Susana Llorente
As cores alegres
Um dos principais
desafios dos artistas plásticos que lidam com telas e tintas é o
domínio das cores. Seu uso limitado ou exagerado pode prejudicar
o resultado final de um trabalho. No caso da pintora argentina
Susana Llorente, ela encontrou uma forma pessoal de oferecer uma
palheta colorida em profusão, mas sutil e ingênua pelo uso de
figuras diminutas que compõem cenas em ambientes típicos de
diversos países.
Nascida em Buenos
Aires, em 8 de agosto de 1937, a artista tem uma vida de cigana
contemporânea, com uma rica experiência internacional. Morou em
Portugal, de 1978 a 1982, quando se mudou para Honduras. De 1984 a
1988, morou em Adbijan, Costa do Marfim, retornando depois a sua
cidade natal. Passou depois novo período no exterior, residindo,
de 1989 a 1993, em Bogotá, quando voltou para a capital
argentina. "Meu país e os outros me inspiraram igualmente a
pintar", conta a artista.
Llorente começou a
pintar em Portugal, em 1981. "Pintava em casa e me ofereceram
a oportunidade de expor no Salão Naïf do Cassino de Estoril. Foi
nesse momento que percebi que aquele era o estilo ou técnica que
utilizava", conta. "O sucesso na exposição foi o
impulso que necessitava para continuar pintando."
A carreira de Llorente foi então se
desenvolvendo dentro do princípio naïf de pintar aquilo que se
conhece e que brota do coração, mas sempre com a preocupação técnica
de melhoria contínua e de aprimoramento do trabalho com cores e
formas. "A arte naïf nos impulsiona a viver em harmonia com
nossos sentimentos mais puros", diz. "Observar as
paisagens mais belas e pinta-las é um presente para o
mundo", afirma.
A própria artista vê
seu trabalho marcado pelo prazer de viver. "Minha pintura é
colorida, alegre. Procuro transmitir paz, resgatando todas as
coisas lindas que meus olhos vêm", diz. Nesse contexto, ela
sempre põe alguma imagem religiosa em seus quadros.
"Considero que Deus me deu a Graça de pintar e já realizei via
crucis para duas igrejas. Por isso, sempre tem algum signo
religioso em meu quadros.".
Além disso, a pintura
foi – e ainda é – uma forma de Llorente viver melhor nas
diferentes sociedades de que participou. "A arte me ajudou a
me integrar nos países em que vivi. Ao pintar sua gente, igrejas,
natureza e hábitos, os habitantes do país me amavam e não me
consideravam estrangeira, entregando-me a sua amizade e me fazendo
muito feliz", comenta.
Em toda sua trajetória,
Llorente não abre mão do olhar puro sobre a realidade, algo que
a mantém na linha naïf. "No início, meus filhos eram os
melhores críticos de minhas pinturas. Agora são os netos, que,
com a inocência própria da infância, fazem comentários que me
ajudam", avalia. "
Sobre seu processo de criação, a
artista comenta que alguma vezes tira fotos que em seguida utiliza
para compor seus quadros. Isso a levou a viver diversas situações
inusitadas. "Certa vez tirei uma foto num povoado de Colômbia.
Quando dois homens me viram, queriam quebrar minha máquina. Foi
uma vendedora de verduras que me ajudou a me esconder",
lembra. "Quando revelei a foto vi que um deles estava
passando dinheiro para o outro. É claro que, depois, pintei a
cena."
No mesmo mercado, a artista fotografou
duas mulheres bebendo cerveja da mesma garrafa. "Ao me ver,
envergonhadas, logo cobriram o rosto, mas também as pintei",
diz. Na África, a fuga da máquina era mais forte e motivada por
uma tradição cultural. "Dizem que a fotografia tira a alma
da pessoa retratada. É necessário dar umas moedas para que as
pessoas deixem de lado esse medo".
Em Honduras, Llorente
teve a confirmação de seu sentido estético de composição.
"Quando pintei a praça de Tegucigalpa, senti que a estátua
do herói nacional tinha que ser retratada em outro lugar para não
prejudicar a composição. Alterei, portanto, a sua posição com
uma finalidade estética", explica. "Para minha
surpresa, os hondurenhos me disseram que a estátua já havia
estado naquele lugar que eu a tinha colocado."
Em meio a essas
aventuras, a carreira de Susana Llorente foi se consolidando. As
exposições coletivas nos países pelos quais viajou se sucedem
desde 1978, além de individuais em Honduras, Costa do Marfim e
Argentina. Entre outros prêmios, recebeu a Menção Honrosa no
XIX Salão nacional e III Salão Internacional de Pintura Naïf,
em Estoril, Portugal, em 1993.
Outra láurea importante foi a menção
Honrosa na III Bienal Naïf Internacional da Fundação Rômulo
Raggio, em Vicente López, Argentina, pela tela Primavera em
Alfama. O mais antigo, fascinante e característico bairro de
Lisboa é apresentado cm riqueza de detalhes arquitetônicos e
humanos.
A origens do local, muito ligadas à
cultura muçulmana, remontam ao século XII. Localizado numa
colina, coroado pelo tradicional castelo de São Jorge, o bairro
resistiu ao destruidor terremoto de 1755 e, á noite, as ruas
estreitas, bares e pequenos restaurantes são preenchidos pelo som
do fado, com suas peculiares letras de sofrimento, solidão e
amores não realizados.
