Luci
Torres
A aquarela como nuvem
O poeta Mario Quintana, em Sapato
florido, conta que ao ser perguntado por uma senhora sobre o
significado de um certo poema, respondeu: “E o que quer dizer uma
nuvem?”. Ela disse que dependendo de seu aspecto e contexto, podia
significar chuva ou anunciar bom tempo.
O mesmo vale para as aquarelas de Luci
Torres. Embora suas principais temáticas sejam, por um lado, a exclusão
social e, por outro, uma visão lírica e, ao mesmo tempo, crítica e
bem-humorada das relações entre as pessoas na sociedade contemporânea,
há nelas uma encantadora delicadeza expressa com segurança plástica.
As manchas
de cor são colocadas a serviço da criação de formas humanas. Casais,
famílias e crianças surgem geralmente olhando para o observador dos
trabalhos. Parecem solicitar cumplicidade de suas vidas, agonias e –
por que não? – momentos felizes. Acima de tudo, as relações humanas
são o grande tema de uma artista que não permanece indiferente ao
mundo que a rodeia.
Os tons de
azul, rosa e cinza ganham, desse modo, novas possibilidades. Além do
cromatismo, as aquarelas perfazem um retrato de uma sociedade que muitas
vezes tem medo de olhar para si mesma. Luci
coloca os seres que muitos desejam ignorar em primeiro plano. É no seu
olhar interrogante que residem seus grandes segredos.
Esses
olhares são nuvens indagadoras a nos perscrutar. Ali está o lirismo e
a poética de uma obra delicada, em formatos reduzidos, mas eloqüente
em sua forma de dialogar com a sociedade. Reside nesses trabalhos sobre
papel o poder de exigir uma resposta para aquilo que não se entende,
mas que se faz onipresente, principalmente nas grandes capitais.
A solidão
inerente ao ser humano é agravada pela exclusão, em suas mais variadas
manifestações, como a social, que engloba outras, como a cultural. Mas
a produção de Luci não se perde num
discurso engajado de fácil decodificação, que poderia trazer apenas
uma mensagem de denúncia social ou política.
Os
olhares expressivos, estruturas dos rostos e formas construídos pela
aquarela de Luci Torres questionam o status
quo, mas, tal qual as nuvens para a
senhora que conversava com Quintana,
anunciam, paradoxalmente, com a intensidade de uma bela nuvem branca, a
tempestade social perante a qual os excluídos indagam, com seus olhos
expressivos: “Por quê? Até quando?”.
Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos
de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor,
entre outros, Contando a arte de Peticov
(Noovha América) e Os
pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo).