Lídia Saczkovski
O fascínio da
arquitetura
Balzac (1799-1850), em A
procura do absoluto, afirmou que os
acontecimentos da vida humana, seja pública, seja privada,
estariam profundamente ligados à arquitetura. Acreditava até que seria
possível histórias de nações ou de pessoas a partir dos
seus edifícios.
O mesmo
raciocínio pode, em grande parte, ser aplicado ao trabalho plástico
de Lídia Saczkovski. Suas composições,
geralmente em telas circulares, estão fortemente marcadas pela presença
de edifícios, sejam igrejas, prédios, lojas ou os mais variados
elementos que compõem cidades repletas de construções e com pouca
presença humana.
Filha
de imigrantes ucranianos, ela nasceu em Irati,
Estado do Paraná, em 18 de janeiro de 1951, numa comunidade rural,
imersa na religiosidade ortodoxa russa e com ampla convivência com o
folclore, a arte, os costumes e idioma eslavos. Isso se mescla com o
colorido certamente absorvido, em parte, durante os nove anos que
morou no Nordeste brasileiro, caracterizado pela fusão entre as
tonalidades quentes e uma riquíssima cultura popular.
Casada
com o artista plástico Malah, que foi seu
incentivador, também encontrou respaldo em praticas no atelier de Edílson
Viriato, em Curitiba, PR.
Paulatinamente, foi encontrando o seu próprio estilo, muito marcado
pela presença do elemento arquitetônico, tanto do universo urbano
como do rural.
Ao criar cidades, as
estruturas plásticas de Lídia estabelecem numerosas fachadas
multifacetadas. Árvores, calçadas e jardins são complementos de uma
mistura de elementos, em que surgem, por exemplo, algumas cúpulas
orientais e minaretes. Isso auxilia ao
estabelecimento de um clima misterioso, pois o universo urbano
retratado não é real, mas ricamente imaginado.
No currículo
da artista, consta a menção honrosa na importante Bienal
Internacional Naïf em Buenos Aires, além
de numerosas exposições coletivas. O mais significativo do seu
trabalho está justamente na capacidade de dar à arquitetura uma
dimensão visceralmente humana.
Esse
processo encanta, pois permite uma variedade infinita de composições.
O importante é não perder de vista que o seu trabalho encontra um
elemento diferenciador justamente na forma despojada como parte da
arquitetura para obter a sua linguagem pictórica.
Nesse
sentido, uma imagem de prédios justapostos, cenas de capoeira ou de
festas populares nordestinas ou do sul brasileiro podem atingir o
mesmo excelente resultado estético desde que sempre sejam tratadas
com originalidade e criatividade. Assim, cada nova tela nunca será
uma repetição da anterior, mas uma versão mais aprimorada na busca
do aperfeiçoamento contínuo.
Seja ao
tratar do universo, do campo, de pequenas cidades ou de uma metrópole,
Lídia Saczkovski precisa se manter atenta
para continuar desenvolvendo uma linguagem em que o tema em si mesmo
seja menos importante do que a forma da composição realizada.
As cidades
da pintora paranaense encantam pela plasticidade e, por seguirem, à
sua maneira, o ensinamento de Balzac de que a arquitetura é um dos
caminhos mais interessantes para desvendar as almas dos seus
construtores e moradores. Assim, ao se observar uma tela de Lídia,
estamos aprendendo um pouco sobre ela e sobre a ilimitada capacidade
de criar dos seres humanos.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi
(Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo).