Luís
Castañón
O papel de representar o
mundo
No célebre poema O
lutador, de Carlos Drummond de Andrade, os comumente citados versos
iniciais “Lutar com palavras/é a luta mais vã./Entanto
lutamos/mal rompe a manhã./São muitas, eu pouco.” são um alerta
constante pouco lembrado pelos artistas plásticos.
Muitas vezes dominados pelo
discurso filosófico vazio ou pelo egocentrismo, eles caem em dois
riscos igualmente perigosos: o de ter de um discurso intelectual até
superior à obra ou o de julgar o próprio trabalho e domínio da técnica
como a resposta para todos os desafios que os materiais, em sua infinita
grandeza, impõem.
O artista plástico Luís
Castañón consegue contornar esses dois perigos pela construção de
uma obra sólida em todos os sentidos. Há nele o predomínio de um
pensamento geométrico, mas isso não significa uma dureza visual. O seu
grande mérito está no amplo entendimento do processo de composição.
Para ele, como se evidencia
nos trabalhos expostos em Papiromaquia,
é a ação de compor imagens sobre o suporte que propicia a grande luta
do artista. Se o poeta luta com palavras, o criador de imagens combate
com a linha, as formas e as cores. Vale-se de sua técnica para criar
uma estética própria, diferenciada. É justamente nos momentos mais
inspirados que se realiza na plenitude o jogo com diversos tipos de pincéis,
tintas e cores sobre esse suporte.
Encontram-se, nessas ocasiões,
muito mais do que variações sobre o mesmo tema, mas realizações
sobre um assunto. A questão é como a composição se desdobra, seja
ela sobre aquarela, monotipia ou pastel. Castañón se vale de tamanhos
e formatos variados para discutir, em última análise, a própria situação
do papel, um suporte tão importante para a própria história das artes
visuais muitas vezes renegado a um plano secundário numa mescla de
preconceito e desconhecimento sob o argumento de que ele seria pouco durável
– pensamento que só se justifica quando ele é de má qualidade ou é
mal preservado.
Castañón mostra uma
habilidade especial para trabalhar com as nuances coloridas do próprio
papel. Estabelece-se assim um universo em que a cor da tinta possibilita
diversos resultados, em que a pesquisa surge como grande vedete é o
processo.
Isso não desmerece cada
obra como se pode pensar ingenuamente. Pelo contrário, é justamente no
ato de fazer da arte que reside o seu maior encantamento. Por isso, com
o tempo, o artista verdadeiramente digno desse nome fica cada vez mais
exigente com cada etapa de sua criação.
Seja nas produções mais
concretas, em que figuras são dificilmente reconhecíveis ou naqueles
em que se pode encontrar referências no mundo que chamamos de real, a
luta prazerosa com o papel, assim como a de Drummond com as palavras,
indica para um mesmo caminho.
Castañón
preserva a humildade do seu processo criativo, vendo-se como um ser
diminuto perante a grandeza do mundo do papel, mas ciente de sua
capacidade técnica e construtor de uma poética
marcada, principalmente, pela dedicação e o empenho a uma
pesquisa constante em que o suporte escolhido para esta exposição, com
seus múltiplos caminhos, espessuras e granulações, é essencial como
base do trabalho plástico e como forma de pensar, ver e representar o
mundo.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de
Artes (AICA-Seção Brasil).