por Oscar D'Ambrosio


 

 


Juerones D. Dias

 

            Intensidade visual

 

O poeta Francisco Carvalho descreveu o Nordeste de modo inesquecível em versos como: “Os homens não são homens:/ são restos de um pesadelo de Deus./ As árvores não são árvores:/ são braços esgalhados como vértebras. // O sol é um histrião/ que enlouqueceu na ribalta./ Um povo de fantasmas/ com seu punhal de lágrimas.”

As palavras nos remetem à seca e ao sofrimento do Nordeste, mas também a certas imagens expressionistas e surrealistas, pois apontam para elementos próprios dessa arte, como objetos que não parecem ser o que deveriam, partes do corpo deformadas, estrelas em representações inovadoras, imagens de loucura, fantasmagóricas ou violentas.

Tudo isso é possível encontrar nas telas de Juerones D. Dias, artista que reúne elementos que o aproximam do que há de melhor em termos de uma expressividade sincera oriunda de uma realidade difícil enfrentada com muito amor à vida e a própria arte. Suas telas são mais que um documento da dor nordestina. Guardando as proporções, são, como a prosa de Graciliano Ramos em Vidas secas, um grito de dor de intensa força artística e social.

Nascido em Ibiaporã, distrito de Mundo Novo, Estado da Bahia, em 14 de novembro de 1974, Juerones D. Dias começou a desenhar e pintar com oito anos em papéis e cartolina, além de realizar esculturas em madeira. Oriundo de família pobre, trabalhou desde cedo para ajudar os pais na lavoura, como diarista na plantação e colheita de café e feijão.

            Foi justamente nessa atividade, contemplando o sofrimento alheio e as próprias dificuldades, que teve a necessidade interior de produzir os seus primeiros trabalhos artísticos. Não foram poucas as vezes que pediu dinheiro emprestado ou viajou em pau-de-arara para municípios próximos para comprar pincéis, tintas e telas.

Assim, após o trabalho extenuante no campo, pintava, à noite, sob a fraca iluminação de um lampião ou mesmo de uma vela. O destino pregou mais uma peça a Juerones em 24 de julho de 2000, quando um incêndio destruiu a sua casa, na qual tinha um pequeno espaço para uso como ateliê.

O artista perdeu dessa maneira o que tinha produzido até então. Houve um natural abatimento, mas a força de prosseguir foi maior. Ele recomeçou a sua produção, mas guardava tudo o que pintava em um quarto escuro, como se assim pudesse proteger os seus trabalhos do mundo.

As obras só vieram à tona graças à intervenção do amigo e também artista Marcos Oliveira. Ao ver tantos trabalhos escondidos, ele aconselhou Juerones a abrir as janelas. Foi um momento de iluminação existencial e de renascimento cultural para o jovem artista que sentiu, naquele momento, a importância de levar o seu trabalho para o município, o Estado, o País e – por que não? – o mundo.

            Recebendo o apoio das autoridades municipais, Juerones realizou exposições em cidades baianas como Mundo Novo, Jacobina e Salvador, onde mostrou suas imagens de sonhos próximos ao surrealismo, fisionomias expressionistas e delírios poéticos sobre paisagens nordestinos.

            O quadro Nascimento da vida, de 2001, é o que melhor expressa essas diversas tendências da obra de Juerones. No canto superior esquerdo, dentro de um círculo preto, está uma estrela amarela que contém a sua rubrica – as letras J e D entrelaçadas – enquanto a assinatura propriamente dita está no canto inferior direito.

            Entre as duas, é possível traças uma linha diagonal. Do lado superior, surge então um rosto azul, com lábios carnudos vermelhos, longa cabeleira negra e aura branca, no melhor estilo expressionista. O pescoço branco ganha intensidade pelo contraste com o braço cinzento e pelas veias vermelhas em destaque.

            Na outra metade, surge a vegetação nordestina ressequida em tons quentes. Os seios brancos com contorno negro e veias vermelhas da personagem em destaque remetem à falta de leite e à dificuldade de amamentação numa sociedade marcada pela dor.

            Entre as mãos da mulher, surge um bebê. Estaria ele dentro da barriga ou já nos braços da mãe, que o carregaria no colo? Isso tem pouca importância. O fato estético é o movimento côncavo da mão da moça no ato de proteger a sua criança. Ele dá harmonia ao quadro, pois repete a circularidade presente na cabeça da mulher.

            Telas como O beijo azul mostram bem algumas dessas características de Juerones, principalmente no que diz respeito ao uso da cor azul com um tom bastante peculiar e a estrutura bem definida e equilibrada, com contornos negros e auras sobre as cabeças das personagens.

            Algo semelhante ocorre em Ilusão da noite, em que misteriosas figuras, intermediárias entre anjos e demônios preenchem a tela, com escadarias em amarelo e preto e em azul e vermelho. Dois gigantescos olhos ganham destaque e ocupam praticamente um terço da tela, enquanto uma boca amedrontadora nos ameaça na parte inferior do quadro.

            Imagens mais estilizadas de peixes e canoas mantém a qualidade das cores fortes, mas perdem em autenticidade perante os trabalhos em que Juerones se apropria do Nordeste e o devolve ao observador sob uma nova interpretação, com um azul pessoal e imagens que cortam a alma como um punhal e racham nossa consciência como se abrissem uma greta no solo árido.

            Assim como o poeta Francisco Carvalho transforma o individual em universal, Juerones D. Dias transforma a sua arte em poesia visual de grande intensidade. Suas imagens querem ser vistas e comentadas. Saíram do quarto escuro da sua mente e da sua casa para  conquistar novas fronteiras e romper barreiras.

Juerones torna-se assim, com suas imagens fortes, densas, cativantes e plenas de autenticidade, fruto de uma vida marcada por cicatrizes existenciais, um novo nome para o restrito grupo de pintores primitivistas de qualidade, ou seja, aqueles autodidatas que atingem um elevado nível estético devido ao esforço constante e ao talento inato.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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O nascimento da vida 

óleo sobre tela - 60x80 cm 2003

Juerones D. Dias 

 

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