Josué
Paredes bíblicas
Imagine um artista com menos de 25 anos
que, há mais de dois, vem pintando cenas bíblicas nas paredes de uma
Capela no interior do Estado de São Paulo. Visualize que o trabalho,
realizado com talento, corre dois riscos: o de estragar pela falta de
conservação e o de não ser concluído, pois o artista necessita
trabalhar para ganhar o seu sustento.
Essa situação
existe e pode colocar um jovem talento a perder. O artista, de 23
anos, é Josué Alexandre de Moura e a Capela, a do Cristo Redentor,
no bairro Botujuru, em Mogi das Cruzes. Pintadas com látex, as
pinturas, que vão, na vertical, do teto ao piso, correm ao risco de
descascar em breve. Ainda falta um terço da igreja a ser concluída e
o artista, que trabalha numa bicicletaria não encontra tempo para
prosseguir a obra.
Praticamente
autodidata, com poucas referências a não ser alguns livros
fornecidos pelo padre Attílio Berta, responsável pela Capela, Josué
deseja ainda se aperfeiçoar para resolver alguns problemas de composição,
como o uso da transparência. Também sabe que precisa de melhores
tintas e condições de trabalho.
As cenas bíblicas que, como em igrejas
italianas, se espalham pelas paredes podem ser utilizadas – como já
vem ocorrendo – com fins de catequese. Estão ali, por exemplo, a
expulsão de Adão e Eva e, uma das cenas melhor realizadas, a da Arca
de Noé, assim como da abertura do Mar Vermelho.
Mais hábil
nos rostos masculinos do que nos femininos, Josué, nascido em Mogi e
morador de Botujuru, vem criando nas paredes da Capela do Cristo
Redentor uma obra que merece ser vista, preservada e terminada. Para
isso, é necessário que ele se aperfeiçoe e que lhe sejam fornecidas
condições para que possa se dedicar a essa empreitada.
Com uma
habilidade natural para pintar, por exemplo, o movimento do mar e
algumas cenas dramáticas, Josué consegue uma ampla riqueza de cores
com a mistura das tintas a quem tem acesso. Os fiéis e as crianças
da comunidade, ao tocarem nas paredes, porém, aumentam o risco de
elas despencarem com o passar dos anos.
Para a
composição de cenas cada vez mais complexas e a criação de uma
gestualidade cada vez mais ampla e surpreendente dos personagens,
torna-se essencial que o jovem artista possa ter um universo cada vez
amplo de referências pictóricas. Somente assim seu já
impressionante trabalho poderá atingir patamares ainda mais elevados.
Com
um talento promissor, caracterizado pelo uso das cores, habilidade com
desenho de figuras humanas e composição de cenas, Josué reúne as
condições para se destacar como pintor de interiores de igrejas e
para levar a sua arte com tinta a óleo para as telas com vigor e técnica
igual ou superior à atual – inclusive enfocando outros temas, além
dos religiosos.
Para
que essa promessa se concretize, é importante que a sociedade civil
organizada ou as entidades governamentais lhe forneçam a
possibilidade de se dedicar inteiramente a sua vocação, pintando
intensamente o maior número possível de horas, estudando e ampliando
ao máximo as suas possibilidades de sucesso.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor,
entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e
responsável pela página www.artcanal.com.br/oscardambrosio