Por
definição, como mostra o Dicionário de símbolos, de
Juan-Eduardo Cirlot, um labirinto é “uma construção arquitetônica,
sem finalidade aparente, de estrutura complicada e da qual, uma vez
em seu interior, é impossível ou muito difícil encontrar a saída”.
O projeto Labirintos, do artista plástico Sidney Lacerda, se
apropria desse conceito de um modo muito pessoal. Ele cria um
universo de madeira, fórmica e espelho em que as imagens se repetem
infinitas vezes num jogo em que os limites entre o real e o imaginário
são questionados a cada instante.
A concepção
parte de unidades denominadas módulos. Cada um deles une duas
placas de compensado, cada uma do tamanho de uma porta, por meio de
dobradiças. Isso permite que elas possam ser dispostas em diversas
formações e aberturas. Ao todo, são oito desses conjuntos,
totalizando 16 placas.
Esses módulos
podem ser articulados de infinitas formas. No entanto, esse universo
ganha complexidade e riqueza quando a montagem segue alguns raciocínios.
O primeiro é que eles são colocados de modo a formar um labirinto,
ou seja, o público pode entrar ou sair por duas entradas/saídas
nas extremidades.
As
partes dos módulos para o lado de fora da forma constituída, que
é a do caule de uma árvore, são de fórmica, cobertas de freijó,
madeira que, além de remeter a um material orgânico, com grande
força vital, própria da natureza, possui formas e desenhos
inerentes ao universo, como a repetição de formas fractais e a
ordenação caótica de elementos.
De fora,
o labirinto parece, portanto, um caminho de madeira, já que as 16
placas tem essa aparência. No entanto, ao se entrar no labirinto
proposto, surgem surpresas. A maior delas é que duas placas, a
primeira de cada lado, seja entrada ou saída, da estrutura
articulada como um labirinto, conta com o elemento cor, em fórmica.
Uma
delas é vermelha e a outra violeta, cor que carrega dentro de si
também o magenta. Temos assim uma cor quente, relacionada à vida e
ao fogo; e uma mais fria, voltada para associações com o céu e
com um movimento mais espiritualizado e interiorizado.
Se o
vermelho explode ao nosso olhar, o violeta possibilita uma leitura
mais densa das possibilidades colorísticas, por ser, em si mesmo,
uma mescla de pigmentos, uma mostra de como a arte de pintar inclui
um amplo referencial de conhecimento da existência das cores e das
suas combinações.
Há, no
entanto, mais surpresas. As outras placas do lado interno da
estrutura são recobertas com espelhos. Isso gera a repetição
infinita das imagens e das cores. Quando a pessoa entra no
labirinto, ela ganha a repetição da imagem e se perde nesse jogo.
As cores dispostas nas extremidades, pelo ludismo proposto, também
se multiplicam e reaparecem em diversas posições.
Temos
então um labirinto de imagens e de cores a ser percorrido pelo
visitante. Seja uma criança ou um iniciado em artes plásticas, ele
terá o mesmo prazer de passar pelos módulos articulados, entrando
num microcosmo em que não há limites para a imaginação e onde o
jogo visual se faz muito presente.
Se as
cores utilizadas, valorizadas por uma iluminação adequada, obrigam
a refletir sobre a própria função da pintura na arte contemporânea,
a madeira estabelece uma ligação com a natureza, enquanto o
espelho tem o papel de estabelecer conexões múltiplas com o objeto
refletido.
Há
nele uma ambivalência, pois contém a imagem e, ao mesmo tempo, a
reproduz. Se a absorve e domina, a multiplica estabelecendo canais
com a imaginação de cada um. A imagem única se torna diversa e a
experiência de se ver reproduzido tantas vezes quanto possível faz
pensar sobre o próprio papel da reprodutibilidade da arte e do ser
humano.
Se
cada pessoa vive imersa num mundo de máscaras e indagações, a
instalação Labirintos traz ainda uma proposta adicional. Após
a abertura da exposição, em que os oito módulos de compensado,
cada um com duas placas articuladas, sendo cada uma delas em formato
de uma porta, estarão formando o mencionado labirinto, a proposta
é que, em cada dia, o conjunto seja montado de uma maneira.
Como
as placas são facilmente transportáveis (basta a força de duas
pessoas), o artista fará, para cada dia da exposição, uma
montagem diferente. Desse modo, em dez dias de exibição, serão
dez montagens diferentes dos painéis, com distintas concepções do
jogo de luz e de cor que o projeto comporta.
Acompanha
a montagem da exposição dez maquetes, em escala reduzida, em que a
disposição de cada dia estaria exposta para que o público
soubesse da riqueza visual da proposta e da potencialidade do
recursos dos módulos. Isso indica ainda as possibilidades da idéia,
com novas cores e materiais.
A
montagem, em uma área mínima aproximada de 40 m2 e o
custo de produção dos módulos, incluindo a colocação das fórmicas
e espelhos, em torno de R$ 5 mil, tornam o projeto viável e de
grande interesse para locais públicos por permitirem a interação
das pessoas.
Independendo
da idade ou da formação cultural, elas sentirão prazer estético
e lúdico ao conhecerem um labirinto que, em última análise, está
dentro delas, nos próprios caminhos do cérebro com as infinitas e
ainda não totalmente decifradas pela ciência ramificações dos
neurônios.
Labirintos
comporta
tantas possibilidades de montagem quanto de leituras. Compensado,
madeira, espelho, fórmica e cor se articulam em cada caminho e em
cada montagem proposta. Artistas e público interagem assim
diariamente, dentro de conceitos de arte contemporânea que
fascinaram criadores como Marcel Duchamp, que via artistas como
seres mediúnicos, e Hélio Oiticica, com seu Programa Ambiental, em
que as pessoas deveriam, de alguma maneira participar da obra.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto
de Artes da Unesp e integra a Associação Internacional de Críticos
de Artes (AICA – Seção Brasil).