por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

 

Koday László 

A integração entre homens e animais –

 

         Homens e animais não são seres de mundo totalmente distantes. A tradição ocidental, muitas vezes os coloca em compartimentos estanques, longe uns dos outros. No ambiente rural, no entanto, isso já se dilui, pois os camponeses trabalham ao lado dos animais domésticos, que integram seus hábitos, tradições e o próprio trabalho cotidiano.
Um boa forma de observar o resultado pictórico dessa relação é a pintura de Koday László. Nascido em 4 de junho de 1945, em Bénye, no condado de Pest, Hungria, sua família se estabeleceu em Monorierdö quando ele tinha seis anos. “Vivo aqui desde então. A leitura era a minha única diversão na infância. Levantava vôo de meu mundo triste graças à fantasia. Li todas as fábulas dos irmãos Grimm e Andersen. Gostava ainda das histórias de Mora Ferenc, Móricz Zsigmond e Jókai Mor. Literalmente mergulhava nos livros com caçadas nas selvas africanas e nos clássicos da literatura juvenil”, escreveu em dezembro de 1996.
         A vida de László esteve sempre marcada pelo trabalho duro. Até os 15 anos, trabalhou numa fábrica. Na época, não tinha nenhum tipo de instrução. Seu amor à arte, porém, o levou a escrever poemas e textos em prosas. Também fez esculturas e trabalhou com revelação de fotografia. “Meu talento para pintar desabrochou na escola. Sempre tirava as melhores notas em desenho e ficava livre dos exames finais devido ao bom desempenho que tinha ao longo do semestre”, lembra o artista.
         Não havia, no entanto, tempo para que Lázló se dedicasse à pintura. Passava a maior parte do dia trabalhando e, à noite, estudava, para conseguir progredir em seu ofício. Assim, se tornou polidor, em 1963; contra-mestre, em 1975; e gerente, desde 1985. Após trabalhar 32 anos no mesmo emprego, passou a se dedicar com maior afinco à pintura em 1990.
Nesse ínterim, principalmente nos anos 1960, László freqüentou diversas escolas de belas artes em busca de uma orientação para o seu talento, mas, como costuma acontecer com os autênticos naïfs, não conseguiu se adaptar e não foi bem recebido pelos professores. “Esses círculos de pintores eram inadequados para trazer à tona a individualidade, caracterizando-se pela forte orientação e seguimento cego dos professores que realizavam as correções, recorda.
         László não abriu mão, todavia, de buscar orientação para aprimorar o seu talento. Enquanto investia na carreira profissional, freqüentou inúmeros museus e todo tipo de exposição. “Comprei todos o livros que podia e, nas horas vagas, lia muito”, conta. “As cores brilhantes de Van Gogh, Gauguin e Csontváry me causaram forte impressão  e, principalmente, o conhecimento da vida e da obra de Henri Rousseau. Foi nele que, no começo dos anos 1980, encontrei minha forma de expressão, dentro das classificações de primitivo, naïf ou neo-primitivo”.
         Com sua vasta bagagem cultural, László identificou seu caminho em Rousseau, o “pai dos naïfs”. Atingiu então aquilo que caracteriza o seu estilo, ou seja, um meio termo entre o intelecto e a emoção. No início da carreira, o artista húngaro tinha praticamente um único tema, o povoado em que nasceu, mas, a partir dos anos 1990, começaram a surgir importantes alterações.
As tonalidades da paleta passaram a ser mais variadas e um universo de intensa fantasia ganhou um espaço antes inimaginado. Porcos vermelhos, cavalos manchados, ovelhas azuis e bodes cor-de-rosa saídos de contos de fadas passaram a ocupar as telas, gerando um mundo repleto de elementos oriundos de suas origens rurais..
Casas cobertas de juncos, cegonhas e pombas tornam-se símbolos recorrentes, simbolizando, respectivamente, dentro da tradição húngara, a solidez, a fertilidade e a paz. As árvores são um capítulo à parte, pois ganham características ornamentais, criando uma atmosfera paradisíaca, repleta de cor e harmonia.
Os quadros de László conseguem unir diversos elementos. Há, por um lado, humor pelas desproporções entre pessoas, animais e vegetação, algo que Rousseau também realizava. Por outro, ocorre uma retomada de tradições populares, principalmente as tarefas cotidianas. Ao fundir esses elementos, a maioria das telas funciona como um conto de fadas pictórico.
         Pessoas, animais e natureza são igualmente importantes, integrando-se em composições que se destacam pelas cores puras e brilhantes, em que cada figura tem seus contornos bem definidos, podendo facilmente ser isolada do todo. O conjunto provoca alegria no espectador, já que as imagens de aldeias mostram pessoas em tarefas cotidianas, indicando trabalho duro, mas sem sofrimento. Tem-se a impressão de que as tarefas rurais são o melhor caminho para a felicidade.
Um quadro como Bolondos tanya deixa isso bem claro. É possível ver um bode no telhado da casa, uma fada voando com roupa com as cores da Hungria, camponesas com roupas típicas do país e um delicioso balé de ausência de proporções, com flores maiores do que as pessoas. Isso, porém, não retira o equilíbrio da tela. Pelo contrário, essas imagens se integram a outras, como um trabalhador sobre o teto de um poço de água, um outro tentando subir numa árvore e árvores cor-de-rosa e cinza. Instaura-se assim um clima de sonho, em que não há mais fronteira entre o real e o imaginário.
Figyelö macskák é ainda mais rico em elementos. Na metade superior da tela, as árvores novamente merecem atenção especial. Em tom vermelho e rosa, cada uma apresenta, em seu topo, um charmoso gato com o rabo erguido, figura misteriosa que impregna a tela.
Há ainda os mencionados ninhos de cegonhas e um pombal. Para completar, camponeses e camponesas se espalham pela parte inferior do quadro. No meio, casinhas brancas, rodeadas por uma cerca  de madeira. Estamos, portanto, perante o microcosmos criativo de László, um universo em que a imaginação viaja livremente a partir das aldeias húngaras que tão bem conhece e reproduz com total liberdade.
 Perguntado sobre o objetivo de suas criações, László oferece a mesma resposta de muitos naïfs: “Criar uma realidade mais bonita do que aquela que existe, planejando um mundo de fantasia em que os desejos não realizados possam se concretizar. Fazer isso é o meu mundo. É onde me sinto bem”, resume o artista.
Assim, enquanto cria permite ao espectador uma jornada sem limites entre o chão que nossos pés pisam e a imaginação a que só se tem acesso por intermédio de grandes obras de arte, como as que László oferece em cada um de seus quadros, um rico exemplo de como a natureza, os animais e os seres humanos podem viver em idílica harmonia.
 
Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).      
 
 

 

 

 

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