por Oscar D'Ambrosio


 

 


Luci Torres

 

            A aquarela como nuvem

 

            O poeta Mario Quintana, em Sapato florido, conta que ao ser perguntado por uma senhora sobre o significado de um certo poema, respondeu: “E o que quer dizer uma nuvem?”. Ela disse que dependendo de seu aspecto e contexto, podia significar chuva ou anunciar bom tempo.          O mesmo vale para as aquarelas de Luci Torres. Embora suas principais temáticas sejam, por um lado, a exclusão social e, por outro, uma visão lírica e, ao mesmo tempo, crítica e bem-humorada das relações entre as pessoas na sociedade contemporânea, há nelas uma encantadora delicadeza expressa com segurança plástica.

            As manchas de cor são colocadas a serviço da criação de formas humanas. Casais, famílias e crianças surgem geralmente olhando para o observador dos trabalhos. Parecem solicitar cumplicidade de suas vidas, agonias e – por que não? – momentos felizes. Acima de tudo, as relações humanas são o grande tema de uma artista que não permanece indiferente ao mundo que a rodeia.

            Os tons de azul, rosa e cinza ganham, desse modo, novas possibilidades. Além do cromatismo, as aquarelas perfazem um retrato de uma sociedade que muitas vezes tem medo de olhar para si mesma. Luci coloca os seres que muitos desejam ignorar em primeiro plano. É no seu olhar interrogante que residem seus grandes segredos.

            Esses olhares são nuvens indagadoras a nos perscrutar. Ali está o lirismo e a poética de uma obra delicada, em formatos reduzidos, mas eloqüente em sua forma de dialogar com a sociedade. Reside nesses trabalhos sobre papel o poder de exigir uma resposta para aquilo que não se entende, mas que se faz onipresente, principalmente nas grandes capitais.

            A solidão inerente ao ser humano é agravada pela exclusão, em suas mais variadas manifestações, como a social, que engloba outras, como a cultural. Mas a produção de Luci não se perde num discurso engajado de fácil decodificação, que poderia trazer apenas uma mensagem de denúncia social ou política.

Os olhares expressivos, estruturas dos rostos e formas construídos pela aquarela de Luci Torres questionam o status quo, mas, tal qual as nuvens para a senhora que conversava com Quintana, anunciam, paradoxalmente, com a intensidade de uma bela nuvem branca, a tempestade social perante a qual os excluídos indagam, com seus olhos expressivos: “Por quê? Até quando?”.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 
 

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   Social II 
Técnica mista 2004

Luci Torres

 

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