José
Spaniol
A conquista do espaço
No período bizantino, os ícones
eram feitos não como representações de Deus, Cristo e dos santos em
si mesmos, mas como janelas que abriam possibilidades de visão de uma
realidade espiritual muito maior do que aquela visível no próprio ícone.
Curiosamente, a chamada arte conceitual, substituiu a imagem por trás
do ícone pela denominação do conceito.
Em outras
palavras, em nome da arte, qualquer ícone torna-se adorado nas galerias
e começa a nivelar por baixo parte da criação contemporânea. Se
qualquer ícone, bem ou mal feito, era aceitável por abrir caminho para
chegar a Deus; em nome do conceito, muita bobagem vem sendo exposta por,
teoricamente, permitir discussões do que vem a ser a arte.
A exposição
O descanso da sala, na Galeria Oeste, em São Paulo, SP, de 29 de
março a 29 de abril de 2006, foge, com rara felicidade, desse jogo
perigoso em que tudo se justifica em nome de um conceito teórico ou
filosófico e, pelo qual, o objeto estético torna-se menos importante
do que o catálogo ou o texto de parede do museu ou galeria.
As peças de
quatro metros de altura criadas pelo artista em madeira mostram
cadeiras, mesas, escadas e cama. Todos eles pertencem ao cotidiano. A
novidade está no fato de serem reflexas e gerarem um rico
estranhamento, pois obrigam a repensar a relação de cada um de nós
com o espaço.
A cadeira,
apresentada em duas versões, uma reta e outra com uma leve inclinação
curva, levam necessariamente a imaginar como o ser humano ocuparia esse
espaço. Se ele senta na parte de baixo, poderia se colocar de alguma
maneira na parte superior sem cair. Esse pensamento, que alude,
inclusive aos malabarismos circenses, revela como uma idéia simples
(alongar um objeto e invertê-lo) pode ganhar uma dimensão quase épica
numa aparente despretensão.
A discussão
de apresentação do espaço proposta por Spaniol torna-se ainda mais
forte numa simples mesa, com seu formato dominado pelos retângulos.
Esquece-se aí que se está perante um objeto de uso e começa a se
pensar naquela peça escultórica como um elemento tridimensional
dominado por jogos de luz e planos, quase uma aquarela de Paul Klee.
A cama
interrompe qualquer idéia de descanso ou de morte associada a ela.
Tendo a sua extensão na parte superior, gera inquietação e medo.
Deixa de ser um bom lugar para ver o tempo passar ou para deixar de
existir fisicamente. É arte porque inquieta e, como ensinava Magritte,
mostra que, se tratada com talento plástico, “aquilo não é mais uma
cama”.
Torna-se
objeto estético, como muito bem reforça a escada, que se torna um
enorme “X”. A solução da questão por ela proposta está na dinâmica
sugerida pelos degraus, que convidam a subir e a descer, a olhar e a
voltar a olhar, num infinito de leituras propostas pela criação de um
universo autônomo, em que a lógica é subvertida em nome da
plasticidade.
Efeito menos
contundente é obtido nas fotografias em que a sala é colocada no espaço.
São deixadas de lado as extensões e se observa o reflexo de uma casa
em que os quatro elementos são vistos invertidos num interessante jogo
plástico. Porém, elas não superam o impacto das peças estabelecidas
por Spaniol.
As criações
do artista remetem sim a um conceito, mas tem valor em si mesmas. Não
se limitam a ser ponto de partida para uma reflexão estética, mas
constituem, elas mesmas, um resultado visual e plástico, de rara
simplicidade, beleza e densidade, numa experiência que convida –
literalmente – a múltiplas visões e permite novas e surpreendentes
variações.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).