por Oscar D'Ambrosio


 

 


  Liane Tiemi Iwahashi

 

            A verdadeira beleza nunca é explícita

 

Todas as pessoas têm uma história, repleta de memórias do passado, de momentos importantes que estão acontecendo agora e de sonhos para o futuro. Conhecer essa trajetória é a melhor maneira de mergulhar nas suas andanças. Com os rios e as avenidas não é diferente. Saber como são, quem passou por eles e como eles vão se transformando constitui uma jornada fascinante.

            Sinônimo de história, cultura e desenvolvimento social e econômico para os moradores da cidade de São Paulo, a avenida Paulista concentra edificações e conjuntos arquitetônicos importantes, marcos do crescimento da cidade e locais em que a tradição popular, a religiosidade e a diversidade cultural se manifestam e se relacionam.

            É essa avenida Paulista que é o tema do Trabalho de Conclusão do Curso de Bacharelado em Artes Plásticas no Instituto de Artes da UNESP, câmpus de São Paulo,  de Liane Tiemi Iwahashi. Sob orientação do docente Norberto Stori, ela mergulho num espaço geográfico que tem a mesma riqueza de um rio ou de uma pessoa.

            Intitulado Registros de um percurso: Avenida Paulista, a pesquisa reúne fotografias e trabalhos da jovem artista sobre um dos marcos turísticos da cidade. Na verdade, o tema é o menos importante. Liane é o tipo de artista que toma um assunto não como uma necessidade inerente, mas quase como um mero mote.

            O importante não é tanto sobre o que ela fala, mas como ela desenvolve sobre o que selecionou. Seu recorte, seja na fotografia, pintura ou xilogravura, é o da percepção de um ambiente. Redes de crochê, fotos do céu, torres e antenas surgem com força, mas cercados por técnica.

            Liane tomou avenida Paulista, como ela confessa no TCC,  pelo fato de morar na região e por ter trabalhado por lá. Transformou então seu cotidiano em universo poético. Passou, de fato, a observá-lo e senti-lo com olhar plástico e – quando isso acontece – o ambiente passa a ser algo diferente do que parece ser.

            Os detalhes começam a ganhar insuspeitados destaques e redes de crochê penduradas, esticadas ou dobradas, o céu, o chão, as nuvens refletidas nas janelas espelhadas dos prédios e as linhas pintadas no asfalto e nas arquiteturas dos edifícios ganham proporções e importâncias novas.

            Esses elementos todos sempre estiveram lá. O que mudou foi a capacidade de olhar para eles e perceber como estão ali infinitos trabalhos à espera de desenvolvimento. O maior exercício é o de saber olhar, dando a essa atividade uma respiração adequada, num processo de absorção do entorno e de uma progressiva deglutição e transformação do chamado real em objeto estético com estilo diferenciado.

            Entre suas referências visuais, Liane destaca Gregório Gruber, pelos silêncios das composições; Alex Flemming, por captar o movimento do cotidiano urbano; Cássio Vasconcellos, pelo uso de cores saturadas; Paulo D‘Alessandro, pelo consciente uso de interferências sobre filme fotográfico; Marco Giannotti, pelo enquadramento ao trabalhar com suas janelas; e Geraldo de Barros, pela manipulação da imagem.

            Desse universo de leituras possíveis, Liane cria seu curso d’água. Transforma a avenida no seu rio pessoal de imagens. Vale-se da cor, da linha e de variados processos para mostrar que a verdadeira beleza nunca é explícita. Ela está nos interditos, escondida e precisa ser revelada.

Isso pode ocorrer no vislumbre de uma rede de crochê e sua ambivalência (descansar na avenida símbolo do trabalho), nas fragmentações do céu e ou na justaposição de linhas. É esse o talento dos autênticos artistas como Liane Tiemi Iwahashi. O assunto é o de menos. Trata-se apenas de um pretexto para o descortinar de um intenso e infinito processo criativo.    

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 



 

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