por Oscar D'Ambrosio


 

 


Litho

 

            Destinos nordestinos

 

            O grande segredo e mistério da arte popular está no fato de ela propiciar momentos únicos de autenticidade. Não se trata de buscar temas ou imagens inusitadas, mas sim trabalhos plásticos diferenciados por algum detalhe ou por alguma idéia original que, por menor que seja, faz toda a diferença.

            O projeto Nordestinos, do artista plástico Litho, retoma, com força e técnica inovadora, um dos pilares da arte popular brasileira, o Mestre Vitalino, com seus numerosos seguidores, voltados para retratar cenas, personagens e instantes de uma região brasileira com uma riqueza plástica ainda a ser intensamente vivenciada e descoberta não como exotismo turístico, mas como fenômeno cultural.

            Com suas pinturas a óleo, Litho, que apresenta um sólido trabalho como retratista, retoma o trabalho do Mestre Vitalino (1909-1963) e de seus discípulos e o coloca sob uma nova perspectiva: a da pintura. Enquanto o mestre pernambucano executava figuras e brinquedos de barro, vendidos em Caruaru – que se tornou o maior centro de artesanato em cerâmica do Nordeste –, o pintor traz as produções tridimensionais para a superfície bidimensional.

            O exercício, em um primeiro momento, pode parecer de mera reprodução de peças já existentes, mas esse é apenas o ponto de partida. As possibilidades de pintar as figuras de Vitalino e de seus amigos e discípulos, além de futuras combinações desses elementos, propicia a criação de um conjunto imagético que não se esgota na capacidade de reprodução técnica, mas envereda pela habilidade na criação de atmosferas.

            O uso das cores é fundamental. Os personagens apresentam as vestimentas geralmente caracterizadas pelas tonalidades mais quentes. Rostos, braços e pernas buscam reproduzir a tonalidade do barro e os grupos humanos ou figuras estão colocados sobre pequenos pedestais, dentro da estética da arte nordestina.

            As cenas mostram retirantes, danças populares e folclóricas, cenas de namoro, casamento ou festas, com instrumentos e roupas típicas, num respeito pela arte dos ceramistas e pelas suas múltiplas variações, principalmente na forma de mostrar as feições humanas.

            Um grande dilema para trabalhar os temas que Vitalino apreciava está nos fundos. As esculturas dele e de seus discípulos têm, muitas vezes, na cor um elemento fundamental. Na pintura, utilizar um fundo integralmente quente colocaria em risco o resultado. A solução encontrada foi o uso de áreas brancas para neutralizar o poder das cores.

            Os destinos das figuras nordestinas pintadas por Litho levam em conta diversos elementos. Há nelas a origem da arte popular, o manejo da técnica da pintura que viabiliza a reprodução, a capacidade infinita de composições a partir do universo plástico do Mestre Vitalino e de seus discípulos e, acima de tudo, o potencial lúdico de obras criadas como retratos poéticos visuais de um país com uma ampla riqueza cultural em suas mais diversas manifestações, das populares às eruditas.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 
 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 
Projeto Nordestinos
óleo sobre tela - 2006

Litho

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio