por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

 

  Josinaldo

 

            A memória viva de um rio

 

            A arte tem muitos poderes. Um dos principais, muitas vezes um pouco esquecido, é o de paralisar o tempo. Ela cristaliza pessoas, ações, imagens, pensamentos e, acima de tudo, modos de ver o mundo. É exatamente isso, que dá ao artista, a capacidade de ultrapassar limites, que torna a arte de Josinaldo tão especial. 

            Nascido em 27 de fevereiro de 1951, Josinaldo, cujo nome completo é Josinaldo Ferreira Barbosa, é filho de uma cidade que até mudou de lugar, Remanso, Estado da Bahia, inundada com a construção da barragem de Sobradinho e reconstruída em local próximo como cidade planejada. 

            A água sempre acompanhou o artista. Neto de proprietário de barcaças e filho de navegador fluvial, sediado em diversas cidades como Remanso, Pirapora, em Minas Gerais, e Presidente Epitácio, em São Paulo, ele acompanhou o pai nessas mudanças de cidade – e o rio sempre por perto, fosse o São Francisco, conhecido como “de integração nacional” ou o Paraná.

            Amante do desenho desde criança, quando criava imagens para todas as festas cívicas na escola primária, e autodidata na pintura, foi no início da década de 1970 que se profissionalizou. Decidiu largar o banco em que trabalhava, fazer sua primeira individual e integrar o universo de um grupo de bons artistas, então chamados “primitivistas”, que freqüentava a Praça da República.

            A arte lhe deu a oportunidade de viajar para a Venezuela, onde fez uma série de obras; para a França, onde morou, expôs e trabalhou durante dois anos como garçom em um restaurante de comida brasileira, e para Portugal. Acima de tudo, foi um caminho para expressar sua memória de um tempo que não existe mais – e que ele mesmo vivenciou apenas muito jovem.

            As procissões de Nossa Senhora dos Navegantes, mostradas em planos mais abertos; as cenas enfocando barcos e barqueiros, em planos mais próximos, e a representação de numerosos personagens desse universo, como vendedores de frutas e outros comerciantes, com roupas coloridas, numa intensa movimentação plástica, dão o tom da arte de Josinaldo.

            Uma de suas marcas registradas está nas gaiolas, embarcações que outrora cruzavam o rio São Francisco. Ele as pinta com extrema intensidade colorística e com grande precisão de detalhes. Estão ali os viajantes em todas as nuances de composição que o seu talento permite. E ainda há muito a explorar – como a riqueza das imagens das carrancas, com seu colorido, simbolismo e mistério!

            Mesmo quando não pinta o São Francisco, as obras de Josinaldo têm na água seu principal assunto. Ela se faz presente nos fundos e no raciocínio da construção do quadro. Sempre há neles margens, mais ou menos explícitas, e somos convidados, pelo exercício do olhar, a observar o que existe do lado dela, seja uma igreja, uma pequena casa ou uma árvore.

            Com cores vivas, que poderiam proporcionar grandes contrastes, mas que ele atenua pela forma sábia e equilibrada como distribui as massas cromáticas nas telas, Josinaldo mantém vivo um rio São Francisco que deixou de existir, mas que ele ressuscita em cada conjunto de figuras que valoriza a sua memória afetiva, transformada em quadros de intenso cromatismo.

           

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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 Os pescadores
acrílica sobre tela 18 x 20 cm sem data

Josinaldo

 

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