Julio Minervino
O narrador de
estradas
Há
artistas
plásticos
que
são
contadores
visuais de
histórias, e
elas
são proporcionalmente
mais
fascinantes
quando surgem
mais
escondidas,
em
trabalhos
que,
aparentemente
mais minimalistas
ou conceituais, desvendam
um
universo de significações
muito
pessoal, intimista,
povoado de recordações.
Esse e o
caso de Julio Minervino. A
base de
seu
pensamento
plástico está nas
imagens cuidadosamente guardadas na
memória. Nascido
em
Catanduva,
onde passou
toda a
infância e a
adolescência
até
estudar
em
São Paulo, na Faap,
onde cursou
Desenho
Industrial, desenvolve uma
linguagem
em
que dá
vazão a
um
baú de guardados de
um
interior praticamente
extinto, devorado
pela mecanização e
pela modernidade.
Ao
realizar
seu
mestrado
em
Arte,
Educação e
História da
Cultura
pela
Universidade
Presbiteriana Mackenzie, podia
parecer
que o
artista se afastava dessas
origens,
mas, ao
realizar
objetos, assemblages e
pinturas, resgatando
coisas e
fragmentos do
cotidiano, constrói uma
poética
que tem
como
base
justamente o
poder de
seleção e
reconstrução
em
tons
mais
sóbrios,
repletos de
cinzas.
O
século XXI traz uma
nova
caminhada na
arte de Minervino. O mergulho na
própria
memória
visual é
agora
mais
evidente e ocorre
em diversas
técnicas. Seja
com
bastão
oleoso
sobre
papel
ou
em
óleo
sobre
tela, surge
com
força
um
universo de
imagens de
um
interior decadente,
mas
lírico.
Isso é
feito,
porém,
com
um
humor
mordaz, às
vezes
negro,
em
que aparecem,
por
exemplo,
galinhas e
outros
animais
sem
cabeça
ou
com a
parte
superior do
corpo
enfiada
em
troncos, funcionando
como
metáforas de
seres perdidos e torturados numa
realidade
que
não entendem e da
qual
não conseguem se
livrar.
Há uma
poética das
coisas
que merece
observação
atenta.
Objetos
antigos encontrados
em
depósitos e
galpões do
interior – e
também inventados – surgem numa
atmosfera
ocre, caracterizada
justamente
por uma
certa
nostalgia,
mas, ao
mesmo
tempo,
por uma
técnica apurada
em
que o
modo de
tratar os
materiais tem
relação
direta
com
aquilo
que surge nas
imagens,
principalmente os
galpões
antigos,
engenhocas
sem
uso e
cães e
urubus
solitários
em
meio a
amplos
horizontes.
O
contraponto
plástico desse
universo de
tons
mais
sóbrios é encontrado nas
telas de
maiores
proporções
em
que a
temática da
memória se mantém,
mas
agora
com
um
intenso
trabalho
com as
cores primárias,
não
misturadas, e o
uso das secundárias
para
gerar
efeitos de
tridimensionalidade,
ora
mais
sutil,
ora
mais
evidente.
A
homenagem
explícita ao
pintor primitivista José Antônio da Silva
justifica-se
não
apenas
pela
questão do
uso das
cores puras,
mas
por
estar
repleto de
autenticidade,
já
que se
trata de
um
depoimento
visual de uma
leitura do
mundo marcado
pela
preservação da
memória.
Estão
ali
cruzes de
pessoas falecidas na
estrada,
carros
batidos,
frases encontradas
em
caminhão e,
acima de
tudo,
caminhos.
São
eles
que relacionam muitas
cenas e instauram uma
atmosfera
lúdica,
em
que há
espaço
para
aviões e
para a tradicional
figura
interiorana de
andarilho, a
percorrer
veredas
com uma
trouxa
com
seus
poucos
pertences.
Chamado de “homem
do
saco”
por Minervino,
esse
personagem aparece
em
meio a
fábricas,
cercas e
um
macrocosmo
afetivo,
mas facilmente reconhecível
para
quem percorre o
interior
paulista
ou
para
quem,
assim
como o
artista, possui
um
poder de
seleção
que
lhe permite
combinar uma
imagem
familiar,
por
exemplo,
com
seres
fantásticos ligados ao
imaginário
popular
ou a
cenas de
violência
vistas
ou imaginadas.
O
conjunto dessas
pinturas de
cores
vivas impressiona
pelo
poder de
evocação de
histórias e pelas
soluções
visuais
que dialogam
com
outros
trabalhos,
como as
fotografias
digitais, colocadas
em
caixinhas de Cd
com
pneus de borracharias. Está
ali
também
presente o
olhar
que perscruta a
realidade e produz, seja
com
pincel e
tinta
ou
por
intermédio do
visor de uma
câmara, uma
leitura
atenta e,
acima de
tudo,
crítica.
A plasticidade
de Julio Minervino está no
poder de
escolher
imagens. Estejam
elas na
sua
cidade
natal, nas
estradas
ou
perto de
sua
casa, o
que o define
melhor
como
artista
plástico é o
jogo de
saber,
ver,
selecionar e
remontar. A
diversidade de
suportes e
técnicas
apenas enfatiza a
sua
capacidade de
narrar
histórias
por uma
estrada, a da
própria
existência,
mas
sem
passividade,
com mordacidade e
um
esgar
cético
nos
lábios.