Lúcio
Bittencourt
A
sucata em forma de arte
A
frase “Criar é matar a morte”, do escritor francês Romain
Rolland (1866-1944), parece ter sido feita à medida para Lúcio
Bittencourt. O artista, nascido em 8 de dezembro de 1953, em
Mogi das Cruzes, onde mora e tem seu atelier, trabalha
justamente com o reaproveitamento de sucata, dando, portanto,
nova vida a objetos aparentemente sem uso.
As
primeiras manifestações artísticas de Bittencourt, ocorridas
na infância, com raízes e madeira, já apontavam para uma visão
muito pessoal do aproveitamento de materiais muitas vezes
deixados de lado por muitos artistas plásticos. Seu forte, porém,
é o trabalho com aço, material que, ao se encontrar com a sua
solda, propicia resultados estéticos de grande impacto e
beleza.
Formado
em Artes Plásticas e Educação Artística pela Universidade de
Mogi das Cruzes, SP, Bittencourt, desde 1979, já participou de
mais de 700 exposições individuais e coletivas no Brasil e no
exterior. Nelas, mostra diversas obras, que oscilam entre 3 cm e
8 metros de altura.
As
suas temáticas incluem, desde peixes e navios a grandiosos Dom
Quixotes, plenos de dramaticidade. Enquanto os dois primeiros
convidam o observador a se aproximar da obra para verificar como
ela foi feita a partir de elementos diversos, como chapas,
porcas e parafusos, entre muitos outros, as imagens do cavaleiro
espanhol da triste figura pedem uma visão à distância.
Quando
estamos perante esses Dom Quixotes, o sofrimento do homem que
julgava estar na Idade Média e lutava contra moinhos de vento
para defender a amada Dulcinéia ganha uma dimensão épica
compatível com a obra literária. O trabalho de Bittencourt tem
esse poder de levar à reflexão filosófica a partir de imagens
com amplo apelo emocional.
Isso
não deixa de ser curioso, pois o trabalho com sucata e com aço
poderia, num primeiro momento, ser considerado frio e impessoal.
Não é o que ocorre com as soldagens do artista de Mogi. A
forma como justapõe diversos elementos dão a cada escultura
uma estrutura às vezes narrativa.
Seus
barcos, que parecem saídos de um filme de ficção, com suas
histórias de viagens e piratas ou com os mencionados peixes,
que oscilam entre o real e o imaginário, na combinação das
mais diferentes peças recompostas pelo autor em formas às
vezes surpreendentes, como ocorre em algumas aves e personagens
fantásticos e totens menos figurativos.
As
esculturas de Bittencourt, encontradas em coleções
particulares, estão também em museus, parques, praças públicas,
empresas, hotéis e restaurantes no Brasil, em Portugal e na
França. Destaca-se, por exemplo, a escultura sobre o
tricampeonato de Ayrton Senna no Kartódromo que leva o nome do
piloto em São Paulo e a imagem de São Francisco de Assis, com
7,9 metros de altura, em Assis, SP. Localizada numa pequena
colina da cidade do Interior paulista, a obra se integra, com
uma majestosa espiritualidade e verticalidade, ao meio.
Seja
com seus quiméricos Quixotes, seus barcos que parecem sempre
prontos a enfrentar aventuras ou seus peixes próximos ao
surrealismo, Lúcio Bittencourt dá vida a objetos aparentemente
mortos. A sucata ressuscita, na solda criativa do artista, em
novas formas, provando como o talento, a imaginação e o
ludismo podem dar novas roupagens a velhos objetos, gerando um
resultado estético vigoroso.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional
de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de
Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).