Julio Le Parc
O
eterno movimento
"Entretanto,
move-se". Essas palavras atribuídas ao astrônomo e físico
italiano Galileu Galilei (1564-1643) são uma excelente porta de
entrada para o universo plástico do artista argentino Julio Le
Parc. Um dos grandes nomes mundiais da arte cinética, ele se
caracteriza pela coerência em aproximar a arte do público sem,
por isso, cair no didatismo ou na superficialidade.
Conta-se
que o cientista italiano murmurou essas palavras após ter sido
forçado a abjurar o sistema heliocêntrico de Copérnico diante
do Tribunal da Inquisição. Num período em que dizer que a Terra
girava em volta do sol podia levar à fogueira, Galileu, para
conservar a própria vida, renegou seus escritos com essas idéias,
mas teria reafirmado, em voz baixa, seu conceito inabalável de
que o astro rei estava no centro do universo e que a Terra era
apenas um dos planetas em movimento ao seu redor.
Le
Parc e Galileu têm dois elementos comuns: ambos estudam o
movimento e defendem seus ideais. Mesmo em condições adversas,
sobreviveram e levam seu pensamento, inteligência e força
criativa pelo mundo. Em épocas totalmente diferentes, enfrentaram
dificuldades, mas não se deixaram vencer moralmente.
Reunidas sob o título Retrospectivamente,
as 33 obras de Le Parc expostas na Nara Roesler Galeria se
caracterizam justamente pela impermanência e pela mutação. Elas
constituem o panorama de uma viagem por aquilo que sempre está em
mutação, seja a forma, a luz ou a cor. Na concepção do
artista, tudo muda, nada permanece igual se visto com olhos
atentos.
A
obra que mais chama a atenção, não só pelas suas proporções
(250 x 400 x 400 cm), mas pelo impacto visual e simbólico é Lumière
verticale visualisée (1978). Trata-se de uma instalação
constituída por panos de tule esticados na vertical e um aparelho
luminoso com seu foco emissor em constante movimento.
A
sensação para alguns é a de estar caminhando nas nuvens; para
outros, de percorrer o caminho do Purgatório rumo ao Paraíso; e
há ainda os que aproveitam o instante como um ato lúdico. O
importante é que Le Parc consegue um efeito revelador das
infinitas possibilidades da luz e do movimento.
Há
poesia nos trabalhos do artista argentino. Um outro exemplo é Forme
em contorsion (1966), em que motores movimentam uma lâmina de
mental em sucessivas curvas, que projetam sua dinâmica sombra
sobre uma tela. Mais uma vez, é a inconstância que predomina.
As
experimentações de Le Parc são realizadas ainda em tinta acrílica
sobre tela ou madeira. Sua busca constante é por gerar inquietação
no observador. Angles progressifs (1960), por exemplo,
trabalha com círculos sobre um fundo preto, formando ângulos
irregulares, enquanto Rotation de carrés (1959/91)
apresenta 81 círculos brancos sobre o mesmo número de quadrados
pretos, colocados uns em relação aos outros de maneira levemente
desequilibrada, transmitindo instabilidade e dinamismo.
Dinamismo,
de fato, é a melhor palavra para definir não só o trabalho de
Le Parc como sua biografia. Filho de um ferroviário, nasceu em
1928, em Mendoza, na Argentina. Emancipado aos 13 anos, seguiu uma
trajetória absolutamente pessoal. Foi aprendiz de courtume, operário
metalúrgico, porteiro de teatro, ator e andarilho pelo interior
da Argentina.
A passagem de Le Parc
pela Escola de Belas Artes de Buenos Aires também foi tumultuada.
Em 1947, ele abandonou a instituição, mas retornou em 1955.
Nesse período, participou ainda do grupo marxista Arte Concreta
Invenção, liderado pelo compatriota Lucio Fontana e de
movimentos estudantis, conhecendo assim sua futura esposa Martha,
também artista plástica, que desenvolve trabalho com tapeçarias.
Todas
essas aventuras surgem, escondidas, em seu trabalho. Não se trata
de uma mera aproximação entre vida e obra, mas da constatação
de que o dinamismo de linhas e de metais e madeira presente em
suas obras surge como um espelho de uma biografia que tem a busca
constante de soluções estéticas como fator artístico
motivador.
