por Oscar D'Ambrosio


 

 


José Carlos

 

            O corte da cana em telas

 

            “O trabalho persistente vence tudo”. A frase do poeta latino Virgílio (70-19 a. C.) vale duplamente para o cortador de cana e pintor José Carlos. Por um lado, ele sobrevive do corte da cana, uma das profissões mais difíceis. A dureza do trabalho, as intempéries do tempo, o sofrimento, o cansaço e os ganhos minguados são enfrentados numa jornada cotidiana de corte de cana com facão, que começa antes do amanhecer e se estende até o cair do dia.

Essa atividade não impede, porém, que o cortador de cana desenvolva uma atividade artística de qualidade. Uma prova disso é o talento demonstrado por José Carlos em seus trabalhos pictóricos, caracterizados por um peculiar jogo de cores sobre a temática canavieira.

Nascido em 28 de julho de 1980, em Assis, SP, José Carlos Marcos de Souza, técnico em contabilidade, reside em Tarumã, SP, e alia o trabalho no corte de cana-de-açúcar para uma usina da região, atividade que o leva a permanecer dias fora da cidade, nos canaviais, com a dedicação à criação de suas telas.

José Carlos começou a ter aulas de pintura em 2000 e, incentivado pela Secretaria de Cultura de Tarumã e pelo pintor e professor de artes plásticas Sebastião Mendes, vem buscando espaço para ter o seu talento reconhecido. Inteligência e sensibilidade não lhe faltam. Sua técnica é colocada a serviço de uma forte mensagem social de conscientização sobre as agruras do trabalho rural.

O artista, ao enfocar a atividade de corte da cana utiliza duas armas artísticas. Por um lado, o insuperável conhecimento do tema, pois ele sabe o que significa o cansaço e o contato diário com o facão e o calor de uma plantação. Por outro, possui uma visão sensível de como as formas e as cores podem se combinar de maneira a retratar essas atividades diárias.

O mais interessante nas telas de José Carlos está no talento demonstrado para transformar a experiência do dia-a-dia em imagens densas, mas sem pieguice. A atividade é revelada em sua singeleza e dificuldade, mas não de maneira dramática, de modo a se constituir uma arte engajada.

A combinação das cores das roupas dos trabalhadores, como azul e vermelho, associada ao verde e o amarelo do campo, gera um resultado pictórico de grande intensidade. Cada tela do artista logra assim o seu propósito de encantar o observador e, simultaneamente, de fazê-lo refletir sobre a realidade dos canaviais.

O que impressiona na pintura de José Carlos é a sinceridade de seu trabalho. Pinta sobre aquilo que conhece e o apresenta sem crueza desmedida. Aplica, portanto, o seu conhecimento técnico, em franca evolução, para que possamos ver em cada trabalhador rural um lutador.

Assim como um escritor lida com as palavras, José Carlos estuda e domina as tintas, criando um mundo de trabalhadores rurais plenos de humanidade, extenuados pelo seu difícil serviço, mas concretizados com competência pictórica. Formas e cores compõem um universo em que cada indivíduo é retratado não apenas como mais um cortador de cana, mas como um ser único, cheio de vida, embora marcado pelas agruras do canavial.         

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

 

 

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

"Trabalho insaciável"

O.S.T -  
60X80cm 2002  

José Carlos

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio