Estética além de rótulos
A expressão “Pós-expressionismo
de transvanguarda” pode parecer
assustadora em um primeiro momento, mas foi o título da exposição
de Luciane D’Alessandro no espaço Cultural Blue
Life, de 29 de novembro a 3 de dezembro de
2005. Por trás desse nome pleno de pompa, existe um trabalho vigoroso
que merecia maior repercussão.
Claramente
ligada às múltiplas vertentes do expressionismo, Luciane D'Alessandro,
oriunda de São José do Rio Preto, SP, arquiteta de formação, com
trabalhos plásticos expostos no exterior, São Paulo, Rio e Brasília
e pós-graduada em artes pela Universidade Politécnica da Catalunha,
em Barcelona, Espanha, oferece um trabalho sólido, em que as cores
quentes e uma forma muito peculiar de ver o mundo
predominam.
Entre as 40 telas expostas, os trabalhos que indicam uma
vertente não inovadora, mas, ao que parece, vivenciada com
intensidade pela artista, não são aqueles em que elementos fálicos
surgem em intensidade explosiva ou decepados em
jatos de sangue e esperma ejaculado.
Nessa jornada que se apresenta posterior ao expressionismo e além
das vanguardas – com todos os senões que esses conceitos carregam
–, uma das telas mais significativas, intitulada Vazio,
pode aparecer em meio aos outros trabalhos mas talvez indique um
caminho a ser percorrido.
Nessa obra, o rosto está sem pintar, contrastando com as
tonalidades quentes do resto da tela. O desenho esboçado desnuda não
tanto o processo criativo da artista, mas, talvez, aquilo que a move,
ou seja, o sentimento constante de preencher os vazios de um mundo em
que as pessoas parecem caminhar cada vez mais sozinhas e sem rumo,
como já expressavam as telas do norueguês Munch.
Esse sentimento de vazio se faz presente, em termos plásticos,
nas obras em que Luciane coloca absorventes femininos em suas
pinturas. O recurso não é inédito, mas revela-se expressivo quando
posto na boca de um personagem (em Apito
do silêncio), à direita da tela (Vermelho
cobalto) ou construindo as pétalas de uma flor gigante (Flor).
Ao centro dessa flor, surge um rosto em amarelo e verde com uma
feição enigmática. Muito mais do que o desenho, o que torna
peculiar este trabalho é o contraponto da flor, em sua aparência ingênua
de longe, e a feminilidade expressa nos absorventes. Mas não há
motivo para se chocar: flor é uma palavra feminina e não há razão
para suas pétalas não serem absorventes, embora empapados em sangue/tinta.
Outros trabalhos importantes são Carência,
que cristaliza a cena de um abraço, Privação,
em que o sexo aparece tapado (cerceado) por uma cruz e Agonia
escondida, em que a
alegria externa do rosto sorridente contrasta com a dor interior de
pessoas com as vidas dilaceradas.
A obra de Luciane foge ao psicologismo que pode encantar a
muitos num primeiro momento pela forma plástica como as suas denúncias
e inquietações se materializam. Há ali uma artista plástica
visceralmente engajada em seu trabalho, que não aceita concessões.
A cristalização futura da artista enquanto criadora pronta a
sustentar a sua espontaneidade depende muito da maneira como vai
articular a sua criatividade. Ela, que já utilizou sensuais antúrios,
na decoração do Festival Internacional de Teatro São José do Rio
Preto de 2005, pode, em cada nova exposição, se
valer de sua arte vigorosa para trazer à tona questões essenciais da
sociedade moderna, principalmente o conformismo, que amordaça as
pessoas à mesmice.
A
arte de Luciane D’Alessandro supera discussões sobre rótulo, pois
atinge a essência de uma expressão autêntica, ou seja, a manifestação
da liberdade do ser humano em sua plenitude pelo poder de criar e
desafiar barreiras, limites e fronteiras. Nesse sentido, ela questiona
e indaga o mundo ao seu redor com determinação e talento. Pode ainda
não ser a garantia de uma carreira de repercussão em grandes
galerias, mas indica um caminho que poucos têm a coragem de trilhar.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi
(Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo).