LiAleixo
Plasticidade
da galinha d’Angola
Nativa da
África, também conhecida no Brasil como galinhola, angolinha,
pintada ou guiné, entre outros nomes, a galinha d’Angola despertou
o interesse estético da artista plástica LiAleixo. Trazida da África
na época da escravidão, a ave preserva ainda alguns de seus hábitos
selvagens, como o de andar em bandos e ser muito barulhenta, com um
grito "tô-fraco" inconfundível.
Esse
fator leva o animal a ser utilizado como guarda, pois, ao perceber a
presença de estranhos ou qualquer anormalidade, põe-se a gritar. A
galinha d’Angola é criada ainda como ave ornamental e como
produtora de carne – cuja consistência firme e sabor leva a comparações
com a do faisão – e ovos. Na culinária francesa, é ingrediente de
pratos sofisticados e, em termos ecológicos, colabora com o equilíbrio
biológico, pois devora lagartas, formigas e carrapatos.
Em 2005,
para o curso de Educação Artística do Instituto de Artes da UNESP, campus
de São Paulo, LiA realizou um pequeno caderno, de 17 cm x 13 cm, em
que mostra o resultado de sua pesquisa sobre o animal. Após a capa,
realizada com cores muito fortes na cultura afro (vermelho, branco e
preto, vinculadas à criação do mundo), encontramos uma pena da ave
– e guardá-las é um hábito que a artista confessa ter desde a infância
O trabalho
demonstra amplas possibilidades de desenvolvimento do tema, que já
chamou inclusive a atenção dos compositores Toquinho e Vinícius de
Moraes, que compuseram a música A Galinha
D'Angola, com a
seguinte letra: Coitada,
coitadinha/ Da galinha-d'angola. / Não anda ultimamente / Regulando
da bola. / Ela vende confusão e compra briga. /Gosta muito de fofoca
e adora intriga. /Fala tanto que parece que engoliu uma matraca, /E
vive reclamando que está fraca. // Tou fraca! Tou fraca! / Tou fraca!
Tou fraca! Tou fraca! // Come tanto até ter dor de barriga. / Ela é
uma bagunceira de uma figa. / Quando choca, cororoca, come milho e
come caca, E vive reclamando que está fraca. // Tou fraca! Tou fraca!
Tou fraca!
Na
literatura, pelo menos dois livros voltados para o público infantil
tem a galinha d’Angola como tema: Fraca
Fracola, Galinha D'Angola, de Sylvia Orthof, da Editora Ática,
onde Madame D’Angola é uma
galinha hipocondríaca que, por viver a se queixar, mancar e espirrar,
perturba todos os outros moradores do galinheiro; e O dragão que
era galinha d’Angola, de Anna Flora, da Editora Salamandra, em
que a questão da identidade é fundamental.
O animal
também é título do livro Galinha
D'Angola: iniciação e identidade na Cultura Afro-brasileira,
de Arno Vogel, Marco Antônio e José F. P. Barros, da Editora Pallas.
Nele, há um mergulho na riqueza das práticas cerimoniais do candomblé.
A galinha d´Angola é apontada como elemento fundamental das cerimônias
e da mitologia da criação desse universo religioso, pois constitui
oferenda que propicia axé e equilíbrio pessoal.
As célebres
figureiras da cidade de Taubaté, no interior do Estado de São Paulo,
com seu trabalho em argila, têm, tradicionalmente, além do pavão,
também chamado galinho do céu, a galinha d’Angola entre seus temas
preferidos, seja sozinha ou na forma de chuva.
A importância
simbólica da ave está associada a uma lenda em que a Morte se
instaura numa cidade, e a população pediu ajuda a Oxalá, divindade
da mitologia ioruba responsável pela criação e administração do
mundo. Identificado com Jesus Cristo e com o Senhor do Bonfim na
Bahia, tem a cor branca como identificadora e é o orixá mais querido
e respeitado do panteão afro-brasileiro.
No mito,
Oxalá ordenou que as pessoas fizessem oferendas de uma galinha preta
com pó de giz branco nas pontas de suas penas. Ao ver aquele animal,
estranho, a Morte teria se assustado e abandonado a cidade. Por isso,
as sacerdotisas dos orixás são pintadas como a galinha d’Angola,
indicando a sabedoria de Oxalá, que livrou a cidade da implacável
morte.
Existe
ainda um conto tradicional de Angola que narra a história de uma
Kerere (também conhecida como por
Konquem, “Tô fraco”, Etu ou Galinha d’Angola). Ela
estava cabisbaixa, cantando
“Estou fraca, estou fraca, estou fraca!” e, ao beber água
num riacho, encontrou uma linda mulher que se banhava e pintava. Era
Dandalunda, conhecida por dar brilho às jóias e se banhar e pintar
antes mesmo de cuidar dos filhos.
Dandalunda
perguntou por que Kerere estava triste. Ela disse que se achava a mais
feia das galinhas pretas. Dandalunda pintou então o seu bico e lhe
deu brincos vermelhos. Tornou ainda as penas azul escuro e fez pintas
brancas no corpo. Toda feliz, Kerere saiu correndo, mas Dandalunda
pediu que voltasse, pois queria pintar o peito. Kerere, porém, pediu
um colar e Dadalunda o concedeu em forma de coroa, que, pela sua
origem divina, deve ser
colocado em evidência quando uma Kerere é sacrificada.
Essa
narrativa, que nos informa sobre as características físicas da
galinha d’Angola, ganha ainda mais relevância quando sabemos que há
três tipos dessa ave. A mais comum é a pedrês, cinza com bolinhas
brancas. Existem ainda as inteiramente brancas e também a pampa,
resultado do cruzamento das primeiras. Com cerca de três meses, o
macho já apresenta uma crista pronunciada para a frente, como um
chifre; na fêmea, essa crista é mais arredondada.
LiA
trabalha esse universo por meio de uma aquarela, em que as galinhas
d’Angola surgem muito semelhantes às das figureiras de Taubaté, em
tom azul; fotografias, feitas em Pernambuco, onde elas, de fato, andam
em bandos; e, principalmente com uma seqüência de desenhos, com
branco em fundo vermelho e, depois, branco em fundo preto.
A concepção
de uma animação é bem
menos importante do que o resultado apresentado: a construção, por
intermédio da linha, de uma galinha d’Angola. São 16 trabalhos na
série Branco sobre vermelho, que evoca, guardadas as devidas proporções,
a força do desenho de Aldemir Martins nos anos 1950 e a liberdade
criativa de Picasso no que diz respeito a não ter medo de errar em
suas composições.
A série
Branco sobre Preto, com 25 trabalhos, instaura um mundo em que as
manchas divinas da galinha d’Angola começam a ganhar destaque e a
ocupar um progressivo espaço. Cria-se um cosmos em que se sai da
figura inicialmente estabelecida pela galinha e passa-se a um novo estágio,
o do universo da imagem contido em cada ave, em cada animal e em cada
ser vivo.
O caderno
de LiAleixo é, assim, a expressão de um ser no mundo. As duas séries
de desenhos, se trabalhadas em superfície maior e, talvez, com novas
possibilidades técnicas, podem instaurar uma riqueza imagética em
que o assunto, a galinha d’Angola, pode ficar até em segundo plano
perante a expressão do desenho e da linha, instâncias com as que
LiAleixo tem uma instintiva e
poética intimidade.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos
de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando
a arte de Claudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp
e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).