por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Julio Minervino

 

            O narrador de estradas

 

            Há artistas plásticos que são contadores visuais de histórias, e elas são proporcionalmente mais fascinantes quando surgem mais escondidas, em trabalhos que, aparentemente mais minimalistas ou conceituais, desvendam um universo de significações muito pessoal, intimista, povoado de recordações.

            Esse e o caso de Julio Minervino.  A base de seu pensamento plástico está nas imagens cuidadosamente guardadas na memória. Nascido em Catanduva, onde passou toda a infância e a adolescência até  estudar em São Paulo, na Faap, onde cursou Desenho Industrial, desenvolve uma linguagem em quevazão a um baú de guardados de um interior praticamente extinto, devorado pela mecanização e pela modernidade.

            Ao realizar seu mestrado em Arte, Educação e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, podia parecer que o artista se afastava dessas origens, mas, ao realizar objetos, assemblages e pinturas, resgatando coisas e fragmentos do cotidiano, constrói uma poética que tem como base justamente o poder de seleção e reconstrução em tons mais sóbrios, repletos de cinzas.

            O século XXI traz uma nova caminhada na arte de Minervino. O mergulho na própria memória visual é agora mais evidente e ocorre em diversas técnicas. Seja com bastão oleoso sobre papel ou em óleo sobre tela, surge com força um universo de imagens de um interior decadente, mas lírico.

            Isso é feito, porém, com um humor mordaz, às vezes negro, em que aparecem, por exemplo, galinhas e outros animais sem cabeça ou com a parte superior do corpo enfiada em troncos, funcionando como metáforas de seres perdidos e torturados numa realidade que não entendem e da qual não conseguem se livrar.

            Há uma poética das coisas que merece observação atenta. Objetos antigos encontrados em depósitos e galpões do interior – e também inventados –  surgem numa atmosfera ocre, caracterizada justamente por uma certa nostalgia, mas, ao mesmo tempo, por uma técnica apurada em que o modo de tratar os materiais tem relação direta com aquilo que surge nas imagens, principalmente os galpões antigos, engenhocas sem uso e cães e urubus solitários em meio a amplos horizontes.

            O contraponto plástico desse universo de tons mais sóbrios é encontrado nas telas de maiores proporções em que a temática da memória se mantém, mas agora com um intenso trabalho com as cores primárias, não misturadas, e o uso das secundárias para gerar efeitos de tridimensionalidade, ora mais sutil, ora mais evidente.

            A homenagem explícita ao pintor primitivista José Antônio da Silva justifica-se não apenas pela questão do uso das cores puras, mas por estar repleto de autenticidade, que se trata de um depoimento visual de uma leitura do mundo marcado pela preservação da memória.

            Estão ali cruzes de pessoas falecidas na estrada, carros batidos, frases encontradas em caminhão e, acima de tudo, caminhos. São eles que relacionam muitas cenas e instauram uma atmosfera lúdica, em queespaço para aviões e para a tradicional figura interiorana de andarilho, a percorrer veredas com uma trouxa com seus poucos pertences.

            Chamado de “homem do sacopor Minervino, esse personagem aparece em meio a fábricas, cercas e um macrocosmo afetivo, mas facilmente reconhecível para quem percorre o interior paulista ou para quem, assim como o artista, possui um poder de seleção que lhe permite combinar uma imagem familiar, por exemplo, com seres fantásticos ligados ao imaginário popular ou a cenas de violência vistas ou imaginadas.

            O conjunto dessas pinturas de cores vivas impressiona pelo poder de evocação de histórias e pelas soluções visuais que dialogam com outros trabalhos, como as fotografias digitais, colocadas em caixinhas de Cd com pneus de borracharias. Está ali também presente o olhar que perscruta a realidade e produz, seja com pincel e tinta ou por intermédio do visor de uma câmara, uma leitura atenta e, acima de tudo, crítica.

            A plasticidade de Julio Minervino está no poder de escolher imagens. Estejam elas na sua cidade natal, nas estradas ou perto de sua casa, o que o define melhor como artista plástico é o jogo de saber, ver, selecionar e remontar. A diversidade de suportes e técnicas apenas enfatiza a sua capacidade de narrar histórias por uma estrada, a da própria existência, mas sem passividade, com mordacidade e um esgar cético nos lábios.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

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bastão oleoso sobre papel reciclado feito a mão 47x65 cm 2000

Julio Minervino

 

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