavelmente pouco antes de morrer.

A reconstrução da trajetória real de Pepi logo se mostrou utópica. Pouco podia ser levantado sobre aquele ser específico. A ampliação de fotos das tropas alemãs em  combate, por meio de xerox e outros recursos de computação gráfica, porém,  reviveu centenas de soldados e faces, junto a expressões e sentimentos.

Na busca de Pepi, Luise encontrou um universo. Sua poética artística ganhou novas dimensões, já que a pesquisa arqueológica começou a ir muito além da vida de um soldado, propiciando um mergulho visceral num período essencial da história humana, sempre tendo em vista o tempo e seu poder de matar e de propiciar o renascer.

No volume, textos da própria Luise, de Evandro Carlos Jardim, orientador do doutorado, Norval Baitello Junior, Leon Kossovitch e Renina Katz, esta integrante da banca examinadora. proporcionam momentos de reflexão, mas o principal da publicação está na reprodução dos trabalhos da artista paulista.

            A mencionada busca arqueológica familiar resulta em diversas obras de arte. Nas primeiras páginas do livro,  surgem os livros-objetos. Feitos com papelão e xerox colorido, constituem um lúdico e lúcido trabalho de dobraduras com reproduções fotográficas e ampliações  de cenas da Primeira Guerra em suas mais variadas facetas, seja dos campos de batalha semi-vazios ou de imagens de centenas de soldados marchando rumo à morte.

Em seguida, vem as pinturas. Algumas têm marcas vermelhas, que evocam tanto os caminhos do sangue pelas veias como a maneira como aqueles que subiam ao Pico do Arno, no Velho Continente, marcavam as suas trilhas. Realizados em tinta acrílica sobre duratex com colagem de fragmentos de retalhos de roupa constroem uma galeria de rostos. Não interessa mais se são familiares ou não, pois, como aponta Ovídio, surgem deformados pela arte do tempo e dos negros e brancos dominados pela paleta da artista paulista.

            Já nos trabalhos com copos, recheados de água e mel, nos quais surgem imersas fotografias, o meio líquido, por um lado, evoca o caminho dos imigrantes em sua jornada ao Brasil por navio e, por outro, proporciona, pelo fenômeno da refração da luz, o surgimento de uma faceta tridimensional ao suporte bidimensional da fotografia.

Rostos, corpos, mulheres em trajes de banhistas ou penteadas e vestidas com as roupas do início do século XX ganham uma visão quase mítica. O mesmo ocorre com indivíduos fardados que se despersonalizam e ganham vida, alertando para a fragmentação de cada ser perante o poder derrisório do tempo.

            As silhuetas, elaboradas pela projeção de luz a partir de recortes de papelão, aumentam o poder misterioso das imagens criadas por Luise. Elas retomam inclusive o mito de Platão, no qual o ser humano apenas vê silhuetas no fundo da parede de uma caverna apenas iluminada pela luz da consciência externa. Cabe então a cada um encontrar o caminho para dar às costas para as silhuetas e encontrar a luz, considerada pelo sábio grego como a expressão da verdade.

            A luz, no entanto, para a artista, não traz a reconstrução de uma história familiar, mas a de trajetórias humanas que, perante uma profusão de memórias, oferece novos caminhos e percursos vivenciais. Gradativamente, a memória e a criação se mesclam num ludismo infinito. Para cada silhueta, é possível criar uma história – e pouco importa se ela é verdadeira ou não, pois o próprio conceito de real é questionado e passa a ser relativizado.  Entre esses percursos existenciais, está a sobreposição, duas ou mais vezes, de imagens fotográficas. Reside aí, ao lado da pintura, um dos melhores momentos da produção reunida no livro. A justaposição, por exemplo, das imagens de natureza, como água, com rostos, revela todo o lirismo de que Luise é portadora.

            Mãos cruzadas sobre a água – ou vice-versa – casais com praias ao fundo e rostos sobre ondas quebrando na areia ou imagem de um militar sobre marolas fundem o que há de mais sutil na produção da artista: a capacidade de fazer o observador reconstruir o futuro no presente a partir do passado.

            Senhora do tempo, Luise Weiss, neste livro retoma o pensamento do imperador Marco Aurélio, que no século II, indicava: “O tempo é um rio formado pelos eventos, uma torrente impestuosa. Mal se avista uma coisa, já foi arrebatada e outra se lhe segue, que será carregada por sua vez”.

            A reflexão da artista sobre o tempo é um solilóquio de emoções universais. Conhecer cada retrato pintado, cada copo artisticamente mesclado nas fotografias ou nas sobreposições de negativos faz brotar um lirismo que vence qualquer interpretação e deixa a certeza que a sua obra, registrada neste livro é uma das manifestações mais importantes sobre a memória na arte brasileira contemporânea,

Conhecer esse resgate pessoal de uma memória coletiva, com  riqueza de técnicas que a artista domina, não é apenas um dever, mas um prazer. O nível de refinamento artístico que Luise Weiss atinge precisa ser mostrado e divulgado para inspirar as novas gerações, tão carentes de poetas plásticas que, como ela, mesclem boas idéias com apurado domínio técnico.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

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acrílica e colagem sobre duratex 100 cm x 100 cm 1998

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