por Oscar D'Ambrosio


 

 


Julio Le Parc

        O eterno movimento

       

        "Entretanto, move-se". Essas palavras atribuídas ao astrônomo e físico italiano Galileu Galilei (1564-1643) são uma excelente porta de entrada para o universo plástico do artista argentino Julio Le Parc. Um dos grandes nomes mundiais da arte cinética, ele se caracteriza pela coerência em aproximar a arte do público sem, por isso, cair no didatismo ou na superficialidade.

        Conta-se que o cientista italiano murmurou essas palavras após ter sido forçado a abjurar o sistema heliocêntrico de Copérnico diante do Tribunal da Inquisição. Num período em que dizer que a Terra girava em volta do sol podia levar à fogueira, Galileu, para conservar a própria vida, renegou seus escritos com essas idéias, mas teria reafirmado, em voz baixa, seu conceito inabalável de que o astro rei estava no centro do universo e que a Terra era apenas um dos planetas em movimento ao seu redor.

        Le Parc e Galileu têm dois elementos comuns: ambos estudam o movimento e defendem seus ideais. Mesmo em condições adversas, sobreviveram e levam seu pensamento, inteligência e força criativa pelo mundo. Em épocas totalmente diferentes, enfrentaram dificuldades, mas não se deixaram vencer moralmente.

Reunidas sob o título Retrospectivamente, as 33 obras de Le Parc expostas na Nara Roesler Galeria se caracterizam justamente pela impermanência e pela mutação. Elas constituem o panorama de uma viagem por aquilo que sempre está em mutação, seja a forma, a luz ou a cor. Na concepção do artista, tudo muda, nada permanece igual se visto com olhos atentos.

        A obra que mais chama a atenção, não só pelas suas proporções (250 x 400 x 400 cm), mas pelo impacto visual e simbólico é Lumière verticale visualisée (1978). Trata-se de uma instalação constituída por panos de tule esticados na vertical e um aparelho luminoso com seu foco emissor em constante movimento.

        A sensação para alguns é a de estar caminhando nas nuvens; para outros, de percorrer o caminho do Purgatório rumo ao Paraíso; e há ainda os que aproveitam o instante como um ato lúdico. O importante é que Le Parc consegue um efeito revelador das infinitas possibilidades da luz e do movimento.

        Há poesia nos trabalhos do artista argentino. Um outro exemplo é Forme em contorsion (1966), em que motores movimentam uma lâmina de mental em sucessivas curvas, que projetam sua dinâmica sombra sobre uma tela. Mais uma vez, é a inconstância que predomina.

        As experimentações de Le Parc são realizadas ainda em tinta acrílica sobre tela ou madeira. Sua busca constante é por gerar inquietação no observador. Angles progressifs (1960), por exemplo, trabalha com círculos sobre um fundo preto, formando ângulos irregulares, enquanto Rotation de carrés (1959/91) apresenta 81 círculos brancos sobre o mesmo número de quadrados pretos, colocados uns em relação aos outros de maneira levemente desequilibrada, transmitindo instabilidade e dinamismo.

        Dinamismo, de fato, é a melhor palavra para definir não só o trabalho de Le Parc como sua biografia. Filho de um ferroviário, nasceu em 1928, em Mendoza, na Argentina. Emancipado aos 13 anos, seguiu uma trajetória absolutamente pessoal. Foi aprendiz de courtume, operário metalúrgico, porteiro de teatro, ator e andarilho pelo interior da Argentina.

A passagem de Le Parc pela Escola de Belas Artes de Buenos Aires também foi tumultuada. Em 1947, ele abandonou a instituição, mas retornou em 1955. Nesse período, participou ainda do grupo marxista Arte Concreta Invenção, liderado pelo compatriota Lucio Fontana e de movimentos estudantis, conhecendo assim sua futura esposa Martha, também artista plástica, que desenvolve trabalho com tapeçarias.

        Todas essas aventuras surgem, escondidas, em seu trabalho. Não se trata de uma mera aproximação entre vida e obra, mas da constatação de que o dinamismo de linhas e de metais e madeira presente em suas obras surge como um espelho de uma biografia que tem a busca constante de soluções estéticas como fator artístico motivador.

        Graças a uma bolsa do serviço cultural francês, o artista, junto com Martha, viaja a Paris, onde participa, em 1960, da fundação do Groupe de Recherche d’Art Visuel (Grav), um autêntico movimento que, vinculado à arte cinética, criada em 1955, buscava aproximar as pessoas das cores e das formas, realizando apresentações e exposições em lugares alternativos e mesmo nas ruas.

        Nos anos 1960, a carreira de Le Parc teve momentos memoráveis. Em 1966, por exemplo, recebeu o Grande Prêmio de Pintura na Bienal de Veneza e, no ano seguinte, além de participar da 9ª Bienal de São Paulo, a Ordem do Cavaleiro das Artes, de André Malraux, ministro da Cultura da França.

A década deixou marcas. Com firmes posições políticas, Le Parc se opôs ao peronismo na Argentina. Em 1968, após tomar parte das manifestações estudantis de maio, Le Parc foi expulso da França e, no ano seguinte, em pleno vigor da ditadura militar, participou do boicote à Bienal de São Paulo. Essa atuação política constante e coerente, que lhe rendeu duas prisões, surge dinamicamente retratada em uma obra artística visualmente densa de significado, mas de agradável e rápida aceitação pelo público, principalmente pelo que existe nela de lúdico.

Um exemplo é a série Alquimia. Le Parc trabalha o acrílico sobre tela de modo a criar espaços coloridos que parecem fogos do artifício lançados num céu escuro. A riqueza cromática impressiona e alude justamente ao constante movimento dos olhos em busca de respostas para o poderoso estímulo visual.

Considerando a alquimia a busca eterna da pedra filosofal, as imagens do artista plástico argentino evocam essa jornada medieval e renascentista pela escuridão para alcançar a luz primordial, materializada na pedra que seria capaz de transformar tudo em ouro.

Nessa série, Le Parc atinge uma alquímica mescla de significados. O resultado embala o observador numa atmosfera de sonhos, em que o espectador é tragado pelo poder da imagem e pelo encantamento das cores que se entrelaçam. O desejo é o de permanecer eternamente olhando para essas autênticas mandalas contemporâneas em busca do próprio ser e do nosso significado.

Julio Le Parc tem uma atuação política ativa e comprometida que não deixa o público distante de sua arte. Em conseqüência, sua arte dialoga abertamente nas galerias com quem a contempla. A interação ocorre pelo ludismo e riqueza imagética. Não há como ficar indiferente perante suas criações, que têm na luz, no movimento e na pesquisa formal e criatividade seus principais alicerces.

Superfícies planas e modulações de tinta acrílica sobre tela, relevos de madeira e plástico, contínuos móbiles, deslocamentos de metal e madeira com motores, contorções em madeira e metal, luz em jogos com inox e tule, e a série Alquimias são mostras do trabalho de Le Parc como um expoente da arte cinética e de uma ímpar riqueza plástica.

Se Galileu Galilei, mesmo cerceado pela Inquisição, murmurou que a Terra se movia, Julio Le Parc levou para o seu trabalho essa máxima macrocósmica numa realidade cotidiana. Suas telas, trabalhos com técnica mista ou instalações lidam justamente com o conceito de que o movimento é eterno, mas é necessário ser um mestre para saber como e onde isolá-lo para que ganhe dimensão estética.

O artista argentino enfrenta esse desafio com naturalidade e obriga o espectador a refletir. Sua arte é um mergulho na estética do movimento e nas suas múltiplas possibilidades, sempre dentro do conceito maior de que "a arte tem que ir aonde o povo está". Sem entender isso como banalização, mas como uma luta eterna para aprimorar sua linguagem plástica, Le Parc oferece assim o melhor de si e o coloca à vista do público, seja na rua, em galerias ou outros espaços. Assim, espectador e criador, mediados pela obra, concretizam o fenômeno da arte.


 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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