por Oscar D'Ambrosio


 

 


Os melhores lances da arte naïf

 

A exposição “Futebol: uma paixão brasileira”, no Pavilhão da Criatividade Darcy Ribeiro, no Memorial da América Latina, São Paulo, SP, de 19 de maio a 6 de junho de 2006, traz alguns dos principais representantes da chamada arte primitivista ou naïf ("ingênuo", em francês). Muito mais importante do que uma discussão de nomenclaturas, é essencial verificar que o tipo de manifestação aqui reunido está fortemente vinculado à arte popular nacional.

            São geralmente artistas não-eruditos, ou seja, autodidatas, que, a partir de temas populares, como o futebol, desenvolvem um estilo caracterizado pelas cores vivas e uma imaginação, estilização e poder de síntese levados para a tela com uma técnica muito pessoal.

O carioca Heitor dos Prazeres, com suas imagens sobre samba; o paulista José Antônio da Silva, com seus flagrantes do universo caipira; e o baiano Waldomiro de Deus, com seus imensos anjos coloridos, são exemplos de artistas que têm em comum justamente esse percurso autodidata. Por não terem freqüentado cursos de arte, apresentam um estilo autêntico.

Em linhas gerais, pode-se dizer que a arte naïf brota do inconsciente coletivo, mantém-se em constante renovação e se deixa penetrar por influências eruditas, embora conserve sua natureza própria. Sabedoria e sonho se irmanam, assim, em obras difíceis de definir sob uma única catalogação.

Autodidatismo e aprendizagem de técnicas de modo empírico podem ser verificados pela ausência ou relativização de aspectos formais acadêmicos, como composição, perspectiva e respeito às cores reais. Acima de tudo, o artista naïf tem o paradoxal compromisso de não seguir uma estética pré-concebida para, ao longo da carreira, criar lances de marcante beleza plástica.

Em comum, os criadores considerados naïfs exibem desproporções, cores vibrantes, freqüente ausência de profundidade e uma criatividade espontânea. Sem a preocupação de seguir padrões, exibem aquilo que falta à chamada arte acadêmica, ou seja, simplicidade e respeito apenas aos próprios paradigmas em nome de uma verdade interior do que significa ser artista.

O termo naïf reúne justamente esses artistas que apenas têm fidelidade a si mesmos. Sem referencias culturais eruditas e sem dominar um conhecimento teórico, enfocam, geralmente, com autenticidade, cenas da vida cotidiana (rurais ou urbanas) com grande riqueza de detalhes.

Foi o alfandegário autodidata francês Henri Rousseau, na segunda metade do século XIX, o primeiro pintor a receber a denominação de arte naïf. O autor do batismo foi o escritor Alfred Jarry que se fascinou com a obra do artista plástico francês, criador de imagens inesquecíveis como a onírica tela A cigana adormecida.

A denominação foi consagrada pela crítica e artistas naïfs podem ser encontrados em todo o mundo, principalmente na França, no Brasil, em Cuba e no Leste Europeu. Eles não continuam nem rompem com uma tradição. Seu objetivo é representar uma imagem ou pensamento, sem levar em conta barreiras conceituais ou técnicas. O resultado, por isso, depende, como mostra esta exposição, da sensibilidade, do talento e da imaginação de cada pintor.

 

Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil), é autor, entre outros, de livros sobre os artistas Ranchinho e Waldomiro de Deus.

 

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