Graças
a uma bolsa do serviço cultural francês, o artista, junto com
Martha, viaja a Paris, onde participa, em 1960, da fundação do
Groupe de Recherche d’Art Visuel (Grav), um autêntico movimento
que, vinculado à arte cinética, criada em 1955, buscava
aproximar as pessoas das cores e das formas, realizando apresentações
e exposições em lugares alternativos e mesmo nas ruas.
Nos
anos 1960, a carreira de Le Parc teve momentos memoráveis. Em
1966, por exemplo, recebeu o Grande Prêmio de Pintura na Bienal
de Veneza e, no ano seguinte, além de participar da 9ª Bienal de
São Paulo, a Ordem do Cavaleiro das Artes, de André Malraux,
ministro da Cultura da França.
A década deixou
marcas. Com firmes posições políticas, Le Parc se opôs ao
peronismo na Argentina. Em 1968, após tomar parte das manifestações
estudantis de maio, Le Parc foi expulso da França e, no ano
seguinte, em pleno vigor da ditadura militar, participou do
boicote à Bienal de São Paulo. Essa atuação política
constante e coerente, que lhe rendeu duas prisões, surge
dinamicamente retratada em uma obra artística visualmente densa
de significado, mas de agradável e rápida aceitação pelo público,
principalmente pelo que existe nela de lúdico.
Um exemplo é a série Alquimia.
Le Parc trabalha o acrílico sobre tela de modo a criar espaços
coloridos que parecem fogos do artifício lançados num céu
escuro. A riqueza cromática impressiona e alude justamente ao
constante movimento dos olhos em busca de respostas para o
poderoso estímulo visual.
Considerando a alquimia
a busca eterna da pedra filosofal, as imagens do artista plástico
argentino evocam essa jornada medieval e renascentista pela
escuridão para alcançar a luz primordial, materializada na pedra
que seria capaz de transformar tudo em ouro.
Nessa série, Le Parc
atinge uma alquímica mescla de significados. O resultado embala o
observador numa atmosfera de sonhos, em que o espectador é
tragado pelo poder da imagem e pelo encantamento das cores que se
entrelaçam. O desejo é o de permanecer eternamente olhando para
essas autênticas mandalas contemporâneas em busca do próprio
ser e do nosso significado.
Julio Le Parc tem uma
atuação política ativa e comprometida que não deixa o público
distante de sua arte. Em conseqüência, sua arte dialoga
abertamente nas galerias com quem a contempla. A interação
ocorre pelo ludismo e riqueza imagética. Não há como ficar
indiferente perante suas criações, que têm na luz, no movimento
e na pesquisa formal e criatividade seus principais alicerces.
Superfícies planas e
modulações de tinta acrílica sobre tela, relevos de madeira e
plástico, contínuos móbiles, deslocamentos de metal e madeira
com motores, contorções em madeira e metal, luz em jogos com
inox e tule, e a série Alquimias são mostras do trabalho
de Le Parc como um expoente da arte cinética e de uma ímpar
riqueza plástica.
Se Galileu Galilei,
mesmo cerceado pela Inquisição, murmurou que a Terra se movia,
Julio Le Parc levou para o seu trabalho essa máxima macrocósmica
numa realidade cotidiana. Suas telas, trabalhos com técnica mista
ou instalações lidam justamente com o conceito de que o
movimento é eterno, mas é necessário ser um mestre para saber
como e onde isolá-lo para que ganhe dimensão estética.
O artista argentino
enfrenta esse desafio com naturalidade e obriga o espectador a
refletir. Sua arte é um mergulho na estética do movimento e nas
suas múltiplas possibilidades, sempre dentro do conceito maior de
que "a arte tem que ir aonde o povo está". Sem entender
isso como banalização, mas como uma luta eterna para aprimorar
sua linguagem plástica, Le Parc oferece assim o melhor de si e o
coloca à vista do público, seja na rua, em galerias ou outros
espaços. Assim, espectador e criador, mediados pela obra,
concretizam o fenômeno da arte.