por Oscar D'Ambrosio


 

 


Josué

 

            Paredes bíblicas

 

            Imagine um artista com menos de 25 anos que, há mais de dois, vem pintando cenas bíblicas nas paredes de uma Capela no interior do Estado de São Paulo. Visualize que o trabalho, realizado com talento, corre dois riscos: o de estragar pela falta de conservação e o de não ser concluído, pois o artista necessita trabalhar para ganhar o seu sustento.

            Essa situação existe e pode colocar um jovem talento a perder. O artista, de 23 anos, é Josué Alexandre de Moura e a Capela, a do Cristo Redentor, no bairro Botujuru, em Mogi das Cruzes. Pintadas com látex, as pinturas, que vão, na vertical, do teto ao piso, correm ao risco de descascar em breve. Ainda falta um terço da igreja a ser concluída e o artista, que trabalha numa bicicletaria não encontra tempo para prosseguir a obra.

            Praticamente autodidata, com poucas referências a não ser alguns livros fornecidos pelo padre Attílio Berta, responsável pela Capela, Josué deseja ainda se aperfeiçoar para resolver alguns problemas de composição, como o uso da transparência. Também sabe que precisa de melhores tintas e condições de trabalho. 

            As cenas bíblicas que, como em igrejas italianas, se espalham pelas paredes podem ser utilizadas – como já vem ocorrendo – com fins de catequese. Estão ali, por exemplo, a expulsão de Adão e Eva e, uma das cenas melhor realizadas, a da Arca de Noé, assim como da abertura do Mar Vermelho.

            Mais hábil nos rostos masculinos do que nos femininos, Josué, nascido em Mogi e morador de Botujuru, vem criando nas paredes da Capela do Cristo Redentor uma obra que merece ser vista, preservada e terminada. Para isso, é necessário que ele se aperfeiçoe e que lhe sejam fornecidas condições para que possa se dedicar a essa empreitada.

            Com uma habilidade natural para pintar, por exemplo, o movimento do mar e algumas cenas dramáticas, Josué consegue uma ampla riqueza de cores com a mistura das tintas a quem tem acesso. Os fiéis e as crianças da comunidade, ao tocarem nas paredes, porém, aumentam o risco de elas despencarem com o passar dos anos.

            Para a composição de cenas cada vez mais complexas e a criação de uma gestualidade cada vez mais ampla e surpreendente dos personagens, torna-se essencial que o jovem artista possa ter um universo cada vez amplo de referências pictóricas. Somente assim seu já impressionante trabalho poderá atingir patamares ainda mais elevados.        

Com um talento promissor, caracterizado pelo uso das cores, habilidade com desenho de figuras humanas e composição de cenas, Josué reúne as condições para se destacar como pintor de interiores de igrejas e para levar a sua arte com tinta a óleo para as telas com vigor e técnica igual ou superior à atual – inclusive enfocando outros temas, além dos religiosos.

Para que essa promessa se concretize, é importante que a sociedade civil organizada ou as entidades governamentais lhe forneçam a possibilidade de se dedicar inteiramente a sua vocação, pintando intensamente o maior número possível de horas, estudando e ampliando ao máximo as suas possibilidades de sucesso.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e responsável pela página www.artcanal.com.br/oscardambrosio

 
 

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Parede lateral
Capela do Cristo Redentor
Bairro Botujuru, Mogi das Cruzes, SP
látex sobre parede - 2006

Josué

 

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