Jô
Soares
Portas entreabertas
Uma das comédias do
dramaturgo francês Musset (1810-1857) intitula-se Uma porta
há de estar aberta ou fechada. Esse muito bem poderia ser o
mote da terceira exposição individual do ator Jô Soares como
artista plástico. Após apresentar o seu trabalho em 1967, na
Galeria Atrium, em São Paulo, e, em 1986, na Galeria Ipanema,
no Rio de Janeiro, mostra, no Museu Brasileiro da Escultura
(Mube), na capital paulista, em 2004, o conjunto de trabalhos
intitulado Quadro de Luz.
O
título, bastante sugestivo, aponta, no mínimo, em direção a
três caminhos. Primeiro, estamos perante quadros, porém não
aqueles criados por uma técnica tradicional. Após um acidente
de moto que lhe causa até hoje limitações de movimento no braço
direito, Jô se vale da digicromia digital, técnica que
consiste no ato de desenhar imagens com lápis sobre papel para
depois transformá-las graças ao trabalho com programas de
computação. Finalmente, ocorre a impressão do resultado
obtido com tinta sobre tela. Surge assim uma pintura digital,
mas que mantém, em sua origem, traços do desenho humano.
Em
segundo lugar, o título alude à luz, presença fundamental na
poética de Jô Soares. O ambiente da exposição, marcado pela
escuridão e pelas luzes magistralmente direcionadas para os
quadros – além da ambientação com trilha sonora de jazz
da melhor qualidade –, indica que a leitura de seu trabalho
tem no jogo luz e sombra algo primordial.
Finalmente,
temos a expressão “quadro de luz”, que remete à caixa
geralmente embutida na parede onde está o cérebro que comanda
a luminosidade de uma residência. Localizada geralmente atrás
de uma porta, tem nos fusíveis o equivalente aos neurônios
humanos. Se o quadro de luz tem o poder de dar e tirar a luz de
uma casa, a pintura de Jô se vale dessa mesma analogia,
obrigando nossos neurônios a trabalharem perante os jogos de
luz e sombra que seus quadros de luz oferecem.
Cada
obra exposta é, portanto, um quadro de luz que instaura seu próprio
universo interno e coloca em xeque a nossa capacidade
interpretativa. Nesse aspecto, as lâmpadas em verde e lilás
que carregam dentro de si espectros e esqueletos são emblemáticas,
pois a luz que transmitem surge enevoada, num clima de cinema noir,
tão importante no universo mental do artista.
Na
obra chamada Quadro de luz, por exemplo, 28 lâmpadas são
colocadas em quatro linhas de sete. A quarta da segunda linha, a
de número 11, se obedecermos uma contagem dentro da lógica
ocidental (da esquerda para a direita e de cima para baixo), é
a única que aparece com o bulbo para cima. Curiosamente, esse
é um número primo, talvez a indicar que o ato criativo é único,
seja qual for a técnica utilizada.
Em
outras telas, uma lâmpada isolada surge pendurada por um fio,
frágil, iluminando, mas, ao mesmo tempo, comunicando o risco de
que pode se apagar ou ser desligada a qualquer momento, fazendo
reinar a escuridão primordial. O tênue fio (por que não o fio
da vida ou de Ariadne para se orientar na fuga do labirinto?)
permite a existência da luz e, sem ela, a pintura, o cinema e,
segundo Gaudí, a arquitetura, não existem.
Nascido
no Rio de Janeiro em 1938, Jô Soares, consagrado ator e
comediante sabe disso muito bem. A iluminação do palco é o
segredo da convergência do foco de atenção do espectador.
Associada à luz, está a cor, recuso utilizado pelo artista plástico,
por exemplo, na série Sapataria ou ainda nas bibliotecas
que homenageiam o pintor holandês Mondrian. O figurativo
associa-se quase ao abstrato na busca e na pesquisa de soluções
colorísticas.
Se
a luz é a passagem das trevas para a visão, as torneiras,
outro tema recorrente na exposição, têm essa mesma capacidade
de ligar um mundo ao outro. Se o quadro de luz propicia a
oportunidade de se enxergar por meio de lâmpadas, as torneiras
oferecem o poder de dominar o controle da passagem da água e
surgem como experiências gráficas, diluídas pela pesquisa com
cores e luminosidade.
O
mesmo se aplica às maçanetas. Solitárias ou ligadas a portas,
são símbolos justamente de transição, de passagem de uma
realidade para outra. Abrem ou fecham caminhos para chegadas e
partidas. São as luzes e portas que permitem os encontros –
pintados por Jô em cenários que remetem ao cinema e às histórias
em quadrinhos – e os desencontros.
A
transição de uma realidade para outra encontra paralelo ainda
nas imagens criadas por Jô Soares vinculadas às armas. Elas
também abrem caminhos. O gatilho liberta a bala que pode
conduzir para a morte. E o cano da arma é tão escuro como um túnel.
Se o projétil encontra a luz ao sair da arma, o ser humano tem
a capacidade de achar a luminosidade (leia-se consciência)
quando abre a porta de um quarto escuro (as trevas do
inconsciente).
Telefones
e armas iluminados por focos de luz, como ocorre no cinema
integram a poética de Jô Soares. Suas imagens têm a força do
bom cinema e da fotografia de excelência, mas ganham o suporte
da tela, com um efeito misterioso, presente em trabalhos como Quem
é e Quem será, nos quais figuras misteriosas,
espectrais, aparecem no visor da porta. Elas querem entrar? Por
quê? São ameaçadoras?
Esse
clima de interrogações se consolida em No bar, Na
porta e Tocaia. As telas funcionam como uma mescla
curiosa de tríptico medieval com filmes de detetive. A primeira
evoca as imagens de Hopper, mestre norte-americano da solidão
existencial, mesmo tema expresso por Jô.
Em
síntese, as portas das imagens de Jô Soares, ao contrário do
que apontava Musset, raramente estão totalmente abertas ou
fechadas. Estão entreabertas ou, se o observador preferir,
semi-fechadas, instaurando um clima que se afasta do universo cômico
do autor francês, que trabalha com extremos, e nos obriga a
penetrar nos meio-tons da tragicomédia ou do drama cômico de Jô
Soares na exposição apresentada no Mube.
Ganham
então intensidade as personagens isoladas, como em Solidão
vermelha e Solidão azul (talvez um auto-retrato,
assim como Phantom?). Se nessas duas obras, uma figura
humana surge em meio a um facho de luz, Subway e Estação
tratam de outra solidão, a urbana contemporânea, em que o
indivíduo sente-se perdido em meio a multidões, principalmente
em locais de passagem, como estações de metrô ou rodoviárias.
Toda
essa carga dramática acentua-se na série Tango, na qual
o trabalho com luz atinge
resultados plasticamente intensos, principalmente na cena em que
um casal dança sobre um chão quadriculado em preto e branco
(quem sabe o tabuleiro de xadrez da vida?), num jogo de sombras
presente também em Judgement, Dead man walking, Case
closed e Dentro
do carro que homenageiam o cinema mais explicitamente.
Lâmpada
que brilha com seu processo criativo, a pintura de Jô Soares
insere-se nas preocupações contemporâneas da arte, sem
abandonar a humanidade. Como apontava Charles Chaplin, “mais
do que máquinas, precisamos de humanidade”. A exposição
desse misto de ator, apresentador, músico e artista plástico
aponta que a técnica, quando colocada a serviço da arte,
oferece imagens marcantes.
É
o que ocorre na mostra do Mube, uma viagem pela solidão humana
e pela poética da luz, que nos faz penetrar num universo de
entradas e saídas por passagens misteriosas de portas, maçanetas,
torneiras e armas que atiram arte de qualidade – aquela que não
nos deixa indiferentes e nos faz pensar.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional
de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando
a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).