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Juana María Bisio
A beleza da pureza
O poeta latino Ovídio dizia que "a beleza é um bem
frágil". É exatamente isso o que se sente ao contemplar as
paisagens, plantas e flores vislumbrados nos quadros da artista
argentina Juana María Bisio, uma pintora de extrema delicadeza
que, em 2001, com 58 anos, trata da relação do ser humano com a
natureza sob um enfoque singelo e poético.
Nascida em Vicente Lopez, província de Buenos Aires, Juana María
Bisio estudou na escola religiosa Santa Teresinha do Menino Jesus,
onde se formou professora primária, iniciando sua carreira no
magistério. Trabalhou então durante 32 anos em escolas públicas
no distrito de General Sarmiento, província de Buenos Aires.
Em 1992, porém, ao se aposentar, com os filhos crescidos e mais
tempo livre, Juani, como gosta de ser chamada, achou que havia
chegado a hora de se dedicar àquilo que tanto gostava: as
atividades manuais. Foram as conversas com a colega de trabalho e
artista plástica Marilyn Itrat que a levaram a pintar. "Eu
achava que fosse uma tarefa impossível para mim, mas, depois de
alguns anos, surgiram os resultados", diz. "Continuo
freqüentando o ateliê, mas o principal é que permanecemos
cultivando uma grande amizade."
Juani se considera naïf desde sempre. "O estilo ingênuo
sempre me atraiu. Além da pintura, faço trabalho com couro,
cestos, tecidos e tapeçarias, mas não sei como definir minha
arte, que, na verdade, é intuitiva, pois a vou criando à medida
que pinto", afirma. "Quando termino, sinto que tenho
mais um filho", acrescenta.
A pintura é vista por Juani como um lazer. "Não planifico o
futuro. As coisas simplesmente acontecem. É pegar ou
largar", conta. Com essa filosofia, começou a participar de
mostras coletivas, a partir de 1995, e individuais, em 1996, além
de realizar cartões de Natal para diversas entidades
assistenciais.
Um quadro que merece destaque é Ronda. Em um ambiente de contos
de fada, vemos um grupo dançando de mãos dadas. A tela transmite
uma atmosfera de fantasia, principalmente pela presença do
edifício atrás do grupo que se diverte, um pequeno castelo que
evoca a Idade Média. A imagem evoca justamente a alegria perdida
do mundo adulto, sendo que o clima de encantamento é acentuado
pela paisagem idílica atrás do encantador castelo.
Sinfonia Outonal também se destaca pela composição esmerada. O
céu, as árvores, os pinheiros ao fundo e um caminho estreito
conseguem dar a dimensão do que essa estação do ano faz com a
paisagem. Não há, porém, melancolia, mas a cristalização de
um momento próximo ao divino.
Quadros como Vôo de pombas acentuam essa vertente de extrair o
belo de qualquer situação. Nesta obra, fitas, que saem de um
campanário, são carregadas por aves em vôo. É criado assim um
universo de encantamento, já que a igreja, com a presença das
pombas, símbolo do Espírito Santo, na tradição católica,
ganha uma plena dimensão daquilo que é santificado e divino.
O mundo agrícola, com a fertilidade da terra, é exaltado em El
bolsón e La buena tierra. No primeiro, vê-se uma casa cercada de
plantações, com montanhas ao fundo. No segundo, ovelhas surgem
em primeiro plano, desproporcionais em relação a uma cerca, como
costuma acontecer com os pintores naïfs.
Ao tratar do cotidiano, da natureza ou de temas familiares, Juana
María Bisio, com suas pinceladas firmes e serenas, evoca a
máxima de Stendhal de que a "a beleza é apenas a promessa
da felicidade". Ao contemplar os quadros da pintora
argentina, passa-se a ter a plena certeza de que a beleza dos
quadros da artista pode tornar essa promessa de felicidade numa
realidade.
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Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).
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