por Oscar D'Ambrosio


 

 


Juraci Dórea

 

            A terra de todos nós

 

            Existe o grande risco de reduzir o trabalho do artista plástico baiano Juraci Dórea à magnitude encantadora de seu Projeto Terra, que consiste na instalação de grandes esculturas em couro e madeira nos descampados e nas encruzilhadas do sertão do Estado da Bahia.

            Essa saga, formada por aproximadamente 40 esculturas, realizadas a partir de 1981, inclui a utópica e fascinante idéia de transformar o sertão baiano num imenso museu ao ar livre, já que ele escolhe o local de suas esculturas motivado por fortes referências da cultura sertaneja.

Não é por acaso que as quatro primeiras cidades que receberam esculturas do Projeto Terra foram Feira de Santana, ligada ao ciclo do couro; Canudos e Monte Santo, vinculadas ao messianismo de Antonio Conselheiro, numa região de clima árido, chão pedregoso e gravetos retorcidos; e Raso da Catarina, estação ecológica próxima da cidade mística de Santa Brígida, local das aventuras de Lampião e seu bando.

Em paralelo a essa atividade, Dórea desenvolve uma série de cenas brasileiras com diversas técnicas nas quais apresenta o rico universo imagético do sertão baiano. Essa faceta, às vezes  deixada um pouco de lado em função da grandiosidade do Projeto Terra, revela um conhecimento visual sobre a vida em povoados ou vilas, com suas manifestações festivas e lúdicas, que incluem tocadores de pífaros e sanfoneiros.

Enquanto os trabalhos do Projeto Terra não saem do sertão, sendo destruídos pela ação do tempo, as outras manifestações permitem ser transportadas e ganham ainda um significado mais forte quando colocadas ao lado dos documentos fotográficos das obras do Projeto.

A tentativa de caracterização de Dórea como um representante da arte ecológica (earth ou land art) ou da arte povera (pelo uso de materiais pobres) parece limitadora, pois não abrange o que há de essencial no artista: uma identificação cultural e paisagística com a região, principalmente utilizando as matérias-primas mais comuns do sertanejo, como o couro e a madeira.

As esculturas realizadas no sertão são geralmente três peles inteiras e uns seis caibros (pedaços de madeira usados em telhados, sobre os quais se pregam as ripas para, a seguir, serem assentadas as telhas) de cerca de 3 metros de altura. Estabelece-se assim  uma multiplicidade de posicionamentos em função de duas variáveis: a geográfica (o tipo de solo) e a estética (criatividade e senso de composição do artista).

Em relação às pinturas, ganham, no sertão, sentidos impensáveis numa galeria de arte. São exibidas em feiras regionais, murais ou paredes de residências de moradores locais. Carvão, breu e tinta preparada com pigmentos terrosos são aplicados sobre tela comum ou sobre o couro, sendo principal expoente dessa vertente o Mural da Casa de Edwirges, próximo ao povoado do Saco Fundo, Monte Santo, feito em 1984.

Nas esculturas do Projeto Terra, em perene transformação pelo sertão, e em seus trabalhos sobre numerosos suportes, associados a uma estética que valoriza o universo do interior nordestino e a estética e as temáticas da literatura de cordel, Juraci Dórea revela um admirável entendimento da vida sertaneja e de suas necessidades. Alcança, porém, tamanha profundidade nesse raciocínio, que a terra que ali apresenta não é só a do sertanejo, mas a de todos nós.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

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 Fantasia sertaneja 20
carvão e PVA sobre papelão 80 x 100 cm 1986

 Juraci Dórea

 

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