Joubert
Pantanero
Um
fundo que dá gosto de olhar
Ao
olhar um quadro, muitos elementos podem chamar a atenção do
observador. Há aqueles que se interessam pela figura retratada,
outros pelas cores. Há ainda os que preferem admirar a composição
ou o equilíbrio. Poucos, porém, se debruçam com atenção sobre
a maneira como o fundo da tela é construído e a maneira como ele
dialoga com o observador.
A
arte de Joubert Pantanero encontra um admirador preferencial nesse
último tipo de público. Suas figuras, geralmente personagens do
universo do Pantanal, da região fronteiriça em que traços étnicos
indígenas brasileiros, paraguaios, bolivianos e argentinos se
mesclam, apresentam olhos característicos e cores intensas.
É,
no entanto, nos fundos, com grafismos típicos das etnias indígenas
muitas vezes presente na cerâmica regional, que a arte de Joubert
ganha força. A intensa expressividade de seus trabalhos não se dá,
portanto, apenas pelo regionalismo, mas pelo conhecimento técnico
que lhe permite criar obras de valor universal a partir de uma
cultura particular.
Nascido
em 1944, em Corumbá, MS, mas registrado dois anos depois, Joubert
(nome com o qual o pai homenageou o músico Joubert de Carvalho,
autor de clássicos da MPB, como Taí, gravada em 1930, por
Carmen Miranda, e Maringá, no ano seguinte) dos Santos é
uma síntese do Brasil. Tem sangue índio da avô Cadweu,
tribo da reserva Bodoquena, no Pantanal, e ascendência que mescla
raízes portuguesas e nordestinas.
Foi
por meio do artista plástico espanhol Antonio Burgos Vila,
radicado em Corumbá, que conheceu, em1964, o mundo das tintas. Em
1965, pensando em seguir a carreira militar do pai, oficial
administrativo da Marinha, vai para o Rio de Janeiro. Ali, conhece
a pintora uruguaia Blanca Portela, que o inicia no mundo das
cores.
Mais
tarde, desliga-se das Forças Armadas e funda, em 1969, a Feira de
Artes da Praça General Osório, em Ipanema. Dois anos depois,
trabalha na TV Globo, principalmente na cenografia, fator que o
auxilia a ter uma nova e ampla visão do mundo das artes.
Mas
acomodar-se nuca foi o feitio de Joubert, que ganhou o apelido de
Pantanero pelas suas origens e pelos traços das figuras que
retrata em seus quadros. Aprimorou-se na pintura, na escultura e
na tapeçaria, além de dominar e aperfeiçoar técnicas de
reciclagem de papel. Atua ainda como cantor e compositor, tendo
morado em diferentes lugares do País, como Campo Grande,
Salvador, Belém, São Paulo, Rio de Janeiro e Tapejara, próximo
a Maringá, PR, e no exterior, em Guadalupe, nas Antilhas.
Além
de expor seu trabalho em diversas cidades brasileiras, o trabalho
de Joubert já foi levado para Itália, França, Argentina,
Alemanha, EUA e Canadá. Certamente o que explica esse sucesso é
a forma como o artista compõe as suas telas. As figuras centrais
surgem grandes em primeiro plano, compostas com admiráveis
composições de cores. As imagens do fundo colaboram para a
ambientação do retratado,enquanto toda a tela é marcada por
grafismo e texturas diferenciadas que merecem atenta observação.
Reside
nos fundos de Joubert Pantanero o grande interesse de seu
trabalho. Ao mostrar tipos do Pantanal com a proposta de também
oferecer um requinte técnico, produz uma arte com uma marca
registrada. Sua busca de aprimoramento contínuo nessa trajetória
pode trazer grandes resultados, pois mais que um documento de uma
região, estamos diante de um profissional das tintas sempre
pronto a nos surpreender com alguma nova forma de tratar as suas
imagens como, por exemplo, a do tucano, símbolo do Brasil, mas
principalmente a lembrança afetiva do artista de uma dessas aves,
que cuidou desde pequena e que acabou falecendo, por acidente,
numa lata de tinta.
Joubert
Pantanero merece atenção justamente pela maneira como leva a sua
arte a sério. Tucanos e pantaneiros surgem em suas telas com freqüência
por serem um referencial e pela possibilidade de serem
constantemente recriados a partir da convicção de que o
aprimoramento da técnica é o melhor caminho para atingir
tonalidades, texturas, cores e grafismos únicos, resultado da
busca pessoal por telas cada vez mais primorosas sob o ponto de
vista da estética e da técnica.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes
da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de
Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e
obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).