por Oscar D'Ambrosio


 

 


LiAleixo

 

            Plasticidade da galinha d’Angola

 

            Nativa da África, também conhecida no Brasil como galinhola, angolinha, pintada ou guiné, entre outros nomes, a galinha d’Angola despertou o interesse estético da artista plástica LiAleixo. Trazida da África na época da escravidão, a ave preserva ainda alguns de seus hábitos selvagens, como o de andar em bandos e ser muito barulhenta, com um grito "tô-fraco" inconfundível.

Esse fator leva o animal a ser utilizado como guarda, pois, ao perceber a presença de estranhos ou qualquer anormalidade, põe-se a gritar. A galinha d’Angola é criada ainda como ave ornamental e como produtora de carne – cuja consistência firme e sabor leva a comparações com a do faisão – e ovos. Na culinária francesa, é ingrediente de pratos sofisticados e, em termos ecológicos, colabora com o equilíbrio biológico, pois devora lagartas, formigas e carrapatos.

            Em 2005, para o curso de Educação Artística do Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo, LiA realizou um pequeno caderno, de 17 cm x 13 cm, em que mostra o resultado de sua pesquisa sobre o animal. Após a capa, realizada com cores muito fortes na cultura afro (vermelho, branco e preto, vinculadas à criação do mundo), encontramos uma pena da ave – e guardá-las é um hábito que a artista confessa ter desde a infância

            O trabalho demonstra amplas possibilidades de desenvolvimento do tema, que já chamou inclusive a atenção dos compositores Toquinho e Vinícius de Moraes, que compuseram a música A Galinha D'Angola, com a seguinte letra: Coitada, coitadinha/ Da galinha-d'angola. / Não anda ultimamente / Regulando da bola. / Ela vende confusão e compra briga. /Gosta muito de fofoca e adora intriga. /Fala tanto que parece que engoliu uma matraca, /E vive reclamando que está fraca. // Tou fraca! Tou fraca! / Tou fraca! Tou fraca! Tou fraca! // Come tanto até ter dor de barriga. / Ela é uma bagunceira de uma figa. / Quando choca, cororoca, come milho e come caca, E vive reclamando que está fraca. // Tou fraca! Tou fraca! Tou fraca!

            Na literatura, pelo menos dois livros voltados para o público infantil tem a galinha d’Angola como tema: Fraca Fracola, Galinha D'Angola, de Sylvia Orthof, da Editora Ática, onde Madame D’Angola é uma galinha hipocondríaca que, por viver a se queixar, mancar e espirrar, perturba todos os outros moradores do galinheiro; e O dragão que era galinha d’Angola, de Anna Flora, da Editora Salamandra, em que a questão da identidade é fundamental.

            O animal também é título do livro Galinha D'Angola: iniciação e identidade na Cultura Afro-brasileira, de Arno Vogel, Marco Antônio e José F. P. Barros, da Editora Pallas. Nele, há um mergulho na riqueza das práticas cerimoniais do candomblé. A galinha d´Angola é apontada como elemento fundamental das cerimônias e da mitologia da criação desse universo religioso, pois constitui oferenda que propicia axé e equilíbrio pessoal.

            As célebres figureiras da cidade de Taubaté, no interior do Estado de São Paulo, com seu trabalho em argila, têm, tradicionalmente, além do pavão, também chamado galinho do céu, a galinha d’Angola entre seus temas preferidos, seja sozinha ou na forma de chuva.

            A importância simbólica da ave está associada a uma lenda em que a Morte se instaura numa cidade, e a população pediu ajuda a Oxalá, divindade da mitologia ioruba responsável pela criação e administração do mundo. Identificado com Jesus Cristo e com o Senhor do Bonfim na Bahia, tem a cor branca como identificadora e é o orixá mais querido e respeitado do panteão afro-brasileiro.

            No mito, Oxalá ordenou que as pessoas fizessem oferendas de uma galinha preta com pó de giz branco nas pontas de suas penas. Ao ver aquele animal, estranho, a Morte teria se assustado e abandonado a cidade. Por isso, as sacerdotisas dos orixás são pintadas como a galinha d’Angola, indicando a sabedoria de Oxalá, que livrou a cidade da implacável morte.

            Existe ainda um conto tradicional de Angola que narra a história de uma Kerere (também conhecida como por Konquem, “Tô fraco”, Etu ou Galinha d’Angola). Ela estava cabisbaixa, cantando “Estou fraca, estou fraca, estou fraca!” e, ao beber água num riacho, encontrou uma linda mulher que se banhava e pintava. Era Dandalunda, conhecida por dar brilho às jóias e se banhar e pintar antes mesmo de cuidar dos filhos.

Dandalunda perguntou por que Kerere estava triste. Ela disse que se achava a mais feia das galinhas pretas. Dandalunda pintou então o seu bico e lhe deu brincos vermelhos. Tornou ainda as penas azul escuro e fez pintas brancas no corpo. Toda feliz, Kerere saiu correndo, mas Dandalunda pediu que voltasse, pois queria pintar o peito. Kerere, porém, pediu um colar e Dadalunda o concedeu em forma de coroa, que, pela sua origem divina,  deve ser colocado em evidência quando uma Kerere é sacrificada.

            Essa narrativa, que nos informa sobre as características físicas da galinha d’Angola, ganha ainda mais relevância quando sabemos que há três tipos dessa ave. A mais comum é a pedrês, cinza com bolinhas brancas. Existem ainda as inteiramente brancas e também a pampa, resultado do cruzamento das primeiras. Com cerca de três meses, o macho já apresenta uma crista pronunciada para a frente, como um chifre; na fêmea, essa crista é mais arredondada.

            LiA trabalha esse universo por meio de uma aquarela, em que as galinhas d’Angola surgem muito semelhantes às das figureiras de Taubaté, em tom azul; fotografias, feitas em Pernambuco, onde elas, de fato, andam em bandos; e, principalmente com uma seqüência de desenhos, com branco em fundo vermelho e, depois, branco em fundo preto.

            A concepção de  uma animação é bem menos importante do que o resultado apresentado: a construção, por intermédio da linha, de uma galinha d’Angola. São 16 trabalhos na série Branco sobre vermelho, que evoca, guardadas as devidas proporções, a força do desenho de Aldemir Martins nos anos 1950 e a liberdade criativa de Picasso no que diz respeito a não ter medo de errar em suas composições.

            A série Branco sobre Preto, com 25 trabalhos, instaura um mundo em que as manchas divinas da galinha d’Angola começam a ganhar destaque e a ocupar um progressivo espaço. Cria-se um cosmos em que se sai da figura inicialmente estabelecida pela galinha e passa-se a um novo estágio, o do universo da imagem contido em cada ave, em cada animal e em cada ser vivo.

            O caderno de LiAleixo é, assim, a expressão de um ser no mundo. As duas séries de desenhos, se trabalhadas em superfície maior e, talvez, com novas possibilidades técnicas, podem instaurar uma riqueza imagética em que o assunto, a galinha d’Angola, pode ficar até em segundo plano perante a expressão do desenho e da linha, instâncias com as que LiAleixo tem uma instintiva  e poética intimidade.        

           

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Claudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

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Capa de caderno da artista
técnica mista 2005

LiAleixo

 

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