Luciano Junqueira
A força da cor
A busca de novas formas de expressão
é um dos principais desafios do artista digno desse nome. Aquele
que se acomoda perante uma fórmula que dá certo, com o tempo,
encontrará cada vez mais dificuldades de convencer aos
observadores e à crítica especializada, enquanto os de espírito
inquieto certamente resistirão ao tempo.
Luciano Junqueira, nascido em
Barretos, SP, em 21 de maio de 1975, é um daqueles artistas que
não tem medo de experimentar. Ele já mostrava habilidade para o
desenho aos 10 anos e, em 1986, começou a pintar com tinta a
óleo sob a orientação do artista local Hildebrando de Souza
Filho.
Fortemente influenciado pela cultura
da região, pintava inicialmente temas eqüestres e, no ano
seguinte, já apresentava grande produção com mais de 40
quadros, mas, devido a problemas de saúde, teve que se afastar da
pintura temporariamente, retornando em 1989 e, quatro anos depois,
passa a participar de várias coletivas na região de sua cidade
natal.
A partir de 1997, Junqueira começa a
realizar novas experiências e a desenvolver técnicas que o
levaram aos atuais trabalhos, com sabonete utilizado diretamente
sobre a tela. Nessas obras mais recentes, evidencia-se a sua
facilidade de lidar com as cores, principalmente com as
tonalidades mais quentes, como o vermelho, o amarelo e o laranja.
Ao trabalhar com formas distorcidas,
como ocorre em telas como Solidão e Desprezo, percebe-se o traço
expressionista do artista, que aponta para a miséria existencial
humana com extrema segurança, principalmente no primeiro desses
quadros, em que surge, do lado direito da tela, um cavalete com
uma tela em branco.
Em outras obras, como O frevo, O
sonhador e Vênus, as cores contrastantes e o intenso colorido
remetem diretamente à linguagem das histórias em quadrinhos,
principalmente as japonesas, no que elas têm de melhor: o poder
de expressar estados de espírito e emoções com economia de
recursos.
Um dos dados mais impressionantes da
arte de Luciano Junqueira está na capacidade de revisitar seus
próprios temas. É o que faz, por exemplo, em telas intituladas
Cabeça de cavalo, nas quais retoma as figuras acadêmicas
realizadas no começo da carreira e lhes dá um novo enfoque, com
deformação de imagens e riqueza de cores.
Mesmo em suas experiências mais
radicais, em que trabalha com sabonete e esmalte sobre tela, as
cores são o grande diferencial das telas de Junqueira. Elas
chamam a atenção pela intensidade e pelo poder de construir, no
imaginário do espectador, um universo de imagens associadas
àquela que ele vê, gerando assim uma espécie de história em
quadrinhos mental.
É justamente na capacidade de
realizar uma arte madura com extremo vigor que a arte de Luciano
Junqueira apresenta a sua força. O jogo de cores e de imagens
não deixa o receptor de seus quadros indiferente. Em cada um
deles, há a inegável capacidade de gerar questionamentos e um
amplo poder de renovação, que impede o artista de permanecer
estático numa técnica ou forma e o mantém sempre em busca da
superação de novos limites.
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é
autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp).