por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

.

Lúcia Rodrigues

 

            O andarilho do mundo

 

            A diversidade de assuntos e de técnicas pode ser um empecilho ou uma dádiva para os artistas plásticos. Saber retirar da composição de diversos elementos a energia para o desenvolvimento de um assunto ou de uma idéia exige um processo de maturidade que passa pelo saber fazer e pelo decidir pensar seriamente sobre o próprio trabalho.

            O projeto Andarilho do mundo, de Lúcia Rodrigues, não incorre nesses riscos. Ou melhor, parte deles, para, de forma plasticamente saudável, buscar soluções para atingir uma obra de arte que esteja plena de expressividade e, ao mesmo tempo, se aproxime do conceito de contemporâneo, entendido como uma forma de sentir o próprio estar no mundo.

            Tudo gira com o desenho de um jovem, muitas vezes em posição fetal, colocado em diversos cenários, muitos deles que lembram cenas de guerra européias, como a recente destruição de Sarajevo, nos Bálcãs, no final do século passado, ou ainda as centenas de conflitos civis que se espalham pelo mundo, deixando como saldo a destruição de pessoas, famílias, cidades e mesmo países.

            O andarilho que Lúcia propõe observa tudo isso. Mas ele não está ligado apenas à miséria. Seu destino parece ser o de rodar continuamente. Pelos mais diversos lugares. Trata-se de um viajante que carrega suas memórias e mais restos de tudo o que vai coletando, compondo um grande caleidoscópio emocional.

            Essa situação precisa encontrar seu correspondente plástico. Para isso, além da habilidade com o desenho, que Lúcia desenvolveu na faculdade e em cursos paralelos, torna-se necessário definir qual é a melhor maneira de dar visualidade plástica a esse ser que anda pelo mundo e, ao mesmo tempo, caminha dentro de si mesmo.

            Uma alternativa é usar a lona como suporte. Ela está presente como proteção às cargas dos caminhoneiros e guarda nela cicatrizes do tempo, das intempéries e das experiências pelas quais passou. O seu envelhecimento funciona como documento de uma jornada e, principalmente, como documento de uma época.           

            A artista catarinense, nascida em 12 de maio de 1973, residente em Joinville, já trabalhou com a lona num objeto, um livro feito desse material em que interferia sobre o material de modo a ressaltar e discutir justamente o efeito dos segundos, minutos, horas, dias, semanas e anos sobre  a matéria.

            A grande metáfora nesse processo está em unir o trabalho plástico do desenho, com técnicas como giz pastel, que remete às técnicas mais tradicionais, a um material que oferece, além de um grande potencial plástico, o poder, em si mesmo, de remeter ao próprio ato de percorrer estradas.

            O andarilho do mundo pode caminhar por onde deseja porque está além das limitações da ordem material. É a sua presença física, simbólica ou espiritual que o leva a estar nos mais diversos lugares. Transmitir as suas sensações em múltiplas situações constitui o desafio a que Lúcia Rodrigues se propõe – e do qual tem tudo para sair vitoriosa –, dando vida a seu andarilho, para que ele saia da lona e conquiste o mundo. 

                

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 

 Série O andarilho do mundo
técnica mista sobre lona dimensões variáveis 2007

Lúcia Rodrigues

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio