por Oscar D'Ambrosio


 

 


Júnia Bittencourt

 

            Senhora das membiras

           

            “... adoraria usar nós./ Mas nós me dei”. Ao escrever esses versos, publicados no livro Ousadia, a artista plástica e poeta Júnia Bittencourt mostra bem a sua proposta poética e estética. A sua temática está justamente nos encontros e desencontros de nós existenciais e imagéticos.

            Nascida em Casa Branca, Júnia Bittencourt mudou com a família para Jundiaí aos 3 anos e reside nesse município desde então. Em 2002, quando o casal de filhos começou a alçar vôo próprios, passou a desenvolver um trabalho com tinta para tecidos sobre bloco de papel canson.

No início, foram silhuetas femininas e flores estilizadas. Em seguida, surgiram as cobras, batizadas de membiras (filho e filha em tupi-guarani). Essa temática, em termos plásticos, oferece múltiplas possibilidades de movimento e de trabalho com texturas e cores.

            A partir de sua imersão no mundo da arte, Júnia conheceu artistas plásticos como Miguel Coelho, de Niterói, Rio de Janeiro, e Jo Lazar, de Jundiaí, SP. Ambos foram importantes no sentido de estimular a artista a explorar ao máximo a liberdade de experimentar, seja, inicialmente, com a tinta para tecido e, posteriormente, com tinta acrílica e óleo.

            Uma característica comum a esses trabalhos é justamente a fluência do movimento das cobras. Por não terem braços ou pernas, são regidas pelo número um. Isso faz com que surjam como linhas a preencher a tela. Assumem as mais variadas disposições, às vezes com a cabeça em evidência.

Outras vezes, é o corpo ou a cauda que ganha destaque. O menos importante é a figura em si mesma, pois o jogo artístico está justamente na forma como a artista preenche o espaço, às vezes com mais e outras vezes com menos elementos. É no interior de cada um deles que se estabelece a magia.

Cada cobra tem personalidade própria em função do trabalho artístico que carrega em seu longo ventre e na sua arredondada cabeça. Essa estética torna-se ainda mais fascinante quando o fundo é apresentado de formas variadas, com uma técnica próxima ao pontilhismo ou de maneira quadriculada.

            As imagens não se restringem ao horizontal que as cobras podem sugerir num primeiro momento. Elas também aparecem na vertical e na forma de arcos, num permanente estudo das potencialidades da cobra como objeto estético. Essa fascinação pela pesquisa faz com que o referente concreto (a cobra) possa ser utilizada pela artista sem o risco de esgotamento.

            Uma prova disso é que as serpentes aparecem em alguns trabalhos combinados a outros elementos, como sol, lua e até mesmo um pagode chinês. Até os anos 1960 são homenageados, com cobras psicodélicas em suas cores e posições. O mais fascinante é que elas surgem sempre como elementos interrogantes à imaginação do observador.

É justamente nos encontros entre os nós que dá a si mesma e na capacidade interpretativa de quem contempla as telas que o trabalho de Júnia Bittencourt ganha forma. Senhora de suas membiras, a pintora oferece um arte aparentemente ingênua, mas densa em seu poder de pesquisar as múltiplas possibilidades combinatórias de um dos seres mais fascinantes da natureza: as cobras, que, em sua falsa simplicidade unitária, constituem um desafio quase intransponível para os dialéticos humanos.  

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

 

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acrílica sobre tela - 50 cm x 40 cm - sem data

Júnia Bittencourt

 

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