Llorente mostra o tradicional bairro
português em seu rico colorido e com suas tradicionais escadarias
e floristas. Personagens se espalham por toda a tela nas mais
diferentes atividades, vendendo produtos, fazendo compras,
dirigindo-se a suas residências ou conversando.
As casas brancas, amarelas e
cor-de-rosa dão à cena um ar alegre, já que a claridade
predomina. O mesmo ocorre nas roupas, com a presença marcante de
cores quentes como o amarelo e o vermelho, que transmitem calor e
movimento ao ambiente. Vestimentas penduradas nas janelas dão um
toque anda mais exótico ao ambiente, representado visualmente com
tamanha convicção pela pintora, que ganha sons e aromas.
Há, como costuma ocorrer nas telas da
artista, uma imagem religiosa na porta que se abre no canto
inferior direito da tela. Todo esse dinamismo dá à tela intensa
vivacidade, num estilo bem definido, também presente em O ruídos
dos lavadeiros, cena que se passa na Costa do Marfim em que
dezenas de homens e mulheres aparecem lavando roupa.
A vivacidade e a intensidade das cenas
são tão bem realizadas, que é quase possível perceber o som
dos cânticos e da roupa em contato com a água. O colorido da
tela impressiona não só pelas roupas com ricos grafismos dos
trabalhadores, que permanecem com água até os joelhos, mas também
pelo fundo.
Uma densa vegetação,
predominantemente verde, com alguns tênues tons de amarelo, ajuda
a criar contrates entre a policromia das roupas dos lavadores, as
trouxas que algumas mulheres carregam sobre a cabeça e as vestes
penduradas em varais, com geométricas figuras coloridas, típicas
das roupas na região.
O mercado, também ambientado
na Costa do Marfim, segue a mesma linha pictórica. Mais de uma
dezena de pessoas, com suas roupas estampadas, são dispostas
entre belas flores, tapetes, peixes, comidas, frutas e outras
mercadorias postas à venda. A parede amarela atrás dos
comerciantes ressalta o contraste entre as cores; e as árvores ao
fundo contribuem para dar certa verticalidade ao quadro, dominado
pela horizontalidade, além de instalar uma atmosfera tropical.
As várias tonalidades de verde e
amarelo são uma constante também em Cenas africanas,
escolhido como cartão natalino pela Unicef. Também ambientada na
Costa do Marfim, a tela apresenta um diferencial: os trabalhos artísticos
pendurados nas paredes das choupanas da aldeia.
Ao mesmo tempo em que a cultura
popular local é retratada, é possível ver macacos sobre uma árvore,
uma onça em outra, uma mulher cozinhando, trabalhadores no campo
e feiticeiros locais com suas roupas e máscaras típicas. O olho
do espectador se delicia com essa riqueza imagética e colorística.
Em uma tela como Cartagena,
cidade colombiana, o estilo naïf é mais acentuado, pela
desproporção entre um mulher que passa pela rua com um cesto na
cabeça e as portas das casas. Um relógio e a cúpula de uma
igreja ao fundo, apenas entrevistas, oferecem uma breve atmosfera
religiosa, enquanto, na frente do quadro, um monumento e uma carroça
dominam a cena, na qual se destaca o colorido das flores e vegetações
nas sacadas, além de dois pombinhos no teto de uma casa, que,
ajudam a evitar a monotonia visual das simétricas telhas.
O quadro Tunja, também cidade
colombiana, oferece um retrato cotidiano repleto de detalhes. Vê-se
desde um casal de noivos em frente a uma igreja ao anúncio de uma
tourada, além de pombos desproporcionais e duas crianças que
encaram o observador: um menino com roupa do Super-homem e uma
menina com uma boneca. Há ainda pessoas com roupas típicas,
lojas de artesanato local, vendedores ambulantes e colinas ao
fundo com um belo céu azul.
O resultado é uma composição cheia
de vida, como ocorre nas telas em que Llorente mostra seu país
natal e onde atualmente reside. A tela Feira de gado é
exemplar no jogo de cores e riqueza de situações, pois vemos
diversos tipos de gado – malhado, negro e marrom – em currais,
rodeados de árvores com folhas de múltiplas cores.
As mesas sem perspectiva e uma casa
pequena em relação ao conjunto caracterizam a tela como naïf,
além da visão múltipla de numerosas atividades típicas das
feiras pecuárias argentinas, como o churrasco e o leilão dos
animais, assim como a admiração das crianças pelo gado.
Tamanha diversidade de temas e estilo
bem definido, caracterizado pelo colorido e pela diversidade
levaram as telas de Susana Llorente a percorrer o mundo. Hoje, é
possível encontrar seis quadros em museus de arte naïf de
L’lle (França), Rio de Janeiro (Brasil), Jaen (España) e
Guimarães (Portugal), além de do Museu de Belas Artes de
Sheerbroke, Canadá.
O motivo principal do êxito da
artista está na maneira como trabalha as cores e os temas. As
imagens que cria são retratos dos países que conheceu. A palheta
é utilizada a serviço da imagem, na criação de autênticos
perfis étnicos e culturais. As cores vibrantes e a multiplicidade
de imagens, usadas com sabedoria, transmitem paz e harmonia.
Susana Llorente realiza arte de
qualidade por integrar as pinceladas formalmente naïfs com uma
temática cultural sem nunca perder a autenticidade de seu traço
e a visão múltipla de ações que se desenrolam simultaneamente.
Com um estilo bem definido, convida o observador a conhecer seu
universo autônomo, harmônico, poético e repleto de cores
alegres.