Juerones D. Dias
Intensidade visual
O
poeta Francisco Carvalho descreveu o Nordeste de modo inesquecível
em versos como: “Os homens não são homens:/ são restos de um
pesadelo de Deus./ As árvores não são árvores:/ são braços
esgalhados como vértebras. // O sol é um histrião/ que
enlouqueceu na ribalta./ Um povo de fantasmas/ com seu punhal de
lágrimas.”
As
palavras nos remetem à seca e ao sofrimento do Nordeste, mas
também a certas imagens expressionistas e surrealistas, pois
apontam para elementos próprios dessa arte, como objetos que não
parecem ser o que deveriam, partes do corpo deformadas, estrelas
em representações inovadoras, imagens de loucura, fantasmagóricas
ou violentas.
Tudo
isso é possível encontrar nas telas de Juerones D. Dias,
artista que reúne elementos que o aproximam do que há de melhor
em termos de uma expressividade sincera oriunda de uma realidade
difícil enfrentada com muito amor à vida e a própria arte.
Suas telas são mais que um documento da dor nordestina.
Guardando as proporções, são, como a prosa de Graciliano Ramos
em Vidas secas, um grito de dor de intensa força artística
e social.
Nascido
em Ibiaporã, distrito de Mundo Novo, Estado da Bahia, em 14 de
novembro de 1974, Juerones D. Dias começou a desenhar e pintar
com oito anos em papéis e cartolina, além de realizar
esculturas em madeira. Oriundo de família pobre, trabalhou desde
cedo para ajudar os pais na lavoura, como diarista na plantação
e colheita de café e feijão.
Foi
justamente nessa atividade, contemplando o sofrimento alheio e as
próprias dificuldades, que teve a necessidade interior de
produzir os seus primeiros trabalhos artísticos. Não foram
poucas as vezes que pediu dinheiro emprestado ou viajou em
pau-de-arara para municípios próximos para comprar pincéis,
tintas e telas.
Assim,
após o trabalho extenuante no campo, pintava, à noite, sob a
fraca iluminação de um lampião ou mesmo de uma vela. O destino
pregou mais uma peça a Juerones em 24 de julho de 2000, quando
um incêndio destruiu a sua casa, na qual tinha um pequeno espaço
para uso como ateliê.
O
artista perdeu dessa maneira o que tinha produzido até então.
Houve um natural abatimento, mas a força de prosseguir foi
maior. Ele recomeçou a sua produção, mas guardava tudo o que
pintava em um quarto escuro, como se assim pudesse proteger os
seus trabalhos do mundo.
As
obras só vieram à tona graças à intervenção do amigo e também
artista Marcos Oliveira. Ao ver tantos trabalhos escondidos, ele
aconselhou Juerones a abrir as janelas. Foi um momento de iluminação
existencial e de renascimento cultural para o jovem artista que
sentiu, naquele momento, a importância de levar o seu trabalho
para o município, o Estado, o País e – por que não? – o
mundo.
Recebendo
o apoio das autoridades municipais, Juerones realizou exposições
em cidades baianas como Mundo Novo, Jacobina e Salvador, onde
mostrou suas imagens de sonhos próximos ao surrealismo,
fisionomias expressionistas e delírios poéticos sobre paisagens
nordestinos.
O
quadro Nascimento da vida, de 2001, é o que melhor
expressa essas diversas tendências da obra de Juerones. No canto
superior esquerdo, dentro de um círculo preto, está uma estrela
amarela que contém a sua rubrica – as letras J e D entrelaçadas
– enquanto a assinatura propriamente dita está no canto
inferior direito.
Entre
as duas, é possível traças uma linha diagonal. Do lado
superior, surge então um rosto azul, com lábios carnudos
vermelhos, longa cabeleira negra e aura branca, no melhor estilo
expressionista. O pescoço branco ganha intensidade pelo
contraste com o braço cinzento e pelas veias vermelhas em
destaque.
Na
outra metade, surge a vegetação nordestina ressequida em tons
quentes. Os seios brancos com contorno negro e veias vermelhas da
personagem em destaque remetem à falta de leite e à dificuldade
de amamentação numa sociedade marcada pela dor.
Entre
as mãos da mulher, surge um bebê. Estaria ele dentro da barriga
ou já nos braços da mãe, que o carregaria no colo? Isso tem
pouca importância. O fato estético é o movimento côncavo da mão
da moça no ato de proteger a sua criança. Ele dá harmonia ao
quadro, pois repete a circularidade presente na cabeça da
mulher.
Telas
como O beijo azul mostram bem algumas dessas características
de Juerones, principalmente no que diz respeito ao uso da cor
azul com um tom bastante peculiar e a estrutura bem definida e
equilibrada, com contornos negros e auras sobre as cabeças das
personagens.
Algo
semelhante ocorre em Ilusão da noite, em que misteriosas
figuras, intermediárias entre anjos e demônios preenchem a
tela, com escadarias em amarelo e preto e em azul e vermelho.
Dois gigantescos olhos ganham destaque e ocupam praticamente um
terço da tela, enquanto uma boca amedrontadora nos ameaça na
parte inferior do quadro.
Imagens
mais estilizadas de peixes e canoas mantém a qualidade das cores
fortes, mas perdem em autenticidade perante os trabalhos em que
Juerones se apropria do Nordeste e o devolve ao observador sob
uma nova interpretação, com um azul pessoal e imagens que
cortam a alma como um punhal e racham nossa consciência como se
abrissem uma greta no solo árido.
Assim
como o poeta Francisco Carvalho transforma o individual em
universal, Juerones D. Dias transforma a sua arte em poesia
visual de grande intensidade. Suas imagens querem ser vistas e
comentadas. Saíram do quarto escuro da sua mente e da sua casa
para conquistar
novas fronteiras e romper barreiras.
Juerones
torna-se assim, com suas imagens fortes, densas, cativantes e
plenas de autenticidade, fruto de uma vida marcada por cicatrizes
existenciais, um novo nome para o restrito grupo de pintores
primitivistas de qualidade, ou seja, aqueles autodidatas que
atingem um elevado nível estético devido ao esforço constante
e ao talento inato.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de
Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando
a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).