por Oscar D'Ambrosio


 

 


Luís Castañón

 

            O papel de representar o mundo

 

            No célebre poema O lutador, de Carlos Drummond de Andrade, os comumente citados versos  iniciais “Lutar com palavras/é a luta mais vã./Entanto lutamos/mal rompe a manhã./São muitas, eu pouco.” são um alerta constante pouco lembrado pelos artistas plásticos.

            Muitas vezes dominados pelo discurso filosófico vazio ou pelo egocentrismo, eles caem em dois riscos igualmente perigosos: o de ter de um discurso intelectual até superior à obra ou o de julgar o próprio trabalho e domínio da técnica como a resposta para todos os desafios que os materiais, em sua infinita grandeza, impõem.

            O artista plástico Luís Castañón consegue contornar esses dois perigos pela construção de uma obra sólida em todos os sentidos. Há nele o predomínio de um pensamento geométrico, mas isso não significa uma dureza visual. O seu grande mérito está no amplo entendimento do processo de composição.

            Para ele, como se evidencia nos trabalhos expostos em Papiromaquia, é a ação de compor imagens sobre o suporte que propicia a grande luta do artista. Se o poeta luta com palavras, o criador de imagens combate com a linha, as formas e as cores. Vale-se de sua técnica para criar uma estética própria, diferenciada. É justamente nos momentos mais inspirados que se realiza na plenitude o jogo com diversos tipos de pincéis, tintas e cores sobre esse suporte.

            Encontram-se, nessas ocasiões, muito mais do que variações sobre o mesmo tema, mas realizações sobre um assunto. A questão é como a composição se desdobra, seja ela sobre aquarela, monotipia ou pastel. Castañón se vale de tamanhos e formatos variados para discutir, em última análise, a própria situação do papel, um suporte tão importante para a própria história das artes visuais muitas vezes renegado a um plano secundário numa mescla de preconceito e desconhecimento sob o argumento de que ele seria pouco durável – pensamento que só se justifica quando ele é de má qualidade ou é mal preservado.

            Castañón mostra uma habilidade especial para trabalhar com as nuances coloridas do próprio papel. Estabelece-se assim um universo em que a cor da tinta possibilita diversos resultados, em que a pesquisa surge como grande vedete é o processo.

            Isso não desmerece cada obra como se pode pensar ingenuamente. Pelo contrário, é justamente no ato de fazer da arte que reside o seu maior encantamento. Por isso, com o tempo, o artista verdadeiramente digno desse nome fica cada vez mais exigente com cada etapa de sua criação.

            Seja nas produções mais concretas, em que figuras são dificilmente reconhecíveis ou naqueles em que se pode encontrar referências no mundo que chamamos de real, a luta prazerosa com o papel, assim como a de Drummond com as palavras, indica para um mesmo caminho.

Castañón preserva a humildade do seu processo criativo, vendo-se como um ser diminuto perante a grandeza do mundo do papel, mas ciente de sua capacidade técnica e construtor de uma poética  marcada, principalmente, pela dedicação e o empenho a uma pesquisa constante em que o suporte escolhido para esta exposição, com seus múltiplos caminhos, espessuras e granulações, é essencial como base do trabalho plástico e como forma de pensar, ver e representar o mundo.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA-Seção Brasil).

 

 

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URbQaNOo de cabeça pontuda sobre fundo violeta 
pastel seco 2006

Luís Castañón 

 

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