por Oscar D'Ambrosio


 

 


Lela Severino

 

Mãos e alma de escultora

 

            Não há como olhar para a artista plástica Lela Severino e não observar as suas mãos. Grandes e poderosas, é  fácil imaginar como elas modelam o barro para atingir as mais diversas formas, geralmente inspiradas pela figura humana, mas sempre marcadas por uma grande liberdade no trato com o material.

            Nascida em 26 de fevereiro de 1950, em Valparaíso, interior do Estado de São Paulo, Lela foi bóia-fria em sua terra natal e, em São Paulo, atuou como manequim e em sessões de modelo vivo para alguns dos principais artistas do país. Foi no Liceu de Artes e Ofícios que conseguiu uma bolsa para freqüentar as aulas de escultura e, três meses depois, já tinha um trabalho premiado.

            Ao trabalhar sua matéria-prima, Lela conjuga a intuição, que a leva a construir as suas esculturas sem desenho ou esboço prévio, a um progressivo conhecimento teórico, adquirido ao ouvir mestres como Evandro Carlos Jardim, Sergio Fingerman e Rubens Matuck, entre outros.

            O que mais impressiona nas esculturas da artista é a ousadia e a ausência de medo de errar. Sua poética se manifesta de várias maneiras, mas é quando o acabamento é menor, deixando grande número de rebarbas e reentrâncias que as obras encontram a sua plenitude.

            A coragem de elaborar figuras que mesclam elementos orgânicos, mas que não perdem sua característica figurativa, oferece alguns resultados técnicos característicos da escultura, como as bases largas e caminhos internos que revelam as marcas dos dedos da artista na execução de suas modelagens.

            A força das mãos de Lela pode ser observada na maneira como soluciona sua linguagem plástica. As obras de maior impacto geralmente são de detalhes do corpo humano, principalmente torsos masculinos ou femininos em composições marcadas pela presença de irregularidades agradáveis ao tato.

            As linhas de força presentes nessas imagens são o resultado do domínio que a artista tem do próprio corpo, como modelo, e do exercício da capacidade do olhar, desenvolvido tanto pelo ouvir os mestres como pela formação de um repertório visual ao longo dos anos.

            A artista soma amplas mãos, alma inquieta e capacidade de articular diversas idéias com resultados de bastante impacto, seja nas obras maiores ou nas feitas a partir de sobras de barro. O que une as imagens está no processo de construção visual, consciente de duas questões fundamentais da escultura: a importância de ela ser concebida como uma peça a ser vista em 360º e um pensamento voltado para os jogos de sombra e luz que cada trabalho propicia.  

            Lela Severino transforma suas esculturas numa relação com o mundo caracterizada por um impulso vital. Mulheres, homens, crianças e animais, de corpo inteiro ou trabalhados em fragmentos ampliados, estabelecem um universo visual  marcado por memórias de infância e por uma busca estética que se realiza no poder de, pelas mãos, transferir para o barro e o bronze idéias cristalizadas na cabeça.                    

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 



 

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