José
Lino Zechetto
A força das árvores
As árvores são um
dos elementos mais simbólicos da natureza. Relacionadas à força
da vida, têm em comum o fato de nascerem todas de uma semente.
E é fascinante como, a partir das mais variadas formas e dimensões,
surgem raízes, caules, troncos, folhas,
flores e frutas.
Quando
se pensa em pintura, as árvores ganham mais uma dimensão. Além
de estarem ligadas à terra, onde nascem, ao ar, que ocupam, à
água, da qual se alimentam, e ao fogo, pelo simbolismo ligado
à espiritualidade que a maioria dos povos lhes dá; elas ganham
mais um aspecto: o desafio técnico que trazem ao artista
plástico.
Se
as árvores já são infinitas no mundo da natureza, esse número
é potencializado por aquele que lida com os pincéis e as
tintas. As imagens encontradas no mundo real passam então a
funcionar como mote para um exercício estético. Tonalidades,
combinações, formas de desenho e interpretações mais ou
menos fiéis à realidade são características de cada artista
em sua busca de uma poética que expresse a sua visão de mundo.
O
artista plástico José Lino Zechetto é justamente um poeta das
árvores. Radicado em São Paulo, mas nascido em Birigüi,
interior do Estado, em 2 de janeiro de 1927, desenvolveu o seu
talento, de forma autodidata, ao lado de pintores como
Innocencio Borguese, Vicente Di Grado, Mário Zanini e Arlindo
Ortolani, entre diversos outros que tinham em comum a prática
de sair para pintar ao ar livre em campos, praias e municípios
como Paraty ou as cidades históricas de Minas Gerais, como Ouro
Preto e Mariana.
Sobre
a pintura de Zechetto, Theodoro Meireles, em artigo publicado em
O Estado de São Paulo, em 18/5/1980, escreveu:
“Observação, pensamento, trabalho marcam a sua carreira,
transparecem na sua pintura que vem de longo tempo crescendo
aparentemente tranqüila, escondendo às vezes, o quanto de
inquietação artística, de observação constante e apaixonada
e até mesmo sofrida, se concentra em apenas uma tela.”
O
comentário enfatiza aspectos importantes do trabalho do
artista, mas deixa de lado uma face: a habilidade de Zechetto
como desenhista. Ao expor desde 1966, tendo recebido diversos prêmios
e com obras em propriedade de colecionadores particulares do
Brasil e do Exterior, além de xilogravuras no acervo do Centro
Cultural São Paulo, ele estabeleceu uma relação com o mundo
que passa obrigatoriamente pela arte.
Seja
no desenhos feitos com modelo vivo, onde às vezes surge uma
surpreendente capacidade de sugerir formas com poucos traços,
seja nos casarios pintados ao vivo ou de memória, em que a
liberdade se esboça muitas vezes na maneira precisa de indicar
ao observador a existência, com linhas delicadas, de paralelepípedos
ou escadarias, Zechetto mantém-se fiel a si mesmo.
Formado
como pintor com mestres da capacidade de pintar rápido, com
conhecimento das particularidades da tinta a óleo, o artista
paulista constrói as suas principais imagens a partir de uma São
Paulo que não existe mais. Cenas do Parque Dom Pedro ou o
Bairro do Limão e de outros locais valem como documentos históricos,
é verdade, mas encantam muito mais pela composição serena,
pelas regiões em que o quadro ganha luminosidade e pelas áreas
abertas em que a obra respira, seja em céus de azuis muito
particulares ou em vãos de pequenas pontes ou sutis jogos de
sombras.
Cada
tela de Zechetto precisa ser degustada com uma boa taça de
vinho. Observar seus quadros rapidamente impede a apreciação
dos detalhes da composição, principalmente quando se trata de
cenas em que as árvores são protagonistas que antigas paredes
caiadas iluminam a tela em tonalidades e texturas muito próprias.
Zechetto
pinta as essências da alma. As imagens podem ser de pessoas num
bonde paulistano, de pescadores numa xilogravura ou de uma
natureza-morta. O seu talento está na forma de tratar o tema de
maneira artística, ou seja, imprimindo a sua assinatura serena,
mas com uma linguagem sólida construída ao longo do tempo.
As
árvores de Zechetto não são os inquietos ciprestes de Van
Gogh ou o trabalho de composição de soberbo equilíbrio de
Constable. A natureza do pintor paulista fala. É o texto visual
de uma representação visual que mescla
delicadeza do impressionismo a toques expressionistas,
entendo-se essa mescla como um diálogo profícuo entre a visão
que a luz gera no pintor e a sua capacidade interior de deformar
o real para atingir um resultado satisfatório.
José
Lino Zechetto busca a liberdade no ato de pintar. Suas árvores
se esparramam pelas telas para conquistar espaço no mundo.
Encantam pelo lirismo e funcionam, ao mesmo tempo, como vigoroso
testamento de uma geração que tem um papel fundamental na arte
brasileira e que ainda está à espera de um autêntico
reconhecimento da crítica.
Cada
quadro de Zechetto é a porta de um mundo novo de emoções a
serem aproveitadas com olhar atento. É nos detalhes das construções,
nos caminhos entre as árvores e nas paisagens aparentemente
inocentes que se esconde o talento de quem dá a ilusão de que
pintar é fácil e que, por trás dessa aparente simplicidade,
esconde segredos amadurecidos de composição, forma e equilíbrio.
Como
a mais gigantesca árvore nasce de uma pequena semente, a
grandiosidade do talento de Zechetto está em cada simples traço.
A mão precisa, acostumada a pintar com agilidade, transforma o
erro em acerto e conjuntos de pequenos grandes momentos
alertam que, em imagens à vezes singelas, há um vulcão
de emoções e de domínio da arte de transformar preciosas
sementes em frondosas árvores artísticas.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de
Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e
obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).