Litho
Destinos nordestinos
O grande segredo e mistério da arte popular está no fato de ela
propiciar momentos únicos de autenticidade. Não se trata de buscar
temas ou imagens inusitadas, mas sim trabalhos plásticos diferenciados
por algum detalhe ou por alguma idéia original que, por menor que seja,
faz toda a diferença.
O projeto Nordestinos,
do artista plástico Litho, retoma, com força
e técnica inovadora, um dos pilares da arte popular brasileira, o
Mestre Vitalino, com seus numerosos
seguidores, voltados para retratar cenas, personagens e instantes de uma
região brasileira com uma riqueza plástica ainda a ser intensamente
vivenciada e descoberta não como exotismo turístico, mas como fenômeno
cultural.
Com suas
pinturas a óleo, Litho, que apresenta um sólido
trabalho como retratista, retoma o trabalho do Mestre Vitalino
(1909-1963) e de seus discípulos e o coloca sob uma nova perspectiva: a
da pintura. Enquanto o mestre pernambucano executava figuras e
brinquedos de barro, vendidos em Caruaru – que se tornou o maior
centro de artesanato em cerâmica do Nordeste –, o pintor traz as
produções tridimensionais para a superfície bidimensional.
O exercício,
em um primeiro momento, pode parecer de mera reprodução de peças já
existentes, mas esse é apenas o ponto de partida. As possibilidades de
pintar as figuras de Vitalino e de seus
amigos e discípulos, além de futuras combinações desses elementos,
propicia a criação de um conjunto imagético que não se esgota na
capacidade de reprodução técnica, mas envereda pela habilidade na
criação de atmosferas.
O uso das
cores é fundamental. Os personagens apresentam as vestimentas
geralmente caracterizadas pelas tonalidades mais quentes. Rostos, braços
e pernas buscam reproduzir a tonalidade do barro e os grupos humanos ou
figuras estão colocados sobre pequenos pedestais, dentro da estética
da arte nordestina.
As cenas
mostram retirantes, danças populares e folclóricas, cenas de namoro,
casamento ou festas, com instrumentos e roupas típicas, num respeito
pela arte dos ceramistas e pelas suas múltiplas variações,
principalmente na forma de mostrar as feições humanas.
Um grande
dilema para trabalhar os temas que Vitalino
apreciava está nos fundos. As esculturas dele e de seus discípulos têm,
muitas vezes, na cor um elemento fundamental. Na pintura, utilizar um
fundo integralmente quente colocaria em risco o resultado. A solução
encontrada foi o uso de áreas brancas para neutralizar o poder das
cores.
Os destinos
das figuras nordestinas pintadas por Litho
levam em conta diversos elementos. Há nelas a origem da arte popular, o
manejo da técnica da pintura que viabiliza a reprodução, a capacidade
infinita de composições a partir do universo plástico do Mestre Vitalino
e de seus discípulos e, acima de tudo, o potencial lúdico de obras
criadas como retratos poéticos visuais de um país com uma ampla
riqueza cultural em suas mais diversas manifestações, das populares às
eruditas.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov
(Noovha América) e Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de
Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).