por Oscar D'Ambrosio


 

 


Lílian Arbex

 

            A aquarela encontra o ar

 

            Em 2006, ano do centenário do 14 Bis, a aquarelista Lílian Arbex percorre a vida e a obra de Alberto Santos Dumont (1873 – 1932). Inventor, construtor e piloto do primeiro aparelho mais pesado que o ar que, em 1906, voou publicamente, o aviador brasileiro é muito mais que um aeronauta. Tornou-se um ícone da conquista dos céus pelo homem. Desde o seu nascimento na Fazenda Cabangu, MG, até o seu suicídio no Guarujá, em SP, percorreu uma trajetória romanesca, consagrando-se como um marco no desenvolvimento da aviação.

            A proposta das exposições de Lilian Arbex é retomar, com a técnica da aquarela, ligada à fluidez da água, a história de Santos Dumont justamente quando é comemorado, em outubro de 2006, o centenário do vôo do 14 Bis, que realizou a trajetória inesquecível que colocou o aviador como um paradigma mundial.

            As sutilezas que a aquarela propiciam são próprias para trabalhar as múltiplas possibilidades que o tema oferece. A começar pelo próprio sonho de Ícaro, o mítico personagem que morreu afogado após ter se aproximado demais do sol, ação que levou ao derretimento da cera que mantinha as penas que estruturavam as asas construídas pelo seu pai Dédalo.

            O mal de Ícaro foi não ter respeitado as palavras paternas, que o haviam alertado para não se aproximar em demasia do sol ou da água do mar, pois, respectivamente, o calor e o sal destruiriam as suas asas. Em contrapartida, o espírito empreendedor de Santos Dumont o levou sempre a enfrentar e vencer desafios cada vez maiores.

            Divulgador do uso por civis do relógio de pulso, criador de uma casa ímpar em Petrópolis, RJ, e amargurado com o uso do avião na Primeira Guerra Mundial, Dumont enfrenta até hoje resistência dos norte-americanos, pois muitos atribuem a invenção do avião aos irmãos Wright.

            O essencial é captar, seja em alguns elementos biográficos, seja em objetos pessoais, como o chapéu de abas largas,  a sua marca registrada, ou nos numerosos balões e aviões que construiu, quem foi Santos Dumont. A poética da aquarela de Lilian Arbex se presta a desvendar esse desafio.

            Nos trabalhos da artista, estarão presentes imagens feitas com água, tinta e aglutinante sobre um homem que venceu o ar. Se a aquarela é uma linguagem que se caracteriza pelo domínio da  leveza das transparências e sutilezas de cor, as conquistas por Dumont exigiram uma análoga superação técnica de ascender e se mover mesmo sendo mais pesado que o ar.

            As exposições, embora não sejam um relato histórico, têm um aspecto didático, no melhor sentido do termo. Quem dela usufrui fica marcado pelo espírito criativo de Dumont. É impossível ver as suas invenções, como o balão Brasil, o dirigível nº 6, o mencionado 14 Bis e o Demoiselle, entre os mais de 20 balões livres, dirigíveis, monoplanos e biplanos que planejou, construiu e experimentou entre 1898 e 1909, em Paris, sem se sentir compelido a também criar.

            O conjunto de aquarelas de Lílian Arbex, portanto, parte do sonho de voar que acompanha o homem há séculos, desvela o interior de Minas, terra natal do aviador, passa pelas suas conquistas e termina com a sua desilusão no litoral paulista. Assim a técnica da aquarela se aproxima do ar dominado por Santos Dumont.

            Os elementos água e ar se encontram na sua capacidade de se ajustar aos mais variados recipientes. Lílian oferece a sua visão de Santos Dumont com a feitura de trabalhos em um estilo marcado pelo lirismo e delicadeza. A sua ótica pessoal constrói em cada observador de seu trabalho um novo inventor. Dessa maneira, o construtor de aviões é reconstruído pela artista, numa jornada imagética que celebra o centenário de um breve vôo que foi um gigantesco avanço para a humanidade.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

           

 
 

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  Número 6 
Aquarela 29,7 cm x 42 cm 2005

 Lilian Arbex

 

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