por Oscar D'Ambrosio


 

 


  Labirintos de Sidney Lacerda

 

            Por definição, como mostra o Dicionário de símbolos, de Juan-Eduardo Cirlot, um labirinto é “uma construção arquitetônica, sem finalidade aparente, de estrutura complicada e da qual, uma vez em seu interior, é impossível ou muito difícil encontrar a saída”. O projeto Labirintos, do artista plástico Sidney Lacerda, se apropria desse conceito de um modo muito pessoal. Ele cria um universo de madeira, fórmica e espelho em que as imagens se repetem infinitas vezes num jogo em que os limites entre o real e o imaginário são questionados a cada instante.

            A concepção parte de unidades denominadas módulos. Cada um deles une duas placas de compensado, cada uma do tamanho de uma porta, por meio de dobradiças. Isso permite que elas possam ser dispostas em diversas formações e aberturas. Ao todo, são oito desses conjuntos, totalizando 16 placas.

            Esses módulos podem ser articulados de infinitas formas. No entanto, esse universo ganha complexidade e riqueza quando a montagem segue alguns raciocínios. O primeiro é que eles são colocados de modo a formar um labirinto, ou seja, o público pode entrar ou sair por duas entradas/saídas nas extremidades.

            As partes dos módulos para o lado de fora da forma constituída, que é a do caule de uma árvore, são de fórmica, cobertas de freijó, madeira que, além de remeter a um material orgânico, com grande força vital, própria da natureza, possui formas e desenhos inerentes ao universo, como a repetição de formas fractais e a ordenação caótica de elementos.

            De fora, o labirinto parece, portanto, um caminho de madeira, já que as 16 placas tem essa aparência. No entanto, ao se entrar no labirinto proposto, surgem surpresas. A maior delas é que duas placas, a primeira de cada lado, seja entrada ou saída, da estrutura articulada como um labirinto, conta com o elemento cor, em fórmica.

            Uma delas é vermelha e a outra violeta, cor que carrega dentro de si também o magenta. Temos assim uma cor quente, relacionada à vida e ao fogo; e uma mais fria, voltada para associações com o céu e com um movimento mais espiritualizado e interiorizado.

            Se o vermelho explode ao nosso olhar, o violeta possibilita uma leitura mais densa das possibilidades colorísticas, por ser, em si mesmo, uma mescla de pigmentos, uma mostra de como a arte de pintar inclui um amplo referencial de conhecimento da existência das cores e das suas combinações.

            Há, no entanto, mais surpresas. As outras placas do lado interno da estrutura são recobertas com espelhos. Isso gera a repetição infinita das imagens e das cores. Quando a pessoa entra no labirinto, ela ganha a repetição da imagem e se perde nesse jogo. As cores dispostas nas extremidades, pelo ludismo proposto, também se multiplicam e reaparecem em diversas posições.

            Temos então um labirinto de imagens e de cores a ser percorrido pelo visitante. Seja uma criança ou um iniciado em artes plásticas, ele terá o mesmo prazer de passar pelos módulos articulados, entrando num microcosmo em que não há limites para a imaginação e onde o jogo visual se faz muito presente.

            Se as cores utilizadas, valorizadas por uma iluminação adequada, obrigam a refletir sobre a própria função da pintura na arte contemporânea, a madeira estabelece uma ligação com a natureza, enquanto o espelho tem o papel de estabelecer conexões múltiplas com o objeto refletido.

Há nele uma ambivalência, pois contém a imagem e, ao mesmo tempo, a reproduz. Se a absorve e domina, a multiplica estabelecendo canais com a imaginação de cada um. A imagem única se torna diversa e a experiência de se ver reproduzido tantas vezes quanto possível faz pensar sobre o próprio papel da reprodutibilidade da arte e do ser humano.

Se cada pessoa vive imersa num mundo de máscaras e indagações, a instalação Labirintos traz ainda uma proposta adicional. Após a abertura da exposição, em que os oito módulos de compensado, cada um com duas placas articuladas, sendo cada uma delas em formato de uma porta, estarão formando o mencionado labirinto, a proposta é que, em cada dia, o conjunto seja montado de uma maneira.

Como as placas são facilmente transportáveis (basta a força de duas pessoas), o artista fará, para cada dia da exposição, uma montagem diferente. Desse modo, em dez dias de exibição, serão dez montagens diferentes dos painéis, com distintas concepções do jogo de luz e de cor que o projeto comporta.

Acompanha a montagem da exposição dez maquetes, em escala reduzida, em que a disposição de cada dia estaria exposta para que o público soubesse da riqueza visual da proposta e da potencialidade do recursos dos módulos. Isso indica ainda as possibilidades da idéia, com novas cores e materiais.

A montagem, em uma área mínima aproximada de 40 m2 e o custo de produção dos módulos, incluindo a colocação das fórmicas e espelhos, em torno de R$ 5 mil, tornam o projeto viável e de grande interesse para locais públicos por permitirem a interação das pessoas.

Independendo da idade ou da formação cultural, elas sentirão prazer estético e lúdico ao conhecerem um labirinto que, em última análise, está dentro delas, nos próprios caminhos do cérebro com as infinitas e ainda não totalmente decifradas pela ciência ramificações dos neurônios.

Labirintos comporta tantas possibilidades de montagem quanto de leituras. Compensado, madeira, espelho, fórmica e cor se articulam em cada caminho e em cada montagem proposta. Artistas e público interagem assim diariamente, dentro de conceitos de arte contemporânea que fascinaram criadores como Marcel Duchamp, que via artistas como seres mediúnicos, e Hélio Oiticica, com seu Programa Ambiental, em que as pessoas deveriam, de alguma maneira participar da obra.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA – Seção Brasil).

 

 

 



 

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