por Oscar D'Ambrosio


 

 


José Spaniol

 

            A conquista do espaço

 

            No período bizantino, os ícones eram feitos não como representações de Deus, Cristo e dos santos em si mesmos, mas como janelas que abriam possibilidades de visão de uma realidade espiritual muito maior do que aquela visível no próprio ícone. Curiosamente, a chamada arte conceitual, substituiu a imagem por trás do ícone pela denominação do conceito.

            Em outras palavras, em nome da arte, qualquer ícone torna-se adorado nas galerias e começa a nivelar por baixo parte da criação contemporânea. Se qualquer ícone, bem ou mal feito, era aceitável por abrir caminho para chegar a Deus; em nome do conceito, muita bobagem vem sendo exposta por, teoricamente, permitir discussões do que vem a ser a arte.

            A exposição O descanso da sala, na Galeria Oeste, em São Paulo, SP, de 29 de março a 29 de abril de 2006, foge, com rara felicidade, desse jogo perigoso em que tudo se justifica em nome de um conceito teórico ou filosófico e, pelo qual, o objeto estético torna-se menos importante do que o catálogo ou o texto de parede do museu ou galeria.

            As peças de quatro metros de altura criadas pelo artista em madeira mostram cadeiras, mesas, escadas e cama. Todos eles pertencem ao cotidiano. A novidade está no fato de serem reflexas e gerarem um rico estranhamento, pois obrigam a repensar a relação de cada um de nós com o espaço.

            A cadeira, apresentada em duas versões, uma reta e outra com uma leve inclinação curva, levam necessariamente a imaginar como o ser humano ocuparia esse espaço. Se ele senta na parte de baixo, poderia se colocar de alguma maneira na parte superior sem cair. Esse pensamento, que alude, inclusive aos malabarismos circenses, revela como uma idéia simples (alongar um objeto e invertê-lo) pode ganhar uma dimensão quase épica numa aparente despretensão.

            A discussão de apresentação do espaço proposta por Spaniol torna-se ainda mais forte numa simples mesa, com seu formato dominado pelos retângulos. Esquece-se aí que se está perante um objeto de uso e começa a se pensar naquela peça escultórica como um elemento tridimensional dominado por jogos de luz e planos, quase uma aquarela de Paul Klee.

            A cama interrompe qualquer idéia de descanso ou de morte associada a ela. Tendo a sua extensão na parte superior, gera inquietação e medo. Deixa de ser um bom lugar para ver o tempo passar ou para deixar de existir fisicamente. É arte porque inquieta e, como ensinava Magritte, mostra que, se tratada com talento plástico, “aquilo não é mais uma cama”.

            Torna-se objeto estético, como muito bem reforça a escada, que se torna um enorme “X”. A solução da questão por ela proposta está na dinâmica sugerida pelos degraus, que convidam a subir e a descer, a olhar e a voltar a olhar, num infinito de leituras propostas pela criação de um universo autônomo, em que a lógica é subvertida em nome da plasticidade.

            Efeito menos contundente é obtido nas fotografias em que a sala é colocada no espaço. São deixadas de lado as extensões e se observa o reflexo de uma casa em que os quatro elementos são vistos invertidos num interessante jogo plástico. Porém, elas não superam o impacto das peças estabelecidas por Spaniol.

            As criações do artista remetem sim a um conceito, mas tem valor em si mesmas. Não se limitam a ser ponto de partida para uma reflexão estética, mas constituem, elas mesmas, um resultado visual e plástico, de rara simplicidade, beleza e densidade, numa experiência que convida – literalmente – a múltiplas visões e permite novas e surpreendentes variações.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

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 O descanso da sala 
Dimensões variáveis, altura de 4 metros madeira 2006

José Spaniol

 

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