por Oscar D'Ambrosio


 

 



Lindorico

O primitivismo romântico

Conjunto de crenças, costumes e técnicas tradicionais transmitidas por fábulas, mitos, lendas, provérbios, enigmas, canções e baladas, o folclore é uma cultura aberta, de transmissão oral e coletiva, que se modifica de acordo com as experiências da população. É nesse rico manancial de imagens que o pintor primitivista Lindorico busca a matéria-prima de suas criações.

Batizado Joaquim Lindorico Pedra, o pintor nasceu em Moeda, MG, em 1º de julho de 1954, e começou a desenhar em sua cidade natal, aos oito anos. Logo chamou a atenção dos professores e tornou-se o responsável pela produção dos cartazes promocionais dos eventos locais, como bailes e festas.

Aos 14 anos, surgiram as primeiras encomendas para pintar bandeiras para as Guardas dos Congados, Festa de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Folia de Reis. O próprio Lindorico foi congadeiro e trabalhou na roça e em colheitas de diversos produtos. Para sobreviver nas entresafras, teve que se dedicar a outras atividades e aprendeu a fazer doces caseiros.

Em 1972, com a ajuda de um amigo, comercializava seus quadros numa "vendinha" da cidade. Foi descoberto ali pelo advogado e professor de inglês Almir Rodrigues de Aguiar, que lhe comprou diversos quadros e o convidou para se mudar para a casa dele em Belo Horizonte, em troca dos quadros que lá pintasse.

Lindorico, que então era um doceiro profissional, aceitou e, para sobreviver na capital, passou por vários empregos, como porteiro de condomínio e montador de automóveis da Fiat. Nesse período, foi produzindo mais quadros e se aperfeiçoando. Graças à crítica de arte Mari’Stela Tristão teve a oportunidade de conquistar uma vaga na tradicional Feira de Arte de Belo Horizonte, onde expõe seus trabalhos até hoje, vendendo-os principalmente para turistas de vários países, como Alemanha, Espanha, EUA, França, Holanda, Itália, Portugal e Itália.

A experiência de Lindorico nas congadas, bandas de música e colheitas de milho, cana e café pode ser vista em seus trabalhos. Em suas telas, surge a vida cotidiana do interior mineiro, em momentos de trabalho, lazer, procissões e festas religiosas, todas abrilhantadas com cores intensas.

Atualmente, Lindorico trabalha no Serviço Social do Comércio-MG como operador de microfilmagem. No tempo livre, cria imagens que evocam uma realidade que pode ser destruída com o mundo globalizado. As casas simples que desenha, por exemplo, não contam com antenas de televisão, mas constituem arraiais perdidos no tempo e no espaço.

Surge assim um primitivismo romântico, caracterizado não só pela temática, mas, principalmente, por imagens repletas de pureza que surge nas telas. Os personagens, mostrados sem rosto, são coadjuvantes coletivos de cenários marcados por um intenso céu azul geralmente demarcado pela presença de algumas nuvens.

Em julho de 2001, o quadro Festa de Nossa Senhora do Rosário foi selecionado para participar do primeiro Salão de Arte do Festival de Inverno de Ouro Preto, MG, organizado pelo Unicentro, Centro Universitário de Belo Horizonte. A desproporção da igreja em relação aos participantes da celebração, vestidos de branco, com faixas coloridas cruzadas sobre o peito, remete justamente a um tempo inexistente de poesia e encantamento.

As imagens de pequenas cidades ou de festas juninas apresentam elementos comuns, como o azul deslumbrante, a composição de multidões participando de quadrilhas ou jogos e dezenas de espectadores que preenchem a tela e lhe dão um peculiar encanto.

Quando um cavaleiro de cavalhada de São Jorge é retratado, ele surge em primeiro plano, mas os elementos básicos da pintura de Lindorico se mantém, na forma de casas, céu marcante e pessoas observando a cena. Esse tipo de composição harmônica, seja com figuras estáticas ou dinâmicas, indica justamente um padrão técnico definido e a conquista de um estilo.

Mesmo nas colheitas, onde há menos pessoas e maior destaque para o verde e amarelo dos campos, pequenas casas e o céu azul com nuvens brancas se mantêm, numa importante coerência estética, que mostra amadurecimento e potencial de realizar conjuntos cada vez mais complexos e em escalas maiores.

Lindorico toma o folclore e a vida no interior mineiro como ponto de partida para criar imagens puras e simples. Seus belos céus, casas caiadas em tons pastel e figuras caracterizam um estilo primitivista romântico que mantém uma visão idílica de uma cultura popular que ainda sobrevive. Talvez suas telas sejam, num futuro bem próximo, um documento histórico de uma rica herança aparentemente condenada ao desaparecimento.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

"Festa de Nossa Senhora do Rosário"

O.S.T - 40X70 - 2000

Lindorico

 

 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio