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Jurandi Assis
Magia da cor
Um dos grandes desafios da arte está em
transformar as visões que se têm da própria aldeia em algo universal,
que possa ser comunicado a todos, independendo da nacionalidade, região
ou mesmo município de nascimento. As grandes imagens da história da
arte, assim como os mais importantes textos da literatura, conseguem
essa proeza.
Os trabalhos plásticos de Jurandi Assis
caminham nessa direção. Nascido em Santa Maria da Vitória, BA, em
1939, ele vem para a metrópole paulista aos 17 anos e consegue
desenvolver uma carreira como pintor marcada pela fidelidade aos temas
regionais de sua infância e, principalmente, pela forma como trabalha
as entradas de luz em sua obra
A pintura, em certos momentos, pelo jogo
cromático, chega inclusive a se aproximar das velaturas e
transparências próprias da aquarela. Independente da temática, o
artista consegue trazer para o seu trabalho, seja na pintura ou no
desenho, grande leveza, num tom de fino encantamento e delicadeza.
Mulheres com ou sem rosto, floristas e cenas
populares da cultura baiana, como a lavagem do Bonfim, ganham uma
dimensão renovada. Não são meras reproduções do real, mas
oportunidades do artista exercitar a sua técnica, desenvolvida ao longo
dos anos a partir de um determinado repertório de imagens.
Sambistas, pescadores e mercadores de cavalos
ganham assim uma dimensão quase mítica. O observador menos ingênuo
pode se deliciar justamente com as possibilidades cromáticas – e
menos com o referente concreto que ele encontra em cada imagem.
No que diz respeito aos assuntos enfocados pelo
artista baiano, um dos mais significativos, além dos citados, é o da
música. Mulheres com instrumentos musicais, por exemplo, compõem
universos em que ocorre a harmonia das cores e do imaginário som se
articulam em um universo marcado pela relação entre as nuances obtidas
por efeitos de luz.
Fiel aos temas de sua aldeia, do universo do
interior da Bahia, Jurandi Assis sabe como dar a cada desenho ou pintura
um toque pessoal num recurso pictórico que torna cada tela a
oportunidade de conhecer melhor como o artista articula blocos para
obter o efeito desejado. A atmosfera baiana que ele apresenta ao
observador, ao contrário do que parece num primeiro momento, não se
fecha no regionalismo.
O estilo de composição utilizado e o intenso
cromatismo apontam para o estabelecimento de uma realidade visual
própria, que extrapola a interpretação local, regional ou nacional,
adquirindo um valor universal, que encanta públicos de todas as
procedências, seja pelas imagens não habituais no Sudeste do País ou
pela maneira muito própria de dar ao seu talento uma dimensão
estética diferenciada.
Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a
Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e
é autor, entre outros, de Contando a arte de Claudio Tozzi (Noovha
América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro
de